Linda Lídia


Era a professora de Geografia. Agora, por sinal, teremos aula com ela.
E o Lomba é o último a sentar quando chega a professora.Nossa beldade traz em uma das mãos um mapa-múndi enrolado e na outra a caixinha de giz e sua bolsa.Seus longos cabelos escuros ainda estão um tanto molhados pelo banho matinal.Ela respira saúde e frescor.Um ventinho amigo entra pelas amplas janelas e vem brincar com as pontas de seu vestido amarelo com braçadas de florzinhas multicores estampadas,fazendo-o ondular.Ela o ajeita de modo gracioso e discreto.Como são lindas suas pernas...Sem um defeitinho sequer.Douradas de sol--talvez tenha passado o final de semana em Marataízes ou Guarapari.Seus seios são firmes e nem grandes nem pequenos.Para falar verdade,se fossem pequenos ou grandes,seriam apetitosos do mesmo jeito.Terá feito amor?Com certeza. É recém-casada. Devem estar feito coelhos. O felizardo do marido não deve lhe dar sossego--e nem ela a ele.
Após colocar a bolsa e a caixa de giz em sua mesa, cujas laterais e parte oposta são fechadas, dirige-se a todos e pergunta qual o cavalheiro que podia fazer o favor de pendurar o mapa no prego um pouco acima do quadro-negro, que ela não alcança. O Lesqueves e seu inseparável amigo Cabeção logo se levantam, mas o Lomba dá um pulo da cadeira e chega primeiro até ela,suspende o mapa e o pendura.Demora a sair de perto da professora,como se tivesse algo a lhe dizer e tivesse esquecido.Ela lhe agradece pela terceira vez e aí ele se lembra de voltar para seu lugar.Nada demais.Todos estão sujeitos a esses súbitos esquecimentos.Alguns dão risadinhas.Lesqueves,filho de rico comerciante e futuro playboy(a professora Lídia caiu na besteira de dizer que ele se parecia com o Paul Newman do filme “Butch Cassidy and The Sundance Kid”,há dias passado no Cine Broadway,cuja trilha sonora “Raindrops Keep Fallin On My Head”,de Burt Bacharach,interpretada por B.J.Thomas,nunca mais saiu de minha cabeça.Todos os adolescentes que o viram, a despeito de os padres do Ginásio aconselharem que não,queriam ser marginais,assaltantes de banco,no mínimo,e ter por companheira uma Katharine Ross,que por sinal interpretava uma professorinha também).
Lesqueves agora a importuna, todo galante,crente que está abafando,mexe com o Lomba, dizendo que seu amigo Cabeção viu um rasgão na calça dele.Lomba,sorrateiramente, corre o dedo pelos fundilhos da calça e fala,de maus modos,após o exame:
--Rasgada, você sabe quem está.
Lesqueves leva a réplica na chacota e dá uma risadinha chocarreira. Cabeção reclama que não disse nada e dá uma cotovelada em Lesqueves, que se senta a seu lado. Tudo combinado.
A professora finge que nada ouviu e fala para a turma:
--Vamos continuar recordando alguma coisa sobre os países da América do Sul--e graciosamente aponta com uma varinha a região a ser estudada. Mas--pra quê que ela foi dar confiança ao Lesqueves?...Ele a interrompe com uma pergunta que nada tem a ver com a aula:
--É verdade que os esquimós deixam uma visita dormir com a mulher deles?
A professora Lídia dá uma espécie de suspiro e diz:
--A aula não é sobre os esquimós, Lesqueves.
Cabeção cacareja e Lesqueves apenas sorri.
Todo mundo está desejando conhecer os mistérios que cercam o Pólo Norte. É um desejo repentino da gente. Por que não começar a falar do mundo de cima para baixo?Por que não seguir pela ordem, os mais ricos e depois os mais pobres?Ela falaria uns dois meses sobre o Pólo Norte e depois mais dois meses sobre o Alaska, sobre o norte do Canadá, sobre a Escandinávia, sempre com o auxílio do mapa, é claro. O mapa é essencial em Geografia. Era só a professora Lídia se colocar nas pontinhas dos pés, que não teria qualquer dificuldade em alcançar aquelas regiões setentrionais com a sua varinha--ordem danada de arbitrária, a nossa...
Mas não. Ela teima em falar sobre a América Latina e, para piorar as coisas, começa pelas pontas da Argentina e Chile que olham para a Antártida.
E então aconteceu. Numa das aulas, o Lomba não se agüentou e se masturbou na carteira, dirigindo o jorro que lhe saía para onde púnhamos os livros e cadernos. Melecou-os todos, com certeza, olhos vidrados na professora Lídia. Esta, ao ouvir o barulho da carteira ao ser agitada, e a cara de epiléptico do Lomba,ou o ricto de uma santa flagrada em pleno êxtase,não compreendeu o que exatamente se passava.Deve ter pensado que o aluno estava tendo um ataque,ou que vomitava.Entretanto,as risadinhas dos que se sentavam próximos a ele,devem ter expulsado essa idéia da bela cabecinha da professora—pois quem ia rir de alguém passando mal?
Lomba foi expulso do Ginásio por esse seu desvario.
Nenhum de nós o culpou pelo que fez, pois todos nós, tenho certeza, em casa fazíamos o que o Lomba tivera a coragem ou o desatino de fazer em classe. Ele, enfim, de todos nós, foi quem a ”possuiu” o mais proximamente possível. Nós a “possuíamos” também, mas em locais nada românticos (mas quem queria saber de romantismo?!), como o banheiro de nossas casas, no fogo mental de tentar imaginar seu corpo. A imaginação, porém, por mais viva nunca poderá superar as imagens brutas colhidas pela nossa retina dum objeto que se move à nossa frente, quase ao alcance de nossas mãos, do qual podemos captar o odor e o calor que dele emanam.
A Beleza toda do Universo está nesse pontinho de carne à nossa frente. Nele investimos por instantes todas as potências de nosso pensamento. Só podemos sorrir com um misto de complacência e desdém para aqueles que afirmam do alto de toda a sua ciência que 98% dos genes dos chimpanzés são iguais aos nossos. Ou nada existe entre genes e corpos ou a pesquisa é um equívoco. Falta proporção.
Era de matéria o corpo da professora?Pela ciência mais atualizada, era todo feito de corpúsculos rodopiando em tal velocidade e deixando entre eles tantos espaços vazios, que era até um milagre que seu corpo oferecesse resistência a um ocasional raspão. Milagre o encontro mais íntimo de fluidos corporais, de carnes pulsáteis e queimantes, em baldada fúria de atingir um ponto que ludibriava ao se afastar por uma gruta que não tinha fim, e que por sua vez também estava possuída de uma baldada fúria de entrega, de rendição e aconchego, que nunca se consumavam.

Teresópolis, 27 de janeiro de 2008.

Carlos Rezende



 

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