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À
NOITE TODAS AS GATAS SÃO PARDAS
Estamos
em Marataízes, depois de uma temporada exaustiva em Guarapari.
Todos acampados na casa de praia da D. Dalva e Sr. Chico Glória
( pais de Angêla, Margarida e Maristela ).
Adésio
e eu tinhamos barracas de 5 lugares. Na área gramada da
casa de D. Dalva armamos nossas barracas. Como tinha muita gente
para pouca barraca, alguns dormiam na varanda da casa. Entendam
"dormir" como sendo uma expressão do tipo "apagão
geral involuntário".
Depois
de conseguirmos armar as barracas e nos tostarmos debaixo de um
sol impiedoso, a cede bateu forte. Corremos para a praia a fim
de aliviarmos um pouco do calor e da cede. Ao chegarmos na praia,
institivamente fomos subindo alguns degraus de uma escada de madeira,
que nos levava a um alpendre, cheio de mesas e com uma vista maravilhosa
para o mar. As meninas ainda esboçaram um protesto, mas
diante o argumento apresentado pelo Toinha que, segundo ele, aquele
mar ficaria ali, ainda, por muitos e muitos anos, sentamos à
mesa e pedimos as cervejas.
Realmente
aquele bar era um convite para apreciar a fauna marinha. Camarões
fritos, Peruás fritos, postas de Dourados e Pescadas fritas
e moquecas deliciosas. Poluindo tudo isso, batatas fritas e muita,
mas muita cerveja.
O
tempo passou tão rápido que não demos conta
de que já estava anoitecendo. Pedimos a "dolorosa"
e nos encaminhamos, siguezagueando, para as barracas, a fim de
trocarmos de roupa.Trocaríamos os short's de banho pelas
calças jeans e camisas.de malha, que se encontravam lá
no fundo das mochilas. Dava dó de ver aquelas camisas com
tantas dobras. Eram tantas, que parecia camisa xadrez.
Todo
mundo "arrumado", seguimos para o segundo tempo da labuta.
Íamos direto para uma grande cabana de sapê, de formato
circular. Tinha música ao vivo e a turistada ficava concentrada
lá. A cabana-boate era o point daquele verão em
Marataízes.
Mas,
como sempre acontecia, "no meio do caminho havia um boteco.
Havia um boteco no meio do caminho". Paramos por alguns minutos,
só para repor as energias. Cento e oitenta minutos depois,
pedimos a conta e rumamos para a danada da cabana. Chegamos por
volta das 23:30 hs.
A
cabana estava cheia, mas não lotada. Para não perder
o costume, fomos direto ao porteiro pedir um abatimento no preço
da entrada. Porteiro duro na queda. Depois de muita ladainha,
Paulo Bueno ( irmão do Bastião da Dona Magali )
fez uma proposta irrecusável ao porteiro. Trocaríamos
o dobro do valor das entradas por fichas do bar. Era uma questão
de princípios, dizia Paulo Bueno. O porteiro, já
de saco cheio daquela ladainha interminável, aceitou o
proposta. Entramos todos, no total de uns doze. A saber : Pedrinho
Melo, Toinha, Paulo Bueno, Adésio, Zévane Castro,
Ronaldo Castro, as irmãs Angela, Maristela e Margarida
e mais duas primas delas e eu.
As
mesas ficavam fixas no chão, do mesmo tipo das mesas de
cabana de praia. Para sentar, cada mesa possuia dois bancos de
dois lugares. Esse bancos ficavam soltos, podendo ser movimentados
para todos os lados. Ocupamos 3 mesas.
Depois
de algumas horas dentro daquela cabana, demos pela falta do Paulo
Bueno. Até o garçon achou estranho os últimos
pedidos da nossa mesa.. Não aparecia mais escrito na comanda
: um copo de cachaça no valor de ....... Para quem não
conheceu o Paulo Bueno dos bons tempos, a dose de cachaça
dele era da altura de dois dedos de uma mão, entre o mindinho
e o fura bolo ( uma mão tem os dedos mindinho, seu vizinho,
pai de todos, fura bolo e o mata piolhos, lembram ? ).
Pois
bem, de repente chega Paulo Bueno na mesa. Tinha estampado no
rosto um sorriso mamado. Ele tinha que contar uma novidade, mas
precisava falar de forma que todos acreditassem. Antes, porém,
chamou o garçon e pediu o de sempre : - um copo de cachaça,
por favor !
-
Gente, vocês não vão acreditar. Tem três
gatas lá no fundo da cabana, perto dos banheiros. São
de Governador Valadares e estão sozinhas. Falei que levaria
dois primos meus para equilibrar aquela equação.
Agora dois de vocês tem que ir comigo. Vamos lá Juquita
e Toinha ! Disse Paulo Bueno num fôlego só e já
puxando o nosso banco e nos arrastando, junto com o banco, até
a mesa das gatas.
Nos
cumprimentamos e logo Paulo Bueno fez novos pedidos ao garçon.
Para ele, o de sempre; eu e Toinha pedimos Campari e as gatas
pediram Hi-Fi. Achamos aquele pedido das gatas meio defasado no
tempo mas, tudo bem, não vamos puxar fundamento. Bueno
já estava ronronando com uma das gatas e, de vez em quando,
virava p'ra gente e perguntava se não era verdade o que
estava falando. Confirmávamos tudo, mas nem sabíamos
do que se tratava. E tome conversa fiada. De repente, Bueno debruça
sobre a mesa e tasca um beijo apaixonado na sua gata. Beijo cinematográfico,
laringe com laringe, as línguas soltas e serelepes percorriam
todos os cantos daquele palco bucal, num verdadeiro balet de línguas
( Arghh ! ). Interrompemos nosso incipiente namoro para ver aquele
beijo. Tamanha sofreguidão do casal haveria de ter conseqüências.
E teve.
A
fila do banheiro tinha crescido, ninguém entrava. Todos
queriam ver aquele beijo. Finalmente o espetáculo termina.
Paulo Bueno vira para o Toinha e, segurando a dentadura de sua
gata entre os dentes, pede que a guarde em um lugar seguro. Toinha,
duplamente paralisado pelo efeito da bebida e da cena, continuou
paralisado. Bueno não titubeou, pegou delicadamente a "perereca"
e a depositou dentro do copo de Campari e, voltando-se para sua
gata, retoma o beijo do ponto onde tinham parado.
Assim
não era possível continuarmos ali, pensamos. Não
pelo beijo ( o amor é lindo, né não ), mas
ficar aturando aquela dentadura rindo p'ra gente, dentro do copo
de Campari, era demais. Pegamos, Toinha e eu, o nosso banco e
voltamos arrastando-o pela pista de dança, até a
mesa onde se encontrava o resto do pessoal. Ninguém conseguia
falar nada, todos estavam se acabando de rir.
Segundo
a Angela, as gatas tinham idade compatível de quem havia
servido de voluntária da Cruz Vermelha Internacional, na
Segunda Grande Guerra. É possível, porque me lembro
que nas tratativas iniciais do nosso colóquio, quando as
gatas iam ao banheiro, juntas naturalmente, saiam cantarolando
......."Por mais terra que eu percorra, não permita
Deus que eu morra, sem que volte para lá, .... " (
canção do expedicionário )
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE

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