A Caminho da Escola



Menina de tranças, pernas finas (que até hoje são o meu desgosto), saia vermelha pregueada, gravata vermelha, chapéu branco, aba engomada, lá vinha eu pela estrada de chão da Fazenda Velha a Calçado. Quase sempre só. Medo, do que? Nunca tive e nem tenho medo. No Grupo Escolar, que até hoje se mantém imponente, majestoso, não se podia chegar atrasado.

Muitos colegas que marcaram aquele tempo: a Didi, do Sr. Aymbiré, Penha Maria, neta do Sr. Custódio Moreira, sobrinha da diretora Dona Judite, que nunca mais ouvi falar delas. A Licéia, muito bonita. A Degalice do Joaquim Bananeira. Os meninos, cada um mais bonito que o outro. Caí de amores por um garoto que estudava na parte da manhã. Descobri sua carteira e escrevi o nome dele com gilete. Minha professora nesta época era Dona Maria Justa, que mandou chamar meu pai. Ele pagou a multa e eu tomei uns puxões de orelha. Pouco se me deu. Essa paixão me acompanhou pela vida fora. Também, nunca vi olhos tão bonitos assim... Essa foi uma paixão mal resolvida.

Na estrada, sempre se encontrava de tudo: cachorros, bêbados, aloprados, bois. Quando estávamos em bando, eu, meus primos Pedrinho, José, Neida, fazíamos a maior algazarra. Se eu estivesse sozinha, rezava em silêncio um “Creio em Deus Pai” e seguia em frente, com o coração na mão.

Fruteiras da beira da estrada é prato cheio para criança. Maracujá maduro, goiaba verde, ora pro nobis, juá, melão, nada escapava. Memela do Capitão Cecílio, com suas mangueiras, sofria o nosso ataque. Trazíamos sal grosso para comer com manga, na volta para casa e a barriga vazia, roncando.

Ali onde hoje é o bairro Maria José, divisando com o Sebastião Tico-tico, tinha uma frondosa mexeriqueira, banquete da criançada. Um belo dia quem acha de aparecer morto, debaixo da mexeriqueira? O bendito do João Gogó! Tomamos um susto danado. Passamos um bom tempo sem aparecer por lá. Mais precisamente até o próximo outono, quando as frutas estavam no ponto para nós: grandes, azedas como elas só! Criança esquece sim, quem disse que não?

 

Reminiscências


Voltando atrás, no tempo e no espaço, percorrendo os mesmos caminhos de outrora, me vejo perdida, sozinha, olhando em vão, tentando encontrar o que ficou gravado bem lá no fundo, junto a outras lembranças. E eu me pergunto onde estão: A Ponte da Vala? As enchentes do rio Calçado? A estradinha do Linhares? As lavadeiras da Rua do Canto? A venda do Mateus? O Departamento de Café? O Dr. Henrique? O João Gogó? A máquina do João Marcelino? Meio século foi suficiente para mudar tudo. O asfalto chegou, a velha ponte de madeira foi substituída pela de cimento armado, o rio ficou lá embaixo um fio d’água com a ossada de boi no fundo.

Até o Corte do Linhares, que era assustador, barranco dos dois lados e o barulho da água encachoeirada do rio, foi aberto e asfaltado. O Departamento mais parece um cemitério abandonado, só algumas paredes resistiram. O Mateus aposentou e a vendinha fechou as portas. Da máquina do João Marcelino não há nem vestígios. As lavadeiras, o Dr. Henrique, o João Gogó, foram par o Céu. Enchente? Nem chove mais e quando acontece dar enchente, não sou eu mais quem assusta. Creio mesmo que nem as crianças de agora se assustam.

O tempo passa, tudo muda... A biquinha da Rua do Canto também mudou de lugar. Para todos os lados onde olho, não vejo nem vestígios dos tempos de criança. E par mim, também o tempo passou. Olho-me no espelho e nem mais reconheço na imagem refletida a pessoa que eu era há meio século atrás. Afinal, agora sou uma mulher “sexi” sexagenária. Parabéns para mim que estou aqui, com tanta saudade do tempo que passou!

(Crônica do Livro “Trilhos, Atalhos, Caminhos sem fim”)

Verconda Espadarote Bulus
vespadarote@hotmail.com

 



 

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