NOITE DE LOBISOMEM!



Era semana santa de 1972. Estávamos lá na roça e, como consta da crendice roceira, as quintas e sextas-feiras da semana santa determinam a data propícia para o plantio de alho. Naquela tarde, eu, Eulina, Maria Alice, D. Eni (mãe do Ceni Tatagiba) e mais uns dois colonos, preparávamos os canteiros e plantávamos o alho. A tarde estava ótima para lidar com horta, chuva fina com um clima bem agradável naquele alto de serra de Calçado. Gastamos a tarde toda. O assunto que mereceu maior ênfase, como não poderia deixar de ser, era que aquela noite era noite de lobisomem. Fatos e mais fatos “acontecidos” em vários lugares, envolvendo pessoas conhecidas, eram contados um após o outro. D. Eni, saindo da horta, aconselhou “isto não é coisa para se zombar. Discunjuro. Vou pra dentro fazer a janta enquanto é cedo”. Apesar da advertência, fomos levando o assunto, uns rindo, outros se benzendo. Já escurecendo, terminamos a tarefa e cada um foi para sua casa. Era noite quando, de banho tomados, fomos jantar. Lá pelas 8 horas da noite, Denílson e Erilia (filhos da D.Eni) já dormindo, fomos para a varanda da frente conversar e assistir o aparecer da lua. A casa era alta e dali observávamos a lua surgindo atrás do pasto mais alto do “Seo” Walder Vieira. Repentinamente, fomos assustados por um barulho estranho vindo dos fundos da casa. Maria Alice disse “a cozinha caiu, vamos socorrer o Chico”. O quarto em que o Chico Hermenegildo dormia saía na cozinha. Partimos para lá e encontramos o Chico vindo ao nosso encontro, espantado, dizendo “alguém machucou? Eu ouvi o barulho da frente da fazenda caindo e vim socorrer vocês”. Espanto geral. Não tínhamos luz elétrica. Acendemos o lampião, mais lamparinas e lanterna. Lá fora ninguém ia. Nesse transe, começam uivos, miados, latidos, parecendo que cães, gatos e mais não sei o quê, lutavam no quintal. Maria Alice, olho arregalado, gritou “é o lobisomem. Vai ver lá fora Chico”. D. Eni, desconjurava e dizia “eu avisei cedo para não brincar com isto”. Chico Hermenegildo, munido de um cabo de enxada, mandou Maria Alice abrir a porta da cozinha e, por uma pequena greta aberta, Maria Alice empurrou o Chico para fora e fechou a porta. O pobre coitado, sem nada na mãe para clarear, batia na porta “abre a porta e me dá a lanterna”. O medo não nos permitia nova investida na porta. Só ouvimos o resmungo “gente medrosa, que situação eu fiquei”. Corremos para varanda da frente. Não víamos nada, só ouvíamos o barulho do Chico sentando o cacete e os cachorros latindo. Nisto, vimos um vulto atravessando o terreirão, indo para a estrada em direção à serra do “Seo” Walder. Daí a pouco voltou e, nos vendo, pediu para abrirmos a porta, pois o serviço estava feito. Era o Chico Hermenegildo. Entrou e relatou “era o gato ladrão que o Denílson havia “matado” e jogado na moita de bambu e que estava de volta. Agora acabei de matar”. Fechamos a porta da cozinha e da sala e fomos deitar, porém custamos a pegar no sono. O tal barulho ouvido, até hoje não chegamos a uma conclusão do que tenha sido.

 

CHUVA DE PEDRA NO ALTO DE SERRA

Era final do dia 31 de março de 1999, sexta-feira. Saí do Banco correndo e fui para casa apanhar Eulina com as crianças e meu pai, para irmos para nosso Alto de Serra, em Calçado. Já estavam todos a postos, bagagem arrumada nosso fusca branco, comprado do Honório Lima,no Palmital (não gosto do nome Airituba). Viagem iniciada. No alto da Volta Fria, avistamos a tempestade que se avizinhava. Pisei fundo. Chegamos em Calçado, largamos o asfalto e meu pai disse “acabou-se o que era doce, agora é estrada de chão”. O temporal ia desabar a qualquer momento. Passamos voando pelo campo do Recreio, fazenda da Memória e, subindo a primeira serra, Eulina olhou a pedra do Pontão, totalmente encoberta, nos alarmou “vamos tomar a tempestade na metade da segunda serra, corra”. Eu, já apavorado, me recriminando,pisava no acelerador com toda força, quase vazando o assoalho do carro. A ventania fazia com que vários galhos se desprendessem das árvores e voavam desnorteados. Relâmpagos brancos, acompanhados dos estampidos, eram incontáveis. Nesse quadro de pavor, finalmente chegamos. Maria Alice e D. Eni, apavoradas com nossa imprudência, levavam o pessoal e bolsas para dentro de casa. Eu e Eulina, que havíamos criado em Bom Jesus, uns filhotes de perus, fomos prende-los no pinteiro. Quando ouvimos um ronco longo, bem forte, vindo da mata da “Bela Aurora”, parecendo um avião em vôo rasante. Era chuva de pedra, violenta. Fechamos a casa toda. Maria Alice, temendo que nosso pai passasse mal, em função da chuva, tentava disfarçar seu pavor. Papai, já com 87 anos, bem surdo, não poderia perceber o gelo caindo. Volta e meia, abríamos a janela do meu quarto e observávamos o arraso nos telhados de amianto. Gritam na porta dos fundos. Fomos socorrer. Era o Camata, nosso colono, que já estava dormindo e foi acordado com as pedras caindo no seu telhado e dentro de casa, nos pediu abrigo. Nosso pai, quieto, sentado na poltrona da primeira sala, com as mãos entrelaçadas uma na outra e enfiadas entre as pernas. Nós, totalmente alarmados. Daí a pouco, papai levanta-se e diz “vocês são uns cagões, com medo de chuva de pedra. Abram as janelas e portas para refrescar a casa. O temporal já passou”. Começamos a rir. Já era noite, deixamos para no dia seguinte ver o estrago. Felizmente, para nós, foram somente as telhas e o galinheiro. I pior foi no Batatal, onde as lavouras de café foram quase que totalmente destruídas, perdendo a safra toda que prometia ser boa. Em Bom Jesus do Norte, as barraquinas da festa, foram arrasadas e mercadorias arrastadas pela correnteza.

 

Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

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