Noites de Serão


A noite chegava e o movimento começava. Apesar de terem trabalhado o dia todo na lavoura, eles não se sentiam cansados. Já de banho tomado, roupas limpas se sentavam em tamboretes, caixotes, bancos ou mesmo no chão. Começava o serão: uns descascavam, outros lavavam, e ralavam a araruta para no outro dia ser cuidada por minha mãe e sua fiel ajudante, a Julinha. Trocavam a água, não sei quantas vezes, até ficar no ponto para secar. Colocada em panos brancos sobre as folhas de zinco e levada ao sol. Era o polvilho de araruta mais alvo que a neve e tão fino quanto à maisena. Dele se fazia delicioso mingau, biscoitos, quebra-quebra. Eram sacos e mais sacos de polvilho que se vendia por uma ninharia.

Eram horas nessa lida e as conversas versavam sobre os mais variados assuntos, prevalecendo o de assombração. Cada um tinha uma experiência vivida nesse terreno, mais arrepiante que a outra. E eu certamente que me deliciava acreditando piamente e vivenciando cada uma delas. Até eu tive a minha parte. Menina de uns doze anos, voltando lá pelas nove horas da noite, da casa do Sr. Alberto Raimundo, avô do Batista do Correio, que era compadre e amigo de meu pai (E quem não era?). Ele morava, onde hoje é a sede da fazendo do Antônio Borges. Era um mulato forte e garboso, casado com uma italiana a Dona Dina.

Quando ele apontava lá na curva do caminho, papai dizia: “guarda as cadeiras que lá vem o compadre Alberto”. Motivo: ele era um homenzarrão, sentava e ficava balançando nas cadeiras, que bambeavam os pés e se desmantelavam. Já havia quebrado duas, então elas eram colocadas no alto e ele se sentava no banco, que não tinha perigo de se quebrar. Voltando àquela noite, lembro-me como se fosse hoje, de tanto ouvir “causos” de assombração, também criei minha fantasia. Eu, minha mãe e mais duas mulheres, das quais não me lembro o nome, vínhamos caminhando rumo às nossas casas, depois da visita, olhei pra trás e vi um grupo de pessoas de branco, segurei mais forte na mão de minha mãe, mas não falei nada. Agüentei firme tremendo de medo. O grupo não nós ultrapassou e pouco depois eu os tornei a ver, na nossa frente como se fosse fumaça. Era uma noite escura, sem lua e certamente foi minha imaginação fértil que criou essa imagem e que me deixou toda arrepiada.

Nas noites de serão que se sucederam, quando terminava a araruta e começava a engorda dos porcos e era necessário descascar o milho, moê-lo no moinho de ferro manual, e cozinhar a canjica em tachos de cobre, eu também tinha a minha estória de assombração para contar.

Minha mãe fazia broa de fubá ou de cará ou biscoito frito, para se comer com café feito de caldo de cana ou melado. Uns preferiam tomar pinga e comer torresmo frito com mandioca cozida.

Faziam estes serões com a maior alegria, no outro dia trabalhavam na apanha do café, cantavam e assobiavam o tempo todo. Não tinham feitor. Davam valor ao salário que recebiam e a comida farta que era servida. Não se tratava de escravidão e sim de trabalho remunerado e a alegria de servir e serem recompensados. Tinham casa par morar, comida, roupa lavada e o salário. Eu os preparava para a primeira comunhão, mãos calejadas e desajeitadas, que eu pegava com dedicação, ensinando-lhes o sinal da cruz. Explicava-lhes o porque "a cruz na testa para Deus nos livrar dos maus pensamentos, na boca para nos livrar das más palavras, no peito para Deus nos livrar das más obras que nascem do coração".

Era assim que eu aprendera e era assim que eu os ensinava. Depois passava para o Pai-Nosso, os Dez Mandamentos e o Ato de Contriçao. Estavam prontos para primeira eucaristia. Uns com 14, 16 e até 40 anos. Freqüentávamos a missa das sete, aos Domingos e quando chegávamos em casa era hora de moer cana, fazer o melado e as latas de doce de abóbora, mamão ou até mesmo de batata doce, para a sobremesa da semana toda. Tempo de criança, do qual guardo muitas lembranças.

 

Verconda Espadarote Bulus
vespadarote@hotmail.com

 



 

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