Loro


A meu pai


Loro é calçadense à força. Veio de um boteco da zona rural de Cachoeiro, muito freqüentado por cachaceiros, trazido por meu pai, que gastara um dia para encontrá-lo e escolhe-lo.
Chegou à casa de meus pais, na Fazenda Velha, muito amuado, muito danado da vida por ter sido tirado de seu antigo dono ao qual já se habituara. Não queria saber de ninguém, não queria nem comer, e para mostrar toda a sua indignação, jogava a cabeça para trás e a metia por debaixo de uma das asas, e assim ficava ensimesmado, por horas.

Mas como não há nada que dure para sempre, certo dia resolveu fazer as pazes com o mundo, deixou de lado sua tristeza e entrou a gozar de todos, vingativo, ferino, sem papas na língua, como é do feitio dessa espécie de ave.

Primeiro fazia a chamada de todos os moradores da casa, nome por nome, para início de trabalho diário de papagaio. Se alguém respondia, dizia, para confirmar quem o chamara: "É o Looooro!”. Se ninguém respondia, dizia maldoso: "É o cúúúú!” Ninguém da nova moradia sua lhe ensinara esse palavrão. Portanto, no intuito de lhe tirar esse mau hábito, meu pai pegava de uma bengala, ia até sua gaiola e fazia gestos de quem o ia castigar. Então, como não era bobo, desarmava seu dono com um sonoro: "É o Loooro!”, dito de modo muito afetuoso, em voz mais baixa, com intimidade, naquele tom que só papagaio tem, como quem dissesse: ”Era brincadeira,não leve a sério”.

Quando a cachorra da raça fila latia para alguém no terreiro, Loro dizia bem alto: "Peeega!, Peeega!”, açulando ainda mais o animal, que ficava quase fora de si.

Se algum trabalhador de roça vinha conversar com meu pai, Loro se metia na conversa, repetia de modo atrapalhado as falas do diarista e, por fim, se mostrava tão inconveniente,que meu pai se zangava com ele.Só então fechava o bico.

Travei meu primeiro contato com ele desse modo: aproximei-me de sua pessoinha e lhe pedi o pé. O Loro, que não dá intimidade a quem não conhece, me aplicou uma bicada tão certeira e violenta no dedo indicador, que o sangue velho escorreu abundante da ferida, como se navalhada fosse. Não deixei por menos. Apliquei nele um cascudo que quase o fez cair do poleiro. E foi assim que o domei, já que essa classe de voante assemelha-se, neste pormenor comportamental, a cavalo xucro. Agora,quando escutava o barulho de minha moto,dizia alto, em modo de anúncio de visita para os de casa: "É o Carrrrrlos”.

Aproximava-me dele, dava estalidos com os dedos em direção à sua cabeça. Ele então a abaixava, respeitoso, olhinhos fechados e deixava que eu catasse seus piolhos pelo tempo que quisesse. Estranhamente, isso agradava tanto a mim quanto a ele. Mais a ele, na verdade, pois parecia ficar hipnotizado de prazer e, de certa feita, quase caiu do poleiro, de puro deleite.

Foi quando a empregada, a Marlene, por puro despeito e malvadeza, lançou uma terrível acusação ao Loro, chamando-o de gay--Loro gay. Meu pai saiu em sua defesa e pôs logo um basta naquela difamação do bom nome do Loro. O bichinho não tinha culpa de gostar mais de nós dois, de meu pai e de mim.

Quando meus pais se ausentavam de casa por alguns dias e retornavam, recebiam as boas- vindas do Loro, o qual se comportava de um modo muito original e cativante. Assim que os via, abria a cauda em amplo leque, suas pupilas dilatavam-se e contraiam-se alternadamente, eriçava todas as penas, e as da cabeça tomavam a forma de um topete cuja altura variava em frações de segundo, ao mesmo tempo em que girava o corpo várias vezes, excitado ao extremo, no poleiro. E o mais engraçado: imitava o som de uma sonora gargalhada humana, duas, três vezes repetida.

Seu vocabulário não é grande e só aprende o que quer, por conta própria, criatura autodidata. Já vi papagaios muito mais falantes, porém o Loro ganha de todos no modo afetuoso de interagir com os humanos. Uma única palavra, ele a fala com diversas entonações diferentes, dependendo da pessoa a quem se dirige. Portanto, não é um mero imitador, e tem lá os seus critérios de reconhecimento.

Na véspera do dia em que meu pai morreu, tive vontade de por a gaiola do Loro no quarto em que ele ficava. Quem sabe a sua querida ave não o tirava da pesada modorra e o fazia abrir os olhos ao menos... As palavras da enfermeira não surtiam efeito: ”Abre esses olhos azuis bonitos, Dr. Pedro. Seu filho está aqui”.

Mas não cheguei a por em prática minha idéia. Loro perdeu seu dono no dia seguinte, bem cedinho. Nunca cocei tanto sua cabecinha como nesse dia. Sem dúvida, meu gesto era deslocado, destinava-se a uma pessoa. Desculpe meu pai, desculpe Loro.

Teresópolis, 14 de fevereiro de 2008.


Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br




 

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