– Tens certeza, homem, que viste o santo foi por essas bandas mesmo?
Havia horas que Marciano Lúcio seguia beirando o rio. O caboclo Valério ia à frente, abrindo caminho com o facão. Parou um instante, voltou o olhar, tirou o chapéu e respondeu com devoção.
– Sabe como é, senhorzinho... Ia já escurecendo... Mas eu me lembro que foi por aqui, mais ou menos por aqui. Era um santo vistoso, palmo e meio de madeira. Estava encostado a um pé de alguma coisa.
– E tinha botas mesmo o santo?
– E não é? Botinas marrons, assim como de couro virgem, coisa grosseira, de macho mesmo.
– Era São José, tenho certeza. Chego a me arrepiar, olhe... Eu pedi ao meu santo pai São José que me enviasse um sinal e ele enviou. Está passando da hora de dar um nome cristão a essa terra! São José será o nome.
– Mas senhorinha diz que devia de ser São Tiago apóstolo, pois na imagem ele está sempre calçado. Eu sinceramente não posso dizer que sim nem que não: sei que era um santo porque tinha jeito de santo. E tinha botas. Isso eu afirmo até debaixo d’água.
– Cale a boca, Valério, que você nem as mulheres entendem coisa alguma de santo. Estou dizendo que era São José com calçados... Já ouvi falar dessa devoção. Dizem que lá pelo Pernambuco há até igreja dedicada a São José de botas! E no Ceará existe também uma forte devoção a São José Ribamar, com botas de bandeirantes. Ele existe mesmo, ora se não! E foi ele que vosmecê viu aqui às margens desse ribeirão. Não há o que discutir.
Foram embora mais uma vez sem o santo. Alguns comentavam na vizinhança que aquilo era loucura de Valério. O vigário já supôs até mesmo que devia ter sido um sonho misturando a história da imaculada que foi encontrada no rio Paraíba. Quem sabe não aconteceu um milagre desses por aqui no sul do Espírito Santo?
– A Virgem Maria apareceu nas águas. O esposo dela não viria diferente... Valei-me, São José! – Marciano Lúcio estava convencido de que a tal imagem que Valério disse ter visto era de a de um São José com calçados.
E a disputa durou alguns dias no casarão. “São Tiago é apóstolo, tem mais poder junto de Deus...”. “Não, claro que não! São José é o pai de Jesus!”. “Padrasto, na verdade...”. “Padrasto, não! Pai adotivo, escolhido especialmente para esta sublime missão de educar o Filho Unigênito de Deus!”. Alguém da criadagem chegou a contar vantagem: “Aposto que caboclo viu foi o meu pai Xangô, com suas botas de fogo...”.
Marciano decidiu então convidar o vigário para um jantar em que a questão seria discutida e definida. O padre foi chegando e logo avisando:
– A pendenga já é injusta na raiz: eis aqui outro devoto de São José...
A matriarca defendia São Tiago Maior com unhas e dentes.
– Lá na Espanha há vários caminhos que conduzem a Compostela, onde está a basílica do grande apóstolo de Cristo. Vejo para essas terras futuro semelhante: vejo os povos peregrinando a uma grande igreja dedicada a São Tiago. É bom lembrar que junto com a devoção sempre costuma chegar o progresso.
Marciano profetizou:
– “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”. Assim disse o Salvador criticando os vendilhões do templo. São José é operário, gente simples, como o nosso povo trabalhador.
E o padre, para complicar ainda mais:
– Por outro lado, senhor Marciano, teologicamente não se sustenta a imagem de um carpinteiro, na época de Cristo, usando botas de couro... Carpintaria era trabalho rude e simples...
– Mas o nosso santo é caprichoso e precavido. Trabalha com segurança e dignidade. Estou com ele e não abro.
Depois de muita discussão e muita sopa, Marciano Lúcio se levantou e propôs um brinde:
– Está decidido: de agora em diante, essas terras desde outrora doadas para a civilização que aqui se estabelecerá, eu as batizo com o nome do meu pai São José.
E derramou três goles do vinho sobre a mesa. Foi quando adentrou o caboclo Valério, chapéu nas mãos e um embrulho debaixo do braço, gritando:
– Senhorzinho, achei, encontrei o bendito santo! Estava lá debaixo do nosso nariz e não vimos! E não é que era São Tiago mesmo? Está escrito aqui embaixo dela...
Marciano Lúcio tomou o embrulho das mãos do caboclo e silenciosamente foi ao quarto. Abriu o baú e ali depositou a imagem de madeira. Nem ele mesmo chegou a ver o que estava ali dentro. Voltou à sala e pediu o café para encerrar o jantar.
Dizem que ele morreu sem abrir o baú. E ninguém nunca soube onde foi parar a tal imagem do santo. São José ou São Tiago, não importa. O que vale são os sentimentos mais puros, os valores mais nobres do clima de religiosidade que circundou o surgimento da nossa querida São José do Calçado.