Flechado pelo Cupido



Estávamos estudando na copa da casa da Madrinha, eu e um colega, o Zé meu primo, possivelmente em agosto de 1951, quando ela chegou, apareceu na porta, balançou o cabelo comprido lindo, e nos vendo, tímida se afastou, foi embora. Pensei, “que lindeza meu Deus!” E descontraído, de brincadeira, de gozação, lembro que falei alto, bradei, quase um grito: "esta menina vai acabar comigo!", e rimos.

Não sei bem porquê, que acontecimento o justificasse, mas a partir daí, fiquei com a idéia de que ela queria namorar o Zé. Talvez porque tenha começado a ficar na janela nos observando quando a gente passava, o nosso grupinho, eu o Zé e o Jairo. O certo é que não pensei em mim como o namorado, claro que ela não me queria, era com certeza o Zé, que era moreno, alto e bonito. Eu era louro, claro, olhos azuis esverdeados, e depreciativamente chamado de ruço ou olho de gato pelos outros meninos quando queriam me ofender. Nos xingamentos costumavam me chamar também de Vovô. O conceito que eu tinha, naquela época e naquele ambiente de gente morena, era que a beleza estava ligada à cor morena, olhos castanhos, cabelos pretos. Por isso, eu me considerava um feio e tinha um pouco de complexo. Só mais tarde, com o cinema, é que fui ver que havia muita gente ruça e loura que eram consideradas bonitas.

Eu costumo dizer que para mim, nas minhas contas, o nosso namoro, o nosso caso de amor, durou aproximadamente quatro anos. Em 1951 ele nasceu, em 1952 ele floresceu, em 1953 ele adoeceu, e em 1954 ele morreu. Não, não é bem assim não, devo esclarecer e corrigir, pois namoro é estrada de mão dupla, tem ida e vinda, depende de dois e não de apenas um. Provavelmente eu não percebia, ou talvez não quisesse perceber, mas é possível que lá pelo segundo semestre de 1953 ou mesmo antes, ela já estivesse me esquecendo e bandeando para outros lados, desse a entender que estava entrando noutra, noutros interesses, cansada de mim. Todavia, no referido, os anos acima citados continuam válidos quando se trata não do namoro em si mas de algo muito mais profundo, de mão única, de mim para ela, dos meus sentimentos, da minha paixão. Tentarei esclarecer melhor essas idéias mais adiante à medida que for relatando os acontecimentos.

Em 1951.

Durante todo o mês de outubro havia em Calçado as “Procissões do Rosário”. A Santa ia levada em cortejo de casa em casa, onde pernoitava, no dia seguinte seguia para outra casa. Muita gente acompanhando, as crianças na frente, depois as moças e as mulheres, os homens atrás. Eu atrás, já me considerando meio homem. Naquele dia estava em companhia do Zé Alberto da dona Rita, mais ou menos da minha idade. Levamos a Santa para a casa do seu Cabral, o pai da Irmã Marta, que ficava fora da cidade, lá para os lados da chácara de seu Carlos Nunes. Depois da cerimônia de entrega e das rezas e cantos, ficamos por ali, eu e o Zé, nos preparando para voltar. Quando umas meninas, em um grupo, entre elas a dita cuja, chamaram o Zé Alberto. Eu fiquei de longe esperando. Ele foi, conversou, recebeu qualquer coisa, voltou e falou comigo, "é para você", e me entregou um pedacinho de papel. Fiquei surpreso, “pra mim?” Não esperava, abri, uma tirinha com duas linhas, onde a lindinha escrevera, com uma letrinha bonita, regular e redondinha, se dirigindo a mim, dizendo que queria me namorar. Surpresa de não acreditar, fiquei fora de mim, morri de contentamento, subi para o céu, e fui correndo, leve, um anjo sem asas, para a casa da Madrinha, mostrar a novidade para minha confidente, a Bastiana.

Ela foi a nossa grande cúmplice, a amiga, a confidente, a que compreendia, que sabia de tudo, que a partir de então levava os meus bilhetes e trazia de volta os dela, os quais eu recebia eufórico e corria para o fundo do quintal, onde os lia e relia, debaixo das mangueiras. Acompanhou passo a passo todo o nosso idílio proibido. Sem esconder meu entusiasmo, minha alegria, abria-me com ela, contando tudo, tintim por tintim, verdade ou fantasia, que passasse pela minha cabeça. Foi uma época muito feliz.
Surpreso, cabeça de vento, comecei a descobrir várias coisas, o significado de diversas palavras, entre elas o que era o flerte, expressão tão comentada pelas minhas irmãs mais velhas quando contavam casos de namoro, e que eu não entendia. Ah! Flerte era então aquelas trocas de olhares, tão gostosas, às vezes uma piscadela, um risinho, coisa e tal, cujas mensagens diziam mais que qualquer outras, inclusive palavras ou bilhetes?

O amor, o tão propalado amor, palavra vã que até então não me dizia nada, começava a ter significado, igualmente a outras, amor, romance, paixão. As letras de músicas melosas, poemas, novelas, filmes de amor, tudo antes uma chatice, passaram a ser vistos com outros olhos, de outra maneira. A gente está amando quando pensa no outro o tempo todo, de manhã, de tarde, de noite, e quer estar junto, vendo e admirando, sonhando, fantasiando. Imaginação fértil criou asas, nós dois, um do outro, vivendo um para o outro, o resto não existia, mais ninguém no mundo.

Tempo de felicidade, 1952, eu na terceira série e ela na primeira, estudávamos na parte da tarde, e nos cruzávamos nas andanças e travessias, olhos nos olhos, uma piscadinha, um sorriso de saliência. No Ginásio moça não podia conversar com rapaz, era o regulamento, namoro ou mesmo amizades, só lá fora. Mas nós nem sonhávamos com isso, conversar como? E as proibições, os vigias, o controle. Nos recreios e nas filas para entrada nas salas, junto às portas, eu na minha ela na dela, era outra oportunidade de nos olharmos.
Em casa, das janelas, ela de lá eu de cá, de bunda torta virada para um lado, como brincava a Madrinha, estávamos presos, com grude, eu principalmente preso nela, sem controle, a vizinhança toda começou a nos perceber e a nos vigiar. O Neném que morava em frente e era um debochado um dia mexeu comigo “oh rapaz, você está querendo casar, hem?” Não gostei nem um pouquinho da brincadeira, mas não disse nada, engoli em seco e fui em frente, tinha que tomar mais cuidado.

No íntimo, lá por dentro, não me cabia de orgulho, tinha uma namorada, que gostava de mim e eu dela, estávamos amando e sendo amados, não existia nada igual. Moral no alto, complexos superados, vaidade atendida, enfim eu não era mais aquele feioso que antes imaginava, mas mesmo se fosse não tinha mais importância.

Na igreja, ela meio criança ainda ficava lá na frente junto do altar mor, no grupo das cruzadinhas, e eu longe, lá atrás, metido a homem, já no meio deles. Mas na hora da comunhão, quando me dirigia até ao altar lá na frente, procurava-a com os olhos e lá estavam aqueles olhinhos lindos postos em mim.
Primeiro susto, um papo do Alfredo, que era da minha idade, que me alertou. Nós dois sentados no meio fio, próximos da cadeia, quando passou um grupo de meninas e o Alfredo, apontando entre todas a mais bela, sem saber que eu gostava dela, que era a minha amada, falou que estava de olho nela, naquela donzela, querendo namorá-la. Não cheguei a perder noite de sono, mas foi a primeira vez que me veio a idéia de que poderia um dia perdê-la, o que me deixou triste e preocupado.


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Ao mesmo tempo era bom e triste estar apaixonado. Vamos parar por aqui, ou mudar de assunto. Hoje não quero tratar das tristezas...


H. Teixeira de Siqueira,
Vila Velha, maio de 2008.





 

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