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SOB
OS HUMORES DO FÍGADO
Certa
vez perguntaram ao Marechal Montgomery, herói do Exército
Inglês na Segunda Guerra Mundial, como ele fazia para escolher
seus oficiais, de modo a colocar sempre o homem certo no lugar
certo, com vistas a obter sucesso em suas campanhas. O Marechal,
parou, pensou e respondeu. Disse que classificava seus homens
em quatro grupos de indivíduos: os inteligentes trabalhadores,
os inteligentes preguiçosos, os burros preguiçosos
e os burros trabalhadores.
Complementando, explicou. Os inteligentes trabalhadores,
ele os colocava nas funções mais importantes, no
comando dos exércitos, das grandes unidades, no fronte
da guerra, onde era preciso iniciativa, capacidade, discernimento,
tirocínio, prudência, etc.. Estes dispensavam supervisão,
e eram capazes de tomar os caminhos mais certos e adequados nos
momentos de decisão. Os do segundo grupo, os inteligentes
preguiçosos, não obstante a necessidade de supervisão
permanente, ele os considerava elementos muito úteis, às
vezes criativos, e com idéias brilhantes. Por isso os mantinha
em seu estado-maior, ali bem juntinho dele, onde os podia controlar
de perto. Eram importantes principalmente no assessoramento pessoal,
e ajudavam nas tomadas de decisão, nos momentos mais difíceis
e críticos. Quanto aos burros preguiçosos, geralmente
não dava para se contar com eles, mas também não
causavam maiores problemas, ele os designavam para qualquer lugar,
qualquer função que não dependesse de maiores
cuidados. Agora finalmente, quanto ao último grupo, o dos
burros trabalhadores, esses ele os queria o mais longe possível,
não os admitia em seus comandos, não queria saber
deles, devolvia-os para o alto comando do exército. Segundo
pensava, esses elementos eram terríveis e incontroláveis,
sujeitos a tudo, costumavam atropelar as coisas, e quando se dava
fé, já tinham feito um monte de bobagens e criado
problemas, às vezes incontornáveis e difíceis
de remediar.
Por que me veio esta lembrança do Marechal
Montgomery?
Talvez porque hoje ando meio azedo, meio corrosivo,
rabugento, sob os eflúvios dos humores do fígado.
É que estive observando as fotos antigas
e históricas de Calçado, expostas no Site do Broinha.
Aquele prédio da prefeitura, o Ginásio distante,
imponente, isolado, lindo de se ver, os casarões antigos,
antigos, tão característicos e assentados na paisagem,
aqueles morros verdes e belos, contornados em baixo pelas trilhas
do casario.
Pensei, será que isso tudo tinha mesmo
que desaparecer? A prefeitura demolida, o Ginásio sufocado
no meio de um sem número de construções ridículas,
sem imaginação, que lhe esconderam a altivez, a
graça e a beleza. Os casarões clássicos,
nobres, desaparecendo um a um. Os espaços vazios, montanhas,
áreas verdes, vistas maravilhosas também desaparecendo,
vítimas de uma urbanização sôfrega
e predatória. O Cemitério velho, atrás da
casa paroquial, será que tinha mesmo que ser destruído?
Ainda bem que preservaram, que alívio, a Praça Pedro
Vieira, não a lotearam.
Na minha opinião, Calçado hoje
perdeu muito de sua graça, tenho pena das novas gerações
que não conheceram aquela cidade das décadas de
quarenta e cinqüenta, como eu a vi. Me questiono, por que
será que nesses últimos quarenta, cinqüenta
anos, a cidade não cresceu para fora, para os lados da
Vala, para os caminhos de São Benedito, do Jacá,
para os lados do Córrego da Areia, ou na direção
da Memória, do Jaspe, do Bandeira? Não consigo respostas
razoáveis, terrenos existem à vontade. Mas não,
a cidade cresceu foi para dentro de si mesma, se inchou, intumesceu-se,
perdeu grande parte de suas áreas verdes. Lamentável,
lotes pequenos, terrenos mínimos, sem possibilidade de
expansão, sem quintais nos fundos e nem jardins nas frentes,
sem áreas de laser ou mesmo para garagens e acomodação
de veículos. Grande parte das áreas livres, das
verdes que existiam, mesmo as íngremes e montanhosas, que
tanto enfeitavam a paisagem, foram divididas e subdivididas.
É só dar uma olhada em volta pela
cidade atual, e verificamos que ela vem reclamando. Muitas casas
e prédios sufocados e desesperados continuam querendo crescer,
só que só o conseguem para cima, com nítido
prejuízo da beleza, da luz, da ventilação,
de um ambiente propício à limpeza e à saúde.
Não existem mais espaços livres laterais, nem na
frente e nem atrás..
Por que tudo isso aconteceu ou vem acontecendo?
Pensando por absurdo, matuto comigo mesmo que
uma das hipóteses para esse aproveitamento tão mesquinho
dos terrenos poderia ser o alto preço do metro quadrado
dos lotes. Então lembro de Nova York, na Quinta Avenida,
próximo do Central Park, onde Jaqueline tinha seu apartamento,
o metro quadrado mais caro do mundo. Não, não pode
ser, é ironia demais, nem lá aconteceu isso. Hipótese
a priore descartada.
Uma outra, esta bem mais plausível, é
que provavelmente a culpa seja de todos nós, que nestes
últimos anos, nas últimas décadas, como eleitores,
como amantes da terra, como cidadãos, não soubemos
seguir os conselhos do velho Marechal Montgomery e colocar os
homens mais adequados à frente de nossos exércitos.
Na falta ou escassez de talentos, quem sabe, talvez pudéssemos
ter recorrido mesmo a elementos do segundo ou do terceiro grupos.
Pois, certamente, não fazer nada, imagino, seria preferível
do que fazer o que fizeram.
João
Hertesi
Vila Velha, julho de 2003.

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