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(Conto que faz parte do livro “CONTOS DA VIDA REAL”
que será publicado em breve).
A
vida é uma peça de teatro que não permite
ensaios... Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente
cada momento de sua vida, antes que a cortina se feche e a peça
termine sem aplausos...
Charles Chaplin
Próximo a Apiacá, no vale do Itabapoana, tem um
local muito procurado pelos pescadores da região –
Gabiroba – onde era muito comum (não sei se continua
sendo) as pessoas irem em busca, não só de peixes,
mas também de jacarés que existiam no rio preto.
Muitas
pessoas de Calçado freqüentavam a Gabiroba. Levavam
barcos com equipamentos para a caça aos jacarés.
Todo tipo de anzol para peixes, além das tralhas de cozinha
para, lá mesmo, consumirem os frutos da pescaria. Muitos
iam mais para as farras que propriamente para pescar. Rolava sempre
uma boa pinga que era o principal ingrediente das moquecas.
Certa
vez, o Mané Ganso e o Sérgio Furtado resolveram
pegar emprestado um caminhão Chevrolet Tigre, ano 1947,
que meu pai tinha e utilizava para debulhar milho na região
(na época, única máquina ambulante que existia
para este tipo de serviço) para uma pescaria na Gabiroba.
Eles mesmos tiraram de cima do caminhão a máquina
que era presa por grandes parafusos, deixando a carroceria livre
e sem peso para melhor locomoção do veículo.
Juntaram
toda a bugiganga necessária para passar o final de semana
na Gabiroba e resolveram levar o meu cunhado, José Antônio
de Souza, mais conhecido por Zezinho, além do filho do
campeiro - o Chico - que tinha em torno dos 11 anos de idade.
O
Zezinho sempre foi um sujeito muito sistemático. Não
gostava de brincadeiras. Muito sério e cheio de manias:
não dormia fora de casa, não comia na casa de ninguém,
não gostava de esperar pelos outros e nunca teve paciência,
principalmente para pescar. O Sérgio e o Mané Ganso
conseguiram convencer meu cunhado que voltariam logo e que precisavam
dele para ajudar na caça do grande jacaré que havia
desafiado até o Zinho Lima.
Como
o Zezinho gostava de uma aventura, foi logo arranjando sua arma
de fogo (um revólver calibre 38), munição
e o facão que sempre carregava. Lá foram os quatro
para a Gabiroba, no velho e pequeno caminhão a gasolina.
Era
noite de lua cheia e o tempo estava firme. Uma noite bastante
propícia para uma boa pescaria. Lá estavam todos
ansiosos para encontrarem o tal jacaré de papo amarelo
tão cobiçado pelos caçadores. Sérgio
e Mané Ganso já tinham tomado algumas, quando o
Zezinho, muito aflito, perguntou:
-
Onde está o tal jacaré que vocês falam tanto?
Acho que aqui não tem nenhum jacaré. Neste riozinho
só deve ter é lambari!
-
Calma Zezinho! – disse o Chico, muito esperançoso
de ver o tal bicho.
O
Zezinho, sentindo muita dor de dente, disse que preferia ficar
no caminhão enquanto os outros três estivessem pescando.
Disse, ainda, que se o jacaré aparecesse era para chamá-lo,
pois ele gostaria de dar um tiro bem certeiro na cabeça
do réptil.
Mal
sabia o Zezinho que o Sérgio e o Mané Ganso estavam
aprontando mais uma de suas artes. Os dois amigos, sempre brincalhões
e com pouco juízo, planejaram dar um belo susto no Zezinho.
Viram um pedaço de pau com aproximadamente três metros
de comprimento por uns 30 centímetros de diâmetro,
ao lado de um remanso na curva do rio que corria lento pela noite
clara. Pensaram em jogar aquele pedaço seco de árvore
no rio, simulando a queda de uma pessoa.
Existia
uma capoeira bem fechada no local onde escolheram para passarem
a noite e, entre o caminhão e o rio, tinha uma picada já
bastante explorada pelos pescadores que habitualmente por ali
passavam. O Sérgio sugeriu ao Mané Ganso que amarrasse
uma corda entre os arbustos, a uma altura de mais ou menos meio
metro, como se estivessem bloqueando a passagem pela picada.
Os
dois chamaram o Chico e, para que ele não se assustasse,
lhe contaram o plano, pedindo que não falasse nada com
o Zezinho. Eles iriam jogar no rio o tal pedaço de árvore
e quando acontecesse o barulho na água o Mané Ganso
começaria a gritar que o Sérgio havia caído
no rio e que, por não saber nadar, poderia morrer afogado.
E assim o plano foi levado em frente.
A
lua refletia seus raios no remanso do rio preto e apenas se ouvia
o cricrilar dos grilos, quando os dois malandros jogaram o tronco
de madeira n’água e o Mané Ganso começou
a gritar que o Sérgio havia caído no rio. O Chico,
cúmplice dos dois, foi logo falando:
-
Zezinho. Corre logo que o Mané Ganso está gritando
que o Sérgio caiu no rio. Vamos logo, que ele não
sabe nadar!
-
Chico, nem pense numa coisa dessas! – Retrucou o Zezinho,
preocupado e já se preparando para ir em socorro do Mané
Ganso.
Desce
os dois do velho caminhão e o Zezinho, mais aflito, parte
na frente em disparada e, não vendo a corda esticada à
sua frente, sentiu suas pernas presas e foi ao chão, num
tombo espetacular, ferindo-se nos galhos secos jogados na trilha.
Naquele momento, percebeu que tudo aquilo não passava de
uma brincadeira de mau gosto dos companheiros de pescaria. Foi
quando avistou o Mané Ganso logo à frente quase
morrendo de tanto rir e o Sérgio, bem do outro lado da
picada, começou a dar gargalhada chamando a atenção
do meu cunhado que, já com o facão na mão,
esbravejou:
-
Seus moleques safados! Vocês me pagam. Eu vou matar vocês
dois, seus desgraçados. Vocês não me escapam...
O
Zezinho correu atrás dos dois, muito enfurecido e dizendo
todo o tipo de xingamento, durante mais ou menos uma meia hora.
O Chico, morrendo de medo, começou a gritar, pedindo a
ele que não fizesse aquilo, que deixasse os dois pra lá.
Foi
muito difícil para o Sérgio e o Mané Ganso
chegarem perto do Zezinho que não se conformava com aquela
brincadeira. Sorte dos dois que o revolver havia ficado no porta-luvas
do carro. Caso o Zezinho tivesse a arma na mão seria capaz
de atirar nos dois brincalhões, de tanta raiva que passou.
Passados
uns bons minutos, o Mané Ganso gritou para o Zezinho, pedindo
desculpas e disse que deveriam voltar para casa. Só assim
o Zezinho se acalmou, pois o que mais queria era voltar imediatamente.
Na
viagem de volta, o Zezinho ficou na carroceria do caminhão
junto com o menino Chico. O Sérgio e o Mané Ganso
ficaram preocupados, pois não esperavam uma reação
tão forte do Zezinho. Por um bom tempo o Zezinho ficou
sem falar com os dois e até hoje, quando se toca no assunto,
ele fica nervoso.
Não
são os grandes planos que dão certo. São
os pequenos detalhes.
Stephen
Kanitz
Marcio
José Furtado

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