Havia pouco mais de um mês que tinha pegado a estrada e deixado para trás uma vida. Era a estagnação ou a dor, optei pela dor, e parti. Aquele não no peito não passava, e a saudade veio definitivamente morar comigo. O convívio com pessoas diferentes, um outro mundo, o primeiro emprego e as desilusões, faziam parecer que o destino tramava contra minha felicidade.
A saudade tomava proporções alarmantes à medida que o tempo avançava. Eu não
queria esta vida para mim. Nada de futebol. Que saudades do Americano! Longe de casa, voltava todo dia do trabalho e nunca chegava. Saudades da família! Onde estão os amigos? Saudades de Calçado e suas ladeiras.
Em cada canto, em cada cena, e em todas as paisagens que via, imaginava algum recanto de Calçado. Buscava noticias, procurava na multidão algum conhecido, nada. Naquele tempo o contato possível era através de cartas, telefone somente o publico, e para completar uma ligação era um operação de persistência e de sorte.
O primeiro retorno foi de expectativa e dor. Não conseguia relaxar e curtir a estada na cidade. Não dava para ser feliz, sabendo que era somente dois dias no paraíso, caminhando por minhas ladeiras e jogando conversa fora com os amigos, e logo, logo chegaria à hora de mais uma despedida, deixando para trás montanhas e alegrias.
Quando avistei a cidade, era noite de uma lua nova, cheia de brilho e esplendor. Pouco importava, se fosse uma noite fria e chuvosa a felicidade era a mesma por estar ali. Da Vala meus olhos sorriram ao ver as primeiras luzes da cidade e minha boca mal pronunciava palavras. Lá¡ no alto o Hospital me dava boas vindas. Passei sobre a ponte e o Rio Calçado estava acordado, como se me esperando.
Entrei na cidade pela Rua do Canto, Rua Domingos Martins. Logo no pé da Ladeira, o Bar do Jorge do seu Carlindo, cujas paredes ornadas de fotos com lances de futebol, e no salão as mesas de sinucas completavam o ambiente, me remetendo a um passado do lugar que deixei a contragosto. Revi, figuras carimbadas dando suas tacadas, enquanto palpiteiros cantavam as jogadas, tudo como antes. Seu Alair tocava na bola branca de encontro à s coloridas, e se contorcia no intuito de ajudar a bola cair na caçapa.
Logo acima o Bar do Crissaf era uma festa. Ali se respirava futebol. Americano e Flamenguista vivia agüentando a gozando seus dos adversários, que sumiam quando estes ganhavam. Ali se saboreava ótimos bate papos e o melhor quibe da cidade, e de quebra ouvia-se um rosário de palavrões que brotava da boca de Crissaf, bela e folclórica criatura. Na esquina, o Bar do Tiãozinho completava o point de bebedeiras e gastronomia, cuja visão dava para a Praça Pedro Vieira repleta de jovens em busca da cara metade, de um tempo inocente.
Estranho, a cidade não parou no período que fiquei fora. Houve jogos no Americano, Missas, procissões, festas, desfiles, bailes e carnavais no Montanha. As meninas, as mine saias, os primeiros beijos, os casais na praça e caras novas pelas ruas. Tudo mudou - igual são as ladeiras, igual é a felicidade em desfrutar, mesmo que por pouco tempo deste cotidiano que tanto amo.
Egoísta... Queria que a cidade parasse na minha ausência. Ansiada encontrar tudo do mesmo jeito, de quando parti. |