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Diálogo
Alternativo
Estava
viajando pelo interior e me ocupava em ouvir os diversos falares
de cada região. Um diálogo entre duas senhoras me
chamou a atenção pela, digamos, linguagem bem descompromissada
com o rigor gramatical. Eis aí parte do que ouvi e consegui
registrar.
- Oi, cumádi, tudo bão?
- Bão, nada! Tô com uma baita dor
cabeça que até tá me dando uma milésia
cerebral. Não se alembro das coisas... Me mandaram
tomar um remédio para memória... Acho que é
chicobiloba...
- Mas você tem que primeiro tomar um remédio
pra essa dor de cabeça. Toma navagina " ou
buscapé que são muito bão para dor.
- É... .Mas eu acho que essa dor de cabeça
é genitária, porque minha mãe tinha,
meu avô também... Às vezes, sinto que vou
ter um ataque pelético de tanta dor.
- Encrencado mesmo tá o meu marido. Você
acredita que ele continua com aquela prisão de vento, que
não deixa o desinfeliz cagar quase nada?
-Mas ele parou de tomar o lanxante?
- Não, ele continua, mas tá complicando
cada vez mais. Cada dia aparece com uma macacoa. E só
come o que não faz bem. O doutô
falou que ele tem de comer muita fibra. E o danado gosta mesmo
é de comer costela de boi com manjoca.
-A sua sogra continua variando?
-É claro! Ela tá cada vez mais
iscarosada. Istrudia, ela cismou que tava com uma dor de
dente terrível. Ninguém conseguia acalmar ela. Foi
preciso tirar as duas dentaduras da boca dela e falar que dente
de dentadura não dói. Foi um horror!...
- Ainda bem que a minha é muito espertinha.
Só o meu sogro que há pouco tempo operou de apênis,
mas ele já tá bão. Come de tudo e nada faz
mal, só não pode comer com muito sal por causa da
pressão. Aquele velho pra mim é um heroíno.
- Agora me conta como tá o meu afilhado.Tem
tanto tempo que a gente não se vê.
- Ele tá ótimo! Na escola é
um sucesso. A professora dele falou pra mim que ele é um
menino superadotado de tão inteligente que ele é.
Eu fico orgulhosa com isso, porque a gente vévi com dificulidade,
mas que dar o melhor pros meninos.
- Só de ouvir isso, chega a me dar um
arrupio de sastifação. Eu gosto muito
daquele menino,e torço pra ele se fazer na vida, porque
eu é ... que sei como uma mãe sofre, quando o filho
não dá pra nada. O meu mais velho quando fumava
marcondi me deixou muito triste. Graças a Deus,
ele parou e tá outro.
- Deus me livre e guarde dessa má hora,
sempre me apego com o morço São Sebastião
pra me proteger dos males e dos zoiúdos.
- Mudando de assunto, cumádi, você já
fez aquela puxadinha na sua cozinha?
-Ah, minha amiga, a vontade de querer é
ser muito, mas...
(?)
Neste momento, fiquei em estado de choque, pois não conseguia
assimilar a pérola: "A vontade de querer é
ser muito." Fiquei com uma imensa vontade de querer entender
esse português-tupiniquim, mas" é ser muito"
difícil... Fim de papo! As comadres se despediram, deixando-me
curioso.
Diálogo alternativo é para substituir
a linguagem estilizada e escorreita de Machado de Assis e evidenciar
o português simples, descontraído, bem ao estilo
da figura criada por Monteiro Lobato - o brasileiríssimo
Jeca Tatu. Afinal, um ex-presidente nosso já disse que
somos todos caipiras. O importante é se comunicar: "A
vontade de querer é ser muito." (?) Entendeu?..
Não?.. Nem eu!...
Edson
Lobo Teixeira
Presidente
da Academia Calçadense de Letras (ACL)

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