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Mais
uma história de suas muitas vidas ...
A
professora calçadense Nádia Teixeira de Rezende,
minha mãe, foi sempre uma grande entusiasta pela cultura
e pelas tradições de sua terra. Na obra Uma vida
- muitas histórias, em meio a inúmeras e, não
menos interessantes reminiscências de nossas vidas, deixou
registrado um vasto repertório de "causos", lendas
e histórias de alguns clãs e famílias do
município de Calçado.
Dentre os vários episódios
narrados destaca-se a lenda do "saci calçadense"
(como se vê, um nosso conterrâneo e, portanto, mais
um "broinha" a visitar esta página para nela
deixar a sua mensagem). Trata-se do "Bicho Charpinel"
ou "Bicho do Charpinel", também imortalizado
pelo médico calçadense Napoleão Lyrio Teixeira
no livro, Plantando para o amanhã, e, acreditem,
citado em entrevista, por Carlos Drummond de Andrade, como o "Saci
de São José do Calçado".
Eis
a história:
Contava-se
que um respeitado senhor, conhecido por Francisco Charpinel (de
origem francesa, diziam), residia com sua família na Vala,
bairro que fica na saída de Calçado para Bom Jesus.
As moças da casa, todas elas bonitas e prendadas, eram
cortejadas pelos rapazes da cidade, fossem eles de boa ou má
reputação.
Entre folguedos, bailes e festas, a jovem
Amélia teria se tornado amiga do comerciante Casemiro que,
confundindo as coisas, insistia em namorá-la. Não
correspondido em suas investidas, o rapaz resolveu caluniar a
moça, espalhando, aos quatro cantos, ser Amélia
uma pessoa de conduta duvidosa.
Indignado por tamanho ultraje, o velho
Charpinel ameaçou matar Casemiro, mas a natureza o antecedeu
na tarefa - o caluniador foi acometido de uma mortal febre tifóide.
Durante o período de agonia, muitos foram os pedidos de
perdão pela injúria. A todos eles o pai ofendido
respondia:
-Maldito rapaz, jamais o perdoarei! Vá
queimar-se no fogo do inferno e lá sofrer as suas penas!
...
Morto o comerciante, coisas estranhas
começaram a acontecer. Algo assim como um dolorido grito
de agonia, um assovio alto e prolongado que lembrava um silvo
de locomotiva. Nos mais diferentes lugares, momentos ou situações,
ouvia-se o desesperado uivo do "bicho", conhecido, a
partir de então, como o "Bicho Charpinel" que
a todos aterrorizava. Passavam-se os anos e o fantasma de Casemiro
vagava em sua mortificação, à espera do perdão
que não lhe fora concedido.
Mas, se "entre o céu e a terra
existem mais coisas do que sonha a nossa vã filosofia",
também este caso teve um final surpreendente: uma mãe
aflita teria ido à sua horta durante a noite (em busca
de uma planta para o chá que daria ao filho enfermo) quando
ouviu o terrível assovio seguido de um vento frio. Enfrentando
corajosamente o agoniado espectro, ouviu dele a súplica
para que levasse a Francisco Charpinel mais um de seus pedidos
de perdão. Assim feito, a mulher obteve do velho uma inesperada
resposta: sossegue, D. Mariquinha, há muito já perdoei
aquele insolente!
Depois dessa noite, nunca mais se ouviu
o grito do "Bicho Charpinel" e Calçado se viu
para sempre livre de seu saci.
Este texto, construído a quatro mãos
e numa fusão de vozes, é também um tributo
à memória de mamãe que, através de
sua obra, deixou para as gerações futuras ecos de
um passado distante e que agora se faz presente para os filhos
de Calçado, em especial para os fiéis visitantes
e colaboradores de o "broinha.com..."
Maria das Dores Teixeira de Rezende Raggi
Viçosa, agosto de 2003.

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