MENU





Sua mensagem


Caso a página não esteja sendo exibida corretamente
instale o plugin  do  flash  no seu computador entrando
no link acima.

Melhor visualizado em resolução 800x600 ou 1024x768


Mais uma história de suas muitas vidas ...

    A professora calçadense Nádia Teixeira de Rezende, minha mãe, foi sempre uma grande entusiasta pela cultura e pelas tradições de sua terra. Na obra Uma vida - muitas histórias, em meio a inúmeras e, não menos interessantes reminiscências de nossas vidas, deixou registrado um vasto repertório de "causos", lendas e histórias de alguns clãs e famílias do município de Calçado.

    Dentre os vários episódios narrados destaca-se a lenda do "saci calçadense" (como se vê, um nosso conterrâneo e, portanto, mais um "broinha" a visitar esta página para nela deixar a sua mensagem). Trata-se do "Bicho Charpinel" ou "Bicho do Charpinel", também imortalizado pelo médico calçadense Napoleão Lyrio Teixeira no livro, Plantando para o amanhã, e, acreditem, citado em entrevista, por Carlos Drummond de Andrade, como o "Saci de São José do Calçado".

Eis a história:

    Contava-se que um respeitado senhor, conhecido por Francisco Charpinel (de origem francesa, diziam), residia com sua família na Vala, bairro que fica na saída de Calçado para Bom Jesus. As moças da casa, todas elas bonitas e prendadas, eram cortejadas pelos rapazes da cidade, fossem eles de boa ou má reputação.

    Entre folguedos, bailes e festas, a jovem Amélia teria se tornado amiga do comerciante Casemiro que, confundindo as coisas, insistia em namorá-la. Não correspondido em suas investidas, o rapaz resolveu caluniar a moça, espalhando, aos quatro cantos, ser Amélia uma pessoa de conduta duvidosa.

    Indignado por tamanho ultraje, o velho Charpinel ameaçou matar Casemiro, mas a natureza o antecedeu na tarefa - o caluniador foi acometido de uma mortal febre tifóide. Durante o período de agonia, muitos foram os pedidos de perdão pela injúria. A todos eles o pai ofendido respondia:

    -Maldito rapaz, jamais o perdoarei! Vá queimar-se no fogo do inferno e lá sofrer as suas penas! ...

    Morto o comerciante, coisas estranhas começaram a acontecer. Algo assim como um dolorido grito de agonia, um assovio alto e prolongado que lembrava um silvo de locomotiva. Nos mais diferentes lugares, momentos ou situações, ouvia-se o desesperado uivo do "bicho", conhecido, a partir de então, como o "Bicho Charpinel" que a todos aterrorizava. Passavam-se os anos e o fantasma de Casemiro vagava em sua mortificação, à espera do perdão que não lhe fora concedido.

    Mas, se "entre o céu e a terra existem mais coisas do que sonha a nossa vã filosofia", também este caso teve um final surpreendente: uma mãe aflita teria ido à sua horta durante a noite (em busca de uma planta para o chá que daria ao filho enfermo) quando ouviu o terrível assovio seguido de um vento frio. Enfrentando corajosamente o agoniado espectro, ouviu dele a súplica para que levasse a Francisco Charpinel mais um de seus pedidos de perdão. Assim feito, a mulher obteve do velho uma inesperada resposta: sossegue, D. Mariquinha, há muito já perdoei aquele insolente!

    Depois dessa noite, nunca mais se ouviu o grito do "Bicho Charpinel" e Calçado se viu para sempre livre de seu saci.

   Este texto, construído a quatro mãos e numa fusão de vozes, é também um tributo à memória de mamãe que, através de sua obra, deixou para as gerações futuras ecos de um passado distante e que agora se faz presente para os filhos de Calçado, em especial para os fiéis visitantes e colaboradores de o "broinha.com..."


Maria das Dores Teixeira de Rezende Raggi
Viçosa, agosto de 2003.



 

 


 

 

 

 

 

 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados