Ele nasceu no alvorecer do dia 15 de março de 1949 em uma pequenina cidade do interior do estado do Espírito Santo, chamada São José do Calçado. Aquele pequeno mundo não possuía mais que dois mil habitantes. Todos se conheciam e compartilhavam de tudo, pois naquele bucólico lugar tudo era singular. Havia apenas uma escola primária, o Grupo Escolar Moacir Franco; dirigida pela professora Dona Justa; um hospital; um ginásio, um clube social, um time de futebol, o Americano Futebol Club; um cinema; uma igreja católica. Para agregar os insatisfeitos, que existem em todos os lugares, havia uma igreja protestante, a presbiteriana, dirigida pelo Rev . Humberto César, e o Motorista Futebol Club. Era uma cidade bipartidarista: uns ficavam aqui, outros ali. Não era possível o querer muitas escolhas. Tudo parecia único, singular, forçando uma convivência comum dos habitantes, fossem ricos ou pobres.
Ele desfrutou sua infância naquele mundo reduzido e dualista. Nunca dali ausentou-se exceto umas poucas vezes em que visitou a cidade vizinha, cerca de 30 km de muita lama ou poeira. Atravessou o Rio Itabapoana, onde deságua o Rio Calçado, e chegou a Bom Jesus, outra cidadezinha, localizada no Estado do Rio de Janeiro. Aos 15 anos transferiu-se para Niterói, com toda sua família. Viajaram com antecedência seus irmãos mais velhos, João Batista e Ester. Ele, caçula, viajou na carroceria do caminhão com seu pai, Sebastião e a cadela Laica. Na boleia sua mãe Antônia e sua irmã Maria Madalena, ao lado do motorista Elcio Tatagiba. Estavam cheios de sonhos e fantasias da cidade grande sem nada entenderem do que estava acontecendo lá fora: o golpe militar de 1964.
Chegados a Niterói tudo aconteceu muito rápido, no ritmo da metrópole. Misturaram-se na multidão e juntos correram de um lado para o outro, desesperados a olhar os relógios, entrando nos ônibus, como formigas, sem identidade própria, tropeçando uma nas outras, no sentido das que saem e das que chegam ao formigueiro. Certa feita ele sentou-se na grande praça, junto ao monumento do índio Araribóia e ficou a contemplar assustado, aquela multidão que caminhava velozmente pela avenida em direção à estação das barcas. Seus olhos tornaram-se exaustos em contemplar tanta gente, na impossibilidade de encontrar algum rosto familiar.
À cidade natal retornou dois anos depois, muito rapidamente. Depois, aos 30 anos, já casado, com sua esposa, o filho primogênito de 4 anos e a filha caçula de 8 meses. Finalmente, já maduro, aos 52 anos, esteve de volta ao seu paraíso perdido, acompanhado de sua irmã Maria e seu cunhado Sérgio. Visitou sua prima Julia e lhe dirigiu essas palavras: “aqui vivi minha infância e retorno com minha barba branca como a neve – parece que foi ontem”.
Alvorecer de 22 de janeiro de 2009.
José Pedro de Assis, “O VELHO”
jpedro.assis@ig.com.br

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