RUMINANDO RECORDAÇÕES


Estou sentado no alpendre do velho casarão, sede do sítio de meu avô materno, Zequinha Ribeiro. Plantado no alto de um platô, a casa é o camarote onde gasto horas, jogando conversa fora, enquanto contemplo com olhos de felicidade o cair da tarde do belo vale do Córrego da Areia. Um filete de água límpida e cristalina desce recém nascida do alto de uma grota, entre mata nativa, pedregulhos, brejal e lírios, formando um campo florido e fresco onde os ventos brincam de montanha russa com o milharal pendo ando, emoldurando este retrato.

Enquanto contamos estórias, o córrego passa incessantemente em frente a casa e vai descendo, serpenteando incansavelmente vales e montanhas. Dando vida e rumando para morte. Indiferente, não vê o tempo passar e tampouco pára para ouvir nossa prosa.

Fico imaginando sua sorte que, a quatro quilômetros da nascente, ao chegar à cidade, os dejetos sem tratamentos lançados impiedosamente em suas parcas águas, roubaram-lhes o oxigênio vital para vidas, transformando-o num valão fedido e morto.

São dezessete horas e o aroma do jantar nos convida para mais um banquete, comida simples, porem, farta e deliciosa. Tia Dieta nem precisa chamar, o cheiro vindo da cozinha basta. Em instantes estamos todos ao redor do fogão de barro branco à lenha, abastecendo nossos pratos com um delicioso angu de milho novo, arroz hibrido, feijão macio e verduras frescas colhidas diariamente nesta terra abençoada.

A mistura, como se dizia, fica por conta da carne de porco adormecidas em grandes latas e submersas na gordura que lhe garante um paladar inigualável. É de comer com as mãos, chupar os ossos e lamber os “beiços”.

O sol se põe por de trás das montanhas, enquanto a lua ascende em cores de tons azulados todo aquele pedaço de terra, e estamos todos novamente no alpendre jogando cartas, “pustemando” ou simplesmente ouvindo a sinfonia que vem da vargem de arroz. Rãs, pererecas rivalizam com grilos, cigarras, vaga-lumes e corujas, formando uma orquestra rural de brilho, cores e sons que nos remetem à tranqüilidade e a paz.

São quase vinte e uma horas, vamos todos dormir, ouvindo o chiado de um velho rádio a pilha. Noite alta para que acordou às cinco horas da manhã para enfrentar a lida. Faça chuva ou sol, todas as madrugadas as vacas já estão no curral para serem ordenhadas. Dali o leite segue acondicionado em latões, sobre uma carroça puxada pelo dócil e lento Urubu, velho cavalo que acompanha a família há anos.

Nas rédeas, Cate segue fazendo peripécias em alta velocidade (5 km p/ hora) se achando o Clay Regazoni pilotando um Formula Um.

È dura à rotina rural, as horas não passam e os dias são enormes. Capinar o arroz, debulhar o milho, tratar dos porcos e das galinhas e roçar pasto enfrentando um sol inclemente ou sob chuva fria são tarefas duras que o homem do campo tem de enfrentar.

Havia alegria por aquelas bandas, apesar das dificuldades. Havia amor e carinho compartilhados, apesar das incertezas quanto ao futuro. Havia harmonia numa família numerosa e cheia de agregados.

Com destaque para Zé Migué, entre tantos outros que passaram por lá. Zé Migué – um negro franzino e silencioso que vivia só em sua casinha de sapê, no sítio do Tio Mane. Quando tomavas suas pingas era o reverso: falante e comunicativo. Estava sempre por perto, geralmente pegava empreitadas para roçar pastos. Aparecia certamente também quando armava tempestades. Morria de medo de raios e trovões. Era só roncar as primeiras trovoadas que ele chegava de mansinho, e sentado no banco da cozinha permanecia todo tempo em silêncio, com as mãos postas, como se rezasse. Tão logo passava a tormenta, despedia e seguia silenciosamente seu caminho para o rancho.

Valdimiro era outro freqüentador quase assíduo, diferentemente de Zé Migué, este era falastrão e gabola, e vivia vangloriando de sua beleza enquanto labutava.

Dois mil oito, estou sentado na varanda de minha casa em Vila Velha ruminando pensamentos e recordações dos anos mais marcantes da vida. Infância e adolescência.

04/11/08

Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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