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A
AGONIA DE UM RIO
Os calçadenses com mais de 30 anos conheceram
um rio que, hoje, os calçadenses mais novos não
acreditam que existiu. Estou falando, claro, do velho e agonizante
Rio Calçado.
No meu tempo de garoto, final dos anos 60 e
início da década de 70, a diversão predileta
da molecada era tomar banho no Rio Calçado. Dia ensolarado
nos feriados, férias ou finais de semana, não tinha
jeito, íamos todos brincar e tomar banho no rio. Claro
que, na maioria das vezes, tinha que um adulto ir acompanhando,
para vigiar e garantir a segurança. Era exigência
dos pais. Também, não vou mentir, íamos algumas
vezes sem o conhecimento e o consentimento deles, por nossa conta
e risco. Quando chegávamos em casa, molhados e sujos de
areia e barro, começava o interrogatório. Quem deixou
? Foi com quem ? Quem estava acompanhando ?. Era um sufoco danado
e em 99% das vezes ficávamos de castigo. Mas era divertido
e gostoso, muito gostoso.
Depois, já nos meados da década de 70, foi construida
a piscina do Colégio de Calçado. Então deixamos
um pouco de lado os banhos no rio e passamos a nos divertir na
piscina.
Bom, deixemos a piscina de lado e voltemos ao
nosso Rio Calçado.
Todos sabemos que as nascentes principais do rio estão
localizadas na Serra do Caparaó e algumas nascentes secundárias,
nos Pontões. Com o passar dos anos, o nosso desleixo para
com o meio ambiente e tudo que diz respeito, principalmente, às
nascentes dos rios e córregos, bem como a todo um conjunto
de ecossistemas, foi colaborando para que a situação
do nosso Rio Calçado chegasse ao ponto em que chegou.
Que criança de hoje, na nossa cidade,
vai acreditar nas histórias que se conta sobre o rio ?
Dos banhos na prainha, no trecho em que o rio fazia uma grande
curva e uma das margens era um areião, lá na saida
de Calçado para Palmital ( Airituba ), onde famílias
inteiras frequentavam nos finais de semana ensolarado; Dos banhos
no trecho do rio que passava no quintal da casa do Sr Bianor;
Dos banhos no trecho do rio que passava nos fundos do armazém
de café do Salim Sá, trecho conhecido como Dona
Éta, que recebia como afluente as águas mornas e
límpidas de um córrego; Dos mergulhos no rio, saltando
da ponte, na saída de Calçado para Bom Jesus, etc.
Quem acreditaria que na Fazenda Velha existiu
uma usina hidrelétrica, que atendia a nossa cidade com
luz elétrica ?
Quem acreditaria nas histórias dos pescadores ( Crissaff,
Germano Tatagiba e outros respeitados pescadores ) a respeito
dos piáus, cascudos e traíras pescados no nosso
rio ? Claro que os pescadores aumentavam um pouco o tamanho e
o peso dos peixes, mas que tinha peixe, isso tinha !
E por fim, qual criança vai acreditar
que nas matas que margeavam o rio, existiam capivaras, tatus,
tamanduás e outros bichos mais?
É, minha gente, querendo ou não aceitar a responsabilidade
pela agonia do nosso Rio Calçado, a verdade é que
ele está morrendo. E morrendo de forma dolorosa e rápida.
Afinal, estamos falando de um período de 30-40 anos atrás.
Mas o que fazer para tentar reverter a situação
? Tempo há, pois a natureza é uma mãe que,
quem a seus filhos agrada, sua boa adoça. Contudo, tempo
não há para esperar. Temos que tomar as providências
hoje, agora, já.
Sei que em Calçado já temos uma
ONG, a ACADEMA, envolvida nesse assunto. Temos, também,
o Projeto Managé que trata, entre outras coisas, do repovoamento
do rio e a recomposição da mata ciliar. Temos, ainda,
os Passeios D'Aventura, com os ciclistas percorrendo áreas
do nosso município e conscientizando a população
da necessidade de preservar o meio ambiente. Portanto, já
temos uma consciência, mesmo que incipiente, de que o problema
existe e é grave. Falta, acredito eu, maior conscientização
por parte da maioria da população e dos poderes
constituidos.
Se não estou enganado, a última
grande obra de saneamento básico realizada em Calçado,
foi na segunda administração de Antônio Borges
de Rezende (1976-1982 ), quando foram realizadas as obras da estação
de tratamento de água da CESAN e a canalização
dos esgotos sanitários das residências. Naquele tempo
ainda não se falava em consciência ecológica,
tratamento de esgôto e recolhimento seletivo de lixo, etc.
Talvez por isso, boa parte do esgôto das residências
foi canalizado, melhorando o saneamento básico, mas o destino
final continuou sendo o Rio Calçado.
Hoje, passados quase 20 anos dessa última
grande obra, é de se perguntar : - Por que o destino dos
esgôtos do Hospital São José e do Posto de
Saúde continua sendo o Rio Calçado ? Para onde são
encaminhados os resíduos químicos provenientes da
lavagem dos carros nos postos de combustível e nos lavadouros
? Os esgôtos das residências localizadas às
margens do córrego que passa atrás do campo do Americano,
ainda são despejados no córrego ? Qual o destino
do lixo recolhido na cidade ? Essas e outras perguntas se fazem
necessárias para que, quando respondidas, tenhamos noção
do grau da nossa irresponsabilidade. Digo nossa porque, mesmo
que alguns de nós não sejamos responsáveis
diretamente pela agonia do rio, em algum momento fomos, no mínimo,
omissos.
A
hora é agora e eu aproveito para sugerir duas medida de
impacto. A saber: 1) a limpeza do córrego que passa atrás
do campo do Americano e direcionar todos os esgôtos para
fossas sépticas que serão construídas ao
longo de seu percurso e, 2) A construção de uma
usina de reciclagem do lixo recolhido na cidade.
Lembro que o Governo Federal tem um programa
para construir milhares dessas fossas sépticas e o PRONAF
( um progama também federal ) financia a construção
dessas usinas de reciclagem, que são, inclusive, geradoras
de emprego e renda. Uma usina dessas tem o custo de aproximadamente
R$ 100.000,00 ( cem mil reais ).
Vamos juntar nossas forças, reunindo
profissionais que atuam em áreas afins, os poderes constituídos
do município, os calçadenses que atuam em diversos
organismos no âmbito estadual e federal e mostrar que é
possível salvar o Rio Calçado. Basta União
e Vontade.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE

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