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UM RÁPIDO CONTO DE NATAL |
A cada ano, depois da missa da vigília de Natal, dona Carmen, a organista, trazia da matriz a pecinha que completava o presépio municipal: o menino Jesus benzido e rebenzido pelo padre Adamastor. Ela era uma figura velha (não a peça do presépio; dona Carmen, a organista) e simpática, adocicada com uma bondade que diziam ser santidade. Vinha numa solenidade particular, ainda com sua fita azul da congregação mariana e, entoando um afinado Gloria in Excelsis, a que ninguém nunca deu a mínima, deitava aquele Deusinho de fraudas entre as imagens da Virgem Maria e de São José. Fazia umas rezas, benzia-se e voltava para casa, para tomar a canja de Natal com Arminda, a ainda mais velha empregada de há quase meio século. As peças permaneciam por ali até a festa dos reis magos. Então, dona Carmen recolhia o menino Jesus à sua penteadeira, e o restante do presépio era recolhido ao almoxarifado da prefeitura municipal. Esse era o ritual natalício de dona Carmen, a organista da igreja matriz.
No ano passado, dona Carmen faleceu, em questão de dois meses, de um câncer não se sabe bem onde. A Arminda foi ficando com a casa, também esperando sua hora. E tudo ia indo como sempre. Natal. A missa do galo estava já pela comunhão. Pelos bares, bêbados, os sem-família comungavam a solidão e cultivavam com amargura o espírito anti-natalino. A alta noite daquele dezembro chuvoso espalhava um calor sufocante, secando as gargantas que entoavam noite-feliz, mesmo aquelas que o faziam com sóbria tristeza, saudade de natais passados mais significativos.
O presépio, montado por funcionários públicos insatisfeitos na pracinha, revelava subliminarmente suas vontades azedas de ver o décimo terceiro salário. As peças engessadas pareciam estátuas de sal, como a mulher de Ló ao mirar Sodoma destruída. Não havia brilho nas estatuetas, as personagens descoloridas olhavam cada uma em uma direção, desconectadas com o mistério que, ao invés, tinham por finalidade revelar. Pareciam transeuntes de um centro urbano, sem lenço e sem documento, sem rumo e se direção. Ao topo da gruta, dependurada numa cordinha de varal amarrada por trás da grande estrutura de papel cor de pedra, balançava uma estrela-de-belém, encimada por um gorro de papai-noel sem saber a que veio.
Todos se foram depois da missa. A praça se esvaziou aos poucos. E ninguém notou a falta da solene procissão de dona Carmen, a organista, trazendo o menino Jesus para coroar as festividades natalinas. Passou-se o Natal inteiro sem o protagonista do presépio, e ninguém dera conta disso; todos estavam muito ocupados com o show daquela cantora de arromba num canal de televisão. Os pastores olhavam o nada, os magos (que vinham não do oriente, mas do sul, segundo o arranjo das peças) se ajoelhavam uns diante dos outros, a Virgem Maria e São José permaneceram à espera infrutífera do menino que não chegou naquela noite. Veio o seis de janeiro, os mesmos funcionários carrancudos vieram retirar as peças do presépio e amontoá-las no almoxarifado. Ninguém notou o vazio, a falta da manjedoura com o menino Jesus, a ausência de sentido de toda aquela cena muda por demais automática. Ninguém notou. E todos viveram esvaziados para sempre.

Juliano Ribeiro Almeida

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