O Tiná mesmo parece que não ficou sabendo que
recebeu a tal visita, possivelmente quase ninguém soube,
a menos que a mulher e as meninas tenham aberto o bico. Tudo
indicava que não. Meninas é o modo de dizer, na
verdade eram duas louras em plena adolescência, gêmeas
não idênticas, na flor e na força dos seus
quinze anos, jeitosas e bonitas de chamar a atenção.
Será que se pode mesmo chamar de visita, ou foi uma invasão?
Se alguém mais ficou sabendo não comentou e o
fato não chegou a transpirar para o público externo.
Parece que foi isso. Por parte do visitante não com toda
certeza, de tão acabrunhado, ele ficou foi muito bem
calado, numa boa, não contou nada, mesmo para os mais
íntimos, pelo menos naqueles dias e naquele tempo.
Antes de entrar nos fatos em si, temos que traçar algumas
preliminares para podermos entender realmente o acontecido,
com todas as suas conseqüências, que na realidade,
no frigir dos ovos, podemos dizer que não foram nenhuma.
Ponto de referência: mais ou menos em frente ao restaurante
do Searino.
Searino ou Cearino? Nunca vimos a palavra escrita, mas não
importa, dá no mesmo, o que nos interessa são
as duas casas. Eram uma espécie de irmãs gêmeas,
praticamente iguais, uma ao lado da outra, separadas pelas entradas,
cada uma com a sua, ambas baixas, no nível da rua, de
onde se podia ver dentro, através das janelas, que eram
grandes com venezianas e pintadas de azul. Estas casas pertenceram
ao seu Zuzú Borges. No início ele morou numa e
usava a outra como internato masculino para os rapazes de fora
que estudavam no Ginásio. Todavia, nesta época
do nosso evento, ele já não morava mais ali, ou
as tinha vendido ou as alugava, não se sabe com certeza.
Numa delas, quem morou por vários anos foi o Ernesto
Barroso. Quanto à outra, teve diversos moradores, um
dos quais foi o Geraldo, irmão do nosso visitante, e
o outro foi o Tiná.
Alguns pormenores pertinentes.
Havia pelo menos duas atrações de interesse na
casa do Geraldo: os passarinhos de gaiola e a radiola.
Era linda, uma maravilha, a coleção que o irmão
mantinha. As gaiolas todas iguais, mesmo tamanho e mesmo formato,
redondas, de cedro envernizado e gradeadas com taquara, faziam
grande efeito penduradas na base da cumeeira, na varanda da
copa, enfileiradas lado a lado, mais de dez com certeza. Os
pássaros uma seleção escolhida a dedo:
um azulão que cantava e brigava, mansinho de vir comer
na mão; o coleiro-do-brejo, com seu canto característico,
além da capacidade de imitar outros pássaros;
dois curiós, com seus trajes sisudos de monges da Idade
Média, afastados para não interferir um com o
outro, igualmente cantadores de primeira; uma cigarra, daquelas
cujo canto dobrava e repicava; um bico-de-lacre especial, comprado
do Zezinho Leiteiro, o melhor da cidade, um bigodinho. Mais
o quê?
Nada melhor do que se postar no chão, recostado numa
almofada, desligado de tudo, concentrado apenas no canto daqueles
pássaros, cantava um, cantava outro, às vezes
dois ou mais ao mesmo tempo, verdadeira sinfonia, cada músico
com seu instrumento, até o catatau muitas vezes desprezado
dava o ritmo com seu canto de percussão. Ambiente aéreo
e leve, longe de problemas, em paz com a vida.
A outra atração era a radiola, com sua dúzia
e meia de discos de vinil, 78 rotações, para ouvir
os sucessos da época: Francisco Alves, Silvio Caldas,
Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo, Luiz Gonzaga, Vicente
Celestino, Dalva de Oliveira e muitos outros.
Colocava um disco e também ficava alheio, concentrado,
sentado na cadeira de balanço. Até que o irmão
tinha bom gosto. Quando ficasse adulto e tivesse alguma renda,
pretendia fazer o mesmo. Nada como uma seleção
de passarinhos na varanda, como aquela, de alta qualidade, cantadores,
bem tratados, e na sala de jantar uma radiola com coleção
de discos, selecionados entre os melhores, para ouvir e deliciar-se,
e passar horas aproveitando a vida.
Assim, havia uma quase que rotina sempre que passava de bicicleta
em frente à casa do irmão e não tinha nada
mais importante que fazer. Dava uma parada, estacionava a bicicleta
no meio fio, entrava e ia ver os pássaros ou ouvir algum
disco. Isto, fora a amizade que tinha com ambos, irmão
e cunhada, e os papos agradáveis a comentar as novidades.
Um dia, num desses papos, a cunhada comentou que estavam pensando
em mudar-se, um comentário assim meio de passagem, “en
passant”, coisa que não seria para agora. Como
estava ligado nos passarinhos, não deu muita importância.
Foi fatal.
Na próxima visita, que ocorreu talvez um mês depois,
estacionou a bicicleta e foi entrando. A porta naturalmente,
como sempre, encontrava-se aberta, como era comum em todas as
residências na cidade. Estranhou a mobília da sala,
diferente, e censurou a cunhada “papai tinha toda razão
quando brigava com ela, um consumismo danado, pra que trocar
de mobília se a outra estava tão boa?”.
Continuou entrando. “Trocou também a mobília
da sala de jantar, que exagero?”. Continuou entrando.
Desta vez na direção dos dormitórios, a
parte íntima, o sagrado da família, o recôndito,
e topou com a mulher do Tiná mais as duas gêmeas,
estas à vontade sentadas na cama, as pernas cruzadas
pra cima, em toda a intimidade, lidando com umas costuras ou
uns bordados, sei lá. Ainda bem que não chegou
a ver nada demais, apesar das pernonas semi-expostas, à
vista, em primeiro plano, cruzadas, chamando a atenção,
estavam compostas, sentadas direito. Não viu nada demais.
Não viu nada demais, mas foi o suficiente para perder
o rebolado naquele ambiente proibido de intimidade, ficar sem
ação, vermelho, branco, verde de constrangimento.
Imediatamente veio a lembrança da cunhada, quando disse
que eles iam mudar. Então foi isso, os moradores agora
eram outros. Que mancada, a saída foi fingir de bobo,
inocente, desentendido, dar uma de joão sem braço
e surpreso perguntar pela cunhada. “A Ilda está?”.
A reação delas? Susto, indignação,
vergonha?
Que nada, acharam foi muito engraçado, caíram
na gargalhada, morreram de rir quando viram a cara de tacho,
o descontrole do jovem. A princípio a mulher tentou ainda
ser legal e remediar, “não, ela mudou, não
mora mais aqui, quem mora aqui agora somos nós”.
Mas terminou mesmo foi não se controlando, entrando no
coro, caindo também como as outras na risadaria, vendo
a confusão do visitante, o acanhamento, o enrolamento,
a voz meio embargada.
Ele fez meia volta e saiu às pressas, deixando o quarto,
passou pela sala de jantar, atravessou a de visita, e saiu na
varanda, quase de galope, nunca aquela distância pareceu
tão grande. Pegou da bicicleta e partiu numa disparada.
Quando dobrou a esquina à direita, já bem afastado,
entrando na rua dona Francisca Teixeira, ainda parecia zoar
em seus ouvidos as risadas lá distantes.
Não comentou nada com ninguém e durante um bom
tempo evitou passar naquela rua e naquela vizinhança,
e evitou também a partir de então a cruzar com
as gêmeas no trança-trança da cidade.
H.
Teixeira de Siqueira

