_Floriano, leve uma carta aos Correios!
Floriano colheu a carta das mãos de Antão, pediu desculpa pela demora e partiu para desincumbir-se do pedido. Antão, por sua vez, sem sair de sua escrivaninha, leu a cópia que tirara da carta endereçada à Academia Italvense de Letras, da qual era membro correspondente:
Calçado, 22 de maio de 2009.
Sapientíssimos Confrades,
Como é do conhecimento de todos, encontrei há dias uma aranha em meu banheiro. Em sua teia notei a presença de uma esfera de cor marrom claro. Com a curiosidade aguçada, pus a escada numa posição que me permitisse observar o objeto através de uma lupa. Após o que, tendo constatado que não se tratava de algum inseto aprisionado, nem de um esconderijo para a aranha, resolvi retirá-lo para um exame mais demorado sobre minha bancada de estudos. Munido de dois palitos, abri-o e devassei-lhe o conteúdo com uma lupa mais potente. Para minha surpresa, deparei-me com dezenas de esferas de uma cor bem mais clara que a da esfera maior que as continha. Tenho quase certeza de que são ovos. Entretanto, como não quisesse deixar pairar qualquer dúvida, tomei de uma cápsula oblonga, transparente, vazia de remédio, fiz-lhe um furo com alfinete e dentro dela pus os prováveis ovos, fechando a parte superior da mesma com uma fita durex.Isto aconteceu em 12 de janeiro de 2009.
Como supunha, nasceu-me a primeira aranha dos ovos que recolhi. Ela não tem mais que 2 milímetros de tamanho__das pernas traseiras às dianteiras__e é de uma cor branco-amarelado, com exceção do abdômen, o qual é escuro na sua porção central.Ela se movimenta rapidamente e,quando por descuido meu,soltei a respiração sobre ela,assustada,correu para dentro das folhas que mantenho sobre a bancada para anotações.Não a cacei__era como procurar agulha em palheiro.
Quedei-me absorto a considerar que a força, que não julgo divina nem pessoal, criadora cega dessa minúscula aranha, pôs tanta perfeição em fazê-la como em fazer a nós outros humanos. E se ela for infinitamente sábia e potente, que seremos nós, aranhas e humanos, para ela?Seres absolutamente iguais, uma vez que diante do infinito todo ser relativo se resume a nada, todos se igualam, todos têm o mesmo valor. Assim, com que direito nos consideramos os reis da criação, a não ser pela força e por um julgamento arbitrário?
Ponho a questão acima em debate e gostaria de ser informado miudamente sobre ela, caso mereça a atenção dessa digna e sábia confraria. Sei bem que o assunto convide mais à perquirição filosófica e ao estudo entomológico do que às lides das letras, porém, não pude me conter ante a visão daquele minúsculo ser de patas a correr, a tentar salvar sua vida que era nada.
Cordialmente,
Antão Lopes de Azevedo, vulgo Antão da Vala.
Obs. Esta é a vigésima carta que lhes mando sem receber qualquer resposta. O que está havendo, senhores?
Antão, lida a carta e achada conforme seus pensamentos_se bem que, pensou, se não estivesse, de nada adiantaria, visto que o original já seguira seu caminho_ tocou uma sineta cuja pega era a figura de um cavalo,e a cozinheira,aliás,esposa do negro Floriano,entreabriu a porta do estúdio do patrão e lhe comunicou que o almoço estava servido.
__Vou esperar o Floriano.
O estúdio tinha duas amplas janelas que abriam para o rio Calçado, era amplo, de tábuas corridas, e o mobiliário era composto por um sofá, duas bancadas e várias cadeiras confortáveis e estantes de livros. Olhando pelas janelas, Antão viu que as árvores de jabuticabas estavam carregadas. Sanhaços se fartavam das bolotas grandes, quase se arrebentando de maduras. O quintal era pequeno e,quando o rio enchia,as águas vinham até uma escadaria cimentada pela qual se descia até ele. Quando estava muito quente, Antão punha uma sunga e ficava dentro d'água até escurecer, ou até muito mais tarde, noite adentro.É verdade que depois era obrigado a tomar uma chuveirada d’água fria.Preferia este modo de refrescar-se,não se importando com a sujeira da água e seu diminuto volume.O rio transformara-se,naquele trecho,num quase esgoto a céu aberto.Suas margens e seu leito não eram limpos nem dragados,dizia-se, por imposição do órgão administrativo federal ou municipal,sabia-se lá, que cuidava do meio ambiente.A população acomodava-se a tudo,não se unia para protestar contra nada,limitando-se os munícipes mais audaciosos a um comentário mordaz quando atravessavam a ponte,a pé ou de automóvel.Cada qual mantinha-se encaramujado em seu mundo pessoal,que parecia excluir quase toda realidade além pele.
Jacira, a cozinheira, voltou para dizer que Floriano já voltara e estava se aprontando para fazer companhia ao patrão à mesa.
À mesa, Antão puxou conversa, para que Floriano vencesse a natural timidez.
__Como está o senhor Hitler hoje?
__Como toda segunda-feira, seu Antão, ele está muito machucado. Devem ter tido um final de semana daqueles...
__Conte-me o que andam falando a respeito dele na rua,Floriano.
__Ora, é o de sempre. Todo mundo sabe que a esposa do senhor Hitler bate nele e nas duas crianças, mas ninguém quer fazer nada. Eles não reclamam com ninguém. Parece que gostam de levar a vida que levam, seu Antão.
__Nesta vida há de tudo, Floriano, há de tudo. Mas um pai que dá a um filho o nome de Hitler tem que ser desequilibrado mental. E a tara foi transmitida de pai para filho e ouso dizer que os meninos também devem ter recebido a mesma carga nefasta. O que me espanta é a esposa desse sujeito tê-lo escolhido como marido, gerado os filhos e agora levarem o estilo de vida que levam. Esse casal é mais uma prova de que Deus não existe, Floriano. Um Deus jamais criaria criaturas tão estranhas e que se relacionam umas com as outras tendo em mira apenas causar sofrimento umas às outras. Preciso, Floriano, salvar ao menos a criança menor. Tenho pena dela. Não deve ter mais de cinco anos e às vezes tenho vontade de tirá-la daqueles seus pais e criá-la comigo.
__Não faça isso, seu Antão, que o senhor vai arranjar mais problemas do que já tem. Praticamente toda a cidade odeia o senhor por causa dos processos que o senhor jogou nas costas de quase todo mundo. O senhor devia, sim, era casar. É o que eu e a Jacira pensamos. Essa sua vida de solteirão não te faz bem, seu Antão. Muito estudo resseca os miolos, e o líquido que não é expelido, costuma ir parar dentro da espinha e apodrecer. É o que dizem os antigos. Além do mais, que pensarão se o senhor pegar a criança?
Floriano pensava com sensatez__Antão tinha que reconhecer.Mas os olhos tristes da criança lhe davam pena.Quanto ao líquido,Floriano estava errado:Antão o sangrava regularmente em Bom Jesus.
Então, mudando de assunto, anunciou:
__Vou dar um pulo a Italva. Apronte minha mala com roupa para um dia ou dois. Não pretendo demorar.
__O senhor vai comprar cimento ou pedra mármore?
__Não, nada disso. Uma viagem cultural.
Teresópolis, 16 de fevereiro de 2010.
Carlos Rezende