HERÓI ANÔNIMO

 

Há no Brasil milhões de heróis esquecidos. Sem medalhas, honrarias ou qualquer reconhecimento por parte da sociedade, tocam as suas vidas com lisura e ética, em busca de utópica felicidade, enquanto uma minoria privilegiada vai passando por cima de leis, quebrando regras, não se importando com os caminhos sujos dos quais trilham, tampouco se constrangem com as negociatas que lhe trazem riquezas.

Numa sociedade que consagra o ter em detrimento ao ser, tudo é esquecido em troca de meia dúzia de dinheiro, ou por nada, apenas a presença destes cidadãos diante da plebe, posando-se de rei é mais do que suficiente.  Essa inversão de valores só faz aumentar e consolidar a gritante e abismal distribuição de renda, um fosso social que segrega e humilha quem trabalha e deixa seu suor e sangue pelo caminho.  “Eta!” país injusto, de desigualdade tirana, que acorrenta e fere. “Eta Brasil.”
 
Entre tantos, venho falar de um herói em especial - verdadeiro, de carne e osso; humilde trabalhador brasileiro que honra a pátria – digno e solidário. Com braços fortes constrói e com coração puro e a cabeça privilegiada promove ensinamentos. Um ser humano na total acepção da palavra, que passou pela vida construindo moradas em troca da felicidade alheia.

Nascido no alto do Bandeira, pais humildes colonos, plantava e tocava juntos aos irmãos lavoura de café e produtos para subsistência. A maior parte da colheita era vendida na cidade, ou trocada por tecidos, sal, querosene, remédios, e outros.  Cursou somente o primário, porem muito curioso, lia muito, compreendia e passava para frente conhecimentos. 

Muito habilidoso, lavrava madeiras, fazia balaios, móveis, currais, porteiras, carros de bois, casas, e tantos outros trabalhos manuais. Aos dezessete anos foi com a família para o Córrego da Areia, onde se casou aos 30 anos.

Mudou-se para Serra do Tardem (RJ) trabalhou na roça, fez diversos serviços de carpintaria e, realizou um dos feitos mais nobres – Acolheu juntamente com a esposa uma menina de seis anos órfã de mãe e abandonada pelo pai. Com sorriso nos lábios, repetia uma frase de domínio público, lapidar: Onde se come dois, come três. E foram sete filhos e nove bocas, a casa pequena encheu porem, houve espaço de sobra para o amor e a felicidade.

Nunca mais sua voz serena e a fina ironia.  Nunca mais as historias e os exemplos de vida.  Jamais esquecerei os belos momentos em que juntos passamos, trago comigo o gosto pela arte em construir, fazendo pequenos reparos; sou eterno aprendiz de pedreiro e me orgulho muito do mestre. Por muitas vezes trabalhando ao seu lado como servente, sol quente de verão parava para reclamar e Ele dizia: Isto é para você ver como é que pobre sofre!
                                                                                    

Oh! Meu Velho e querido Carpinteiro, equilibrista de andaimes impossíveis, que ganhou a vida desafiando a lei da gravidade, dependurado em vãos livres inatingíveis, percorrendo colmeeiras nas nuvens enquanto media, serrava e martelava o prego na madeira, finalizando telhados, seu ofício, sua religião.

A dor é imensa e a saudade é doída demais, lembro-me a todo o momento seu dedo dizendo um não sem palavras, sinto falta do som estridente produzido pelo atrito da lima amolando o serrote, nos fins de tardes, que tanto irritava e agora é uma linda cantiga, que  queria escutar novamente.

Hoje percorro a cidade a enumerar suas obras, não o vejo, também pudera subiste no mais alto andaime e agora certamente esta ao lado do Pai, bem longe do alcance dos olhos, mas muito perto - dentro dos nossos corações.

Ilídio Valim de Rezende - 08/02/1927 * 25/09/2009

 


Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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