
DOS PARENTES E SUAS HISTÓRIAS
PARTE 01: Do retrato na sala
Ficava logo na entrada da Sala de Visitas, no alto da parede, dentro de uma moldura, e media aproximadamente, em centímetros, uns cinqüenta por quarenta. Eu menino, década de quarenta, gostava de olhá-lo e pensar naquelas pessoas, algumas conhecidas pessoalmente, mas outras só de nome, porque já estavam mortas há muitos anos. Todos em trajes, digamos, de festa, terno e gravata, vestido de sair. Consideremos da direita para a esquerda. Na fila de trás Vovô Cajão com tia Maroca no colo, Vovó Maria Rosa, tia Dina, tio Nhô, meu pai Enes Teixeira na extrema esquerda. Na fila da frente os mais jovens, tia Antônia menina, tia Mariquinha mocinha, e os três garotos, tio Anito e tio Berlino, ambos com as botinas erradas, de pés trocados, e o último, o menorzinho, o tio João, bem na frente de papai. A família estava quase completa, faltava apenas a filha mais velha, tia Dica, que já estava casada e não pode comparecer.
Esse retrato, que hoje está em meu poder, foi tirado com certeza na primeira década do século passado, mais possivelmente entre 1904 e 1906. Por que penso assim? Vejamos, meu pai é de 1888 e ali aparece como um rapazola de no máximo uns dezoito anos. Razoável, não?
Havia mais de quarenta anos longe desse retrato, estava com o Geraldo meu irmão, desde que papai faleceu em 1963, recuperei-o agora. A princípio fiquei meio decepcionado, achei-o diferente, notei coisas que não vira antes, ampliação das antigas, claro, daquelas que o retratista tentava melhorar as caras usando o creiom, uma corrigenda aqui, um traço mais firme ali, e a fisionomia perdia sua originalidade. Papai mesmo está com a boca diferente, desenhada, lembro-me perfeitamente de como era. Porém, apesar desses senões, continua como um documento valioso, prova viva e única da família reunida posando para a posteridade, mostrando-nos como eram.
O primeiro que se foi desse grupo foi o João, o menino menor, moreninho, deve ter vivido muito pouco após a foto. Não ficaram muitas notícias, apenas que morreu de crupe, doença que costumava matar as crianças. Fiquei sabendo ainda que era o protegido de meu pai, caprichoso estava próximo dele, e que inclusive foi quem cuidou para que ficasse bem arrumado, roupa esticadinha e botinas corretamente calçadas. Seu nome não tenho certeza, mas deve ter sido mais um João Teixeira de Siqueira, igual ao pai, João Teixeira de Siqueira Dutra e ao avô João Teixeira de Siqueira Magalhães, uma dinastia dos Joãos na família.
A matriarca, a Vovó, Maria Rosa Gomes de Araújo Dutra, foi a seguinte a desaparecer, pode ser que em torno de 1915. No retrato, aparece com um coque, orelhas salientes, cabanas, diziam-na feia, a mais feia na foto. Aliás, tendo em vista alguns parentes Gomes que conheci, muito feios, penso que os Gomes eram realmente feios. Consta que vovó, ao entrar na menopausa, ficou meio perturbada, talvez em depressão, quando provavelmente logo depois morreu. Papai chegou a me falar de seu avô materno, Manoel Gomes, o proprietário da Fazenda da Prata. Contou-me que lembrava de que quando criança, na casa desse avô, tomou um tombo e ficou chorando. Uma negra ex-escrava, que estava por perto, não sendo expedita, não o socorrendo a tempo, foi levada para o tronco e levou uma surra por ordem do avô.
Ainda sobre os Gomes da Prata..., o seu Ninico Poubel, já nos seus quase noventa, mas de cabeça boa, certa vez há muitos anos, falou-me sobre eles. Não sei se o que disse era verdade, não os conhecera, mas sabia de ouvir dizer. Era uma família de gente braba, rude, e com muitos epiléticos. Comentava-se que quando na redondeza um escravo começava a prevaricar, a melhor maneira de corrigi-lo era ameaçar vendê-lo para a Fazenda da Prata. Logo, logo, ficava bonzinho. Lá eles eram muito mal tratados. Ele disse que certa vez um negro por vingança tocaiou um dos Gomes numa moita de bananeira e o matou a machadada. Naturalmente que logo depois também foi justiçado.
A Fazenda da Prata sempre me intrigou. Apesar de ter passado por lá várias vezes nunca tive oportunidade de ver, mas segundo soube, ainda existiam na década de quarenta uns restos de ruína da casa grande. Ela ficava na estrada para Cachoeiro, chegada da Vila de Conceição do Muqui, onde a estrada fazia uma curva.
Vovó tinha pelo menos duas irmãs, tia Januária e tia Rosa. Lembro que meu pai tinha muita consideração pelas tias e as visitava sempre.
Tia Rosa eu conheci, uma velhinha pobre, que ficava recostada na cama. Me lembro de cinco de seus filhos, três homens e duas mulheres, não vou tocar em nomes. Um pessoal danado de feio, sobrancelhas espessas, tipo general russo da segunda guerra, orelhas enormes em forma de concha. A gente quando criança implicava, chamando os meninos filhos dos primos de orelha de capa de cangalha, ou boi Uberaba, coisas assim. Era motivo de briga.
Quanto a tia Januária, apelidada de tia Jáua, não me lembro dela. Soube que era uma mulher alta, de muita personalidade, e muita fibra. Gostava de fazer bailes na sua fazenda, e fazia questão de abrir as danças, sempre com meu pai, seu sobrinho e par preferido. Teve também muitos filhos e filhas, conheci a maioria, uns altos e fortes, outros nem tanto, o falecido marido, seu Pedro Silva, de nome muito lembrado, que faleceu bem antes dela, imagino não deve ter sido corpulento. Não eram tão feios como os da tia Rosa, mas alguns também de orelhas grandes e cabanas, traços característicos da família.
O terceiro da foto a nos deixar? Bem, não vou saber, não tenho essa informação, sei dos seguintes, sem ordem de seqüência, que partiram nas décadas de 1920 e 1930, por ordem de idade: tia Dica, tio Inhô, tia Mariquinha, e tia Antônia. Cada um, como quase todo mundo, com história triste para lembrar. Tio Berlino e o Vovô Cajão morreram na década de 1940, o primeiro no início e o último possivelmente em 1946, ou 1947, com 88 anos de idade, estive no velório e me lembro. Papai, como já disse, em 1963. Depois foram os remanescentes, tio Anito, tia Maroca e finalmente tia Dina, mulher de muita raça e persistência. Estes talvez nos anos de 1970, a conferir.
Vila Velha, Dezembro de 2009.
João Hertesi
