Vida Contínua


O mundo nunca voltará a ser como foi na Idade Média porque, depois dos sacrifícios para vencer imensos obstáculos, não abriríamos mão da liberdade de pensamento e do livre exame a troco de nada. O homem lutará por eles com todas suas forças e em todos os múltiplos caminhos da vida.

Na filosofia e na religião, este livre exame logrou notáveis progressos. Um dos resultados desses avanços é o Espiritismo. 

Para quem admite os princípios do Espiritismo, princípios oriundos da experiência e das comunicações dos Espíritos, sabe que podemos investigar a vida destes últimos no além-túmulo. Aliás, muitos deles acorrem às sessões mediúnicas sem que seja preciso invocá-los, prestando depoimentos valiosos e às vezes comoventes sobre suas vidas nos dois planos, e, mais importante, dando-nos informações úteis sobre como o tipo de vida que levaram na Terra influenciou decisivamente na vida que levam no Mundo Invisível, e ainda por cima permitindo sua identificação.

O Catolicismo,assim como todas as outras religiões, falha fragorosamente frente aos dois problemas fundamentais da vida humana: a morte e o sentido de nossa existência na Terra.

Se dois indivíduos nascem em situações tão diferentes, se um experimenta só dissabores no curso de sua vida e outro é relativamente menos infeliz, se uma criança morre de câncer, após tétricas torturas e outra segue em frente, gozando de boa saúde, tudo isso pode ser explicado pelos erros e acertos de suas vidas anteriores, de suas reencarnações passadas. Cada qual colhe no presente o que plantou no passado. Uma lei moral de Deus, implantada no mais profundo de cada ser humano, exige que aquele que praticou o mal por sua vez o sofra como forma de purificação e de aprendizagem para não mais errar no futuro. Mas nenhum está condenado ao Inferno. Na verdade, nem Inferno há, senão o tormento do indivíduo que vive ao arrepio das Leis de Deus. Basta-lhe, no entanto, volver ao caminho da retidão, ao menos esboçar o desejo de se melhorar moralmente, e Deus lhe concede uma nova vida na qual ele poderá por em prática suas boas intenções e aprender a lição, ou refazendo-a tantas vezes quantas forem necessárias. Deus é justo, mas não menos misericordioso. Que bondade teria um Deus que criasse duas almas, das quais uma se desenvolvesse numa favela, pobre, próxima a marginais, convivendo com maus exemplos a todo minuto e outra nascesse numa família com recursos, morando relativamente bem em comparação com a primeira, sempre em contato com indivíduos de comportamento mais sadio?Está claro que a primeira teria mais ocasiões de falhar do que a segunda. Se supusermos, ainda, que a primeira teve uma existência mais breve que a outra e que cometeu um “pecado”, como um Deus justo e misericordioso poderia lançar aquela para sempre no Inferno enquanto que a outra se destinasse ao Céu?

Ademais, basta que admitamos que algo em nós sobreviva à morte física, conservando sua identidade, a memória de toda vida que viveu na Terra, os laços afetivos, os conhecimentos que adquiriu, e o desejo de se por em comunicação com aqueles aos quais se ligou voluntariamente em vida em razão da simpatia que os unia. Basta isso para que este mundo seja banhado por uma luz eterna e benfazeja.

E é justamente isso que nenhuma religião até hoje forneceu ao homem. Falaram-lhe de Deus, mas de um Deus pouco ou nada misericordioso; falaram-lhe que sua alma é imortal, mas não apresentaram argumentos convincentes para sustentá-la e, pior, inventaram um Juízo Final absurdo, encontro marcado entre o Juiz Supremo e as almas de todos os mortos, que se levantariam de suas sepulturas catando cada molécula extraviada de seu antigo corpo para novamente refazê-lo, e assim ataviadas, aguardarem o seu julgamento. Entenderiam, esses miseráveis réus, o seu julgamento?O que esperar daqueles nascidos imbecis, mongolóides?O que esperar de mentes que estiveram mergulhadas num marasmo de mil anos, algumas, de dois mil, outras?Sim, almas entorpecidas, almas que não tiveram o que fazer almas para as quais o Deus católico não encontrou nada de útil com que pudessem se ocupar, almas saídas talvez duma hibernação pavorosa, já que, mortas, não podiam se comunicar com aquelas que continuavam a viver na Terra pelo simples motivo de lhes ser negada essa possibilidade pelas religiões, em especial a Católica.

Muito se tem falado sobre o empobrecimento ou, mesmo, a franca destruição da natureza pelas nossas práticas predatórias, imediatistas,a exploração inescrupulosa de seus recursos naturais finitos,o envenenamento do seu solo,de suas águas e de sua atmosfera,a emissão de gases que favorecem o efeito-estufa.Os cientistas têm publicado artigos inquietantes sobre o efeito estufa,por exemplo,ambientalistas tentam esclarecer a opinião pública sobre o perigoso caminho que a civilização parece enxergar como inevitável. Evidentemente, toda essa campanha que tenta reverter esse estado de coisas é válida. Entretanto, creio que não tocamos no ponto que importa ferir. Com efeito, aquele que acredita que fomos mandados para viver uma única vez neste mundo, a menos que seja uma pessoa muito desprendida dos bens terrenos e possua uma moral muito elevada, jamais cuidará tão bem de sua casa, isto é, da Terra, quanto outro que se acha de posse dos conhecimentos do Espiritismo. Tentará obter o máximo que este mundo lhe pode dar e se apiedará de seus filhos e netos. Dirá que tentou fazer para eles um mundo melhor, mas no íntimo confessará a si mesmo:” meu pobre filho, meu neto, tomara que vocês possam levar uma vida com mais qualidade que eu!Não lhes direi nada, porém, para não desanimá-los”. Entretanto, se tivéssemos a certeza de que nós e nossos filhos e nossos netos, depois de mortos, viéssemos a habitar esta Terra novamente, nosso empenho em fazer dela um mundo melhor teria um incremento imensurável. Por enquanto, não podemos fornecer provas que sejam aceitas por todos, sem exceção, mas os fatos se acumulam, os que os estudam passam a crer neles e os que não se interessam, ou não ao ponto de estudá-los, terão, em poucos anos, provas irrefutáveis. É só questão de tempo.

Estamos todos no mesmo barco. Depois que morrermos nosso destino não será aquele traçado por uma religião ou outra, mas sim aquele que estiver na ordem da natureza. Neste nosso mundo terreno, embora as religiões diversas tenham crenças às vezes conflitantes, nenhuma irá negar que entramos neste mundo após certo tempo no ventre de nossas mães, que nosso corpo, depois de nascido, se desenvolve gradualmente, que todos temos necessidades comuns de alimentos e proteção enquanto não podemos cuidar de nós mesmo_e que morremos todos,sem exceção.Se nossa alma sobrevive,não é natural pensarmos que ela o faz de algum modo preciso,num mundo cujas linhas gerais devam ser as mesmas para todos,que tenhamos necessidades comuns,e que,enfim,sejamos para nós mesmos e nossos semelhantes naquele mundo seres tão concretos quanto o somos neste?

Teresópolis, 25 de agosto de 2008.
Carlos Rezende



Carlos Rezende



 

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