Na era do futebol romântico e descompromissado com os resultados, o jogo era mais solto, plástico e emocionantemente cativante. O drible valia tanto ou mais do que um gol. Desmoralizar o oponente com uma finta desconcertante, não figurava como falta de ética, e deixava o estádio extasiado. Passar a bola entre as pernas, aplicar um lençol e outras “firulas” levava a torcida ao delírio, mesmo que a galera fosse formada por um único e solitário amante do futebol.
Havia em Calçado, nos anos setenta um Gênio com as bolas nos pés. Com ele, ela rolava redonda e sem sobre saltos pelos campos de minha saudade. Com intimidade, ginga e total domínio, ela obedecia e reverenciava o craque, que envergava a camisa nove do Americano.
O grande Tide desfilava pela vida gastando sua habilidade, onde houvesse bolas. Com dribles perfeitos, zombava dos adversários truculentos, que partiam para cima com fúria para roubar-lhe a bola ou acertar suas canelas. Ele mágico, escondia e tirava a bola e o corpo do alcance e sorria maliciosamente, enfurecendo ainda mais os oponentes. Às vezes partia em zigue e zague, passando o pé sobre a bola, noutras cadenciava o jogo, chamando o adversário, e quando este já colado enfiava o pé sob a bola e em ato continuo levantava-a passando a sobre a cabeça do vencido e humilhado zagueiro. Comoção geral. Olé!
O futebol era sua religião, o campo seu templo sagrado, e a bola eterna cúmplice de suas jogadas endiabradas. Tide jogava enquanto sorria, criando jogadas de pura intuição. Sua posição era dentro das quatro linhas, não importava onde. Zagueiro, armador, meia, dava conta do recado em qualquer posição em que fosse escalado. Era um jogador vistoso, virtuoso, dono de uma habilidade e técnica sem igual. Enfim, um atacante arrasador, temido e idolatrado.
O mais surpreendente é sua capacidade inventiva de um verdadeiro polivalente; jogada muitíssimo bem também no gol. Paradoxo: O terror dos goleiros, e um deles quando resolvia brincar no gol. Se precisasse, transformava-se num dos melhores goleiros da cidade, tirando é claro, as feras - Zoe e Mauro.
O craque dos dribles secos e desconcertantes, dos passes inesperados e precisos e, dos chutes fulminantes e certeiros, sucumbiu diante do seu adversário mais traiçoeiro. Sobrou futebol, faltou cabeça. Se bem orientado e assessorado, transformaria se, sem sombra de dúvidas, num grande jogador do futebol brasileiro. O vício roubou lhe sem cerimônias o dom que Deus lhe deu. Perdeu com isto, Calçado, o futebol e principalmente ele, Tide - O melhor jogador de futebol de Calçado, meu primeiro e eterno ídolo.
Nota: Escrevo, motivado pela emoção no relato de Totó, seu irmão, quando o encontrei em Calçado neste final de semana, e perguntei pelo irmão. Este me disse: Careca, Tide esteve recentemente em Calçado e todos estranharam seu estado físico.
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