Jeito de menino, corpo franzino e um futebol de gente grande. Onde Ele estivesse qualquer terreno virava um gramado e a bola sem sobre saltos rolava mansinha com seus toques simples e geniais. Jogava no meio, mas constantemente chegava ao ataque com rara habilidade para marcar seus gols. Um craque com a bola nos pés e um amigo alegre, comunicativo e agradável para papear fora de campo.
A sua jogada mais marcante, num vasto repertório, enchia os olhos de quem apreciava o futebol arte; era quando, magistralmente com sorriso nos lábios, dominava a bola no peito, e partia incisivo em direção ao gol, fintando zagueiros grandalhões, promovendo um verdadeiro cai cai. Os pobres e ingênuos adversários não viam a cor da bola e iam caindo como indefesas peças de dominós que ao menor toque se esparramam pelo chão.
Era um, na denominação daquele tempo, final dos anos setenta, início de oitenta, “meia direita” que envergava com desenvoltura a camisa oito e fazia bonito onde quer que se apresentasse. Com naturalidade e certa displicência, seu futebol era ao mesmo tempo simples e sofisticado, pois até seu drible mais espetacular e seus passes de efeito tinha um único caminho, o Gol.
Bem sei do que falo, já o enfrentei em várias oportunidades, lembro-me especialmente de um confronto num Americano x Motorista, e não foi tarefa fácil conter sua impetuosidade, foram vários encontros dentro do jogo, com jogadas plásticas, que no fim o empate foi o mais justo. O Americano dominou todo o primeiro tempo e no segundo o Motorista, comandado por Ele, foi melhor.
Até por sua complexão física e habilidade, não era jogador que usava a violência como arma, no entanto não fugia das divididas. Numa dessas divididas, levei a pior e machuquei o tornozelo, lógico não houve maldade, apenas lance de jogo, pois Ele jogava muita bola, e visava somente à bola.
Falo do craque de nosso futebol amador, um jogador de fino trato, habilidoso, impetuoso e extremamente difícil de ser marcado. Se os oponentes entrassem de primeira corria o risco de serem humilhados com dribles desconcertantes, tamanha sua capacidade inventiva e total era seu domínio de bola, fazia dela o que bem quisesse, ela obedecia e o reverenciava.
Amante do futebol e saudosista por opção, lembro-me das bonitas jogadas nas peladas do Ginásio, no campo do Americano e em todos os campinhos que havia na cidade, foram muitos os talentos que assisti e acompanhei, posso enumerar vários, no entanto me atenho à Claudinho Malheiro, o maior desta geração.
Domingos
Fernando Ribeiro de Rezende
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