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O
PARAQUEDISTA VOMITADOR
Era final dos anos 70, mais precisamente final de 1979. Saragaia
e eu estávamos estudando no Rio de Janeiro e morando num
apartamento na Tijuca. A rua Silva Teles, onde morávamos,
era quase limite entre os bairros Tijuca e Andaraí.
Num certo fim de semana fui sozinho para Niterói.
Saí da Tijuca, entrei no ônibus da linha 438 ( Barão
de Drumond - Copacabana ) e parei na Estação das
Barcas. Fui de barca até Niterói. Peguei o ônibus
para Icaraí e parei no bairro do Ingá, onde fica
o Posto de Gasolina do Tunico. Encontrei o Toinha, Tunico e o
Piriquito. Mais tarde chegaram Pedrinho Melo e Orlando Lindão.
Não demorou muito o Tunico e o Piriquito foram embora para
casa. Segundo o Tunico, tinha Botafoguense demais p'ro gosto dele
ali no Posto.
Começamos a beber cerveja e jogar conversa
fora ali mesmo, no bar do Posto. Aliás, diga-se de passagem,
ali naquele posto sabia-se de notícias dos broinhas, bondinhos,
apiacaenses e demais munícipes da região, em primeira
mão.
Já próximo das oito horas da noite,
Toinha encerra o seu expediente ( ??? ) no Posto. Fomos direto
para o Chalé I, um bar no início da praia de Icaraí,
localizado em frente ao prédio da Reitoria da Universidade
Federal Fluminense - UFF.
Retomamos a conversa fiada, só que não
mais regada a cerveja, agora era chopp. E tome chopp. Chegam alguns
conhecidos, sentam à mesa, conversam e vão embora.
Lá por volta das onze horas da noite, eu digo para o Toinha
que aquela rodada de chopp seria a saideira. Eu tinha que pegar
a Barca e voltar para o Rio. De jeito nenhum, disse o Toinha,
você vai dormir lá em casa. A noite só está
começando e nós ainda vamos lá no Branco
no Samba. P'ra que ! Só de recordar desse caso já
me dá dor de cabeça.
Ficamos ainda mais uma hora no Chalé
I. Então nos encaminhamos para o local onde a Escola Branco
no Samba fazia seus ensaios de carnaval. Fomos em quatro ( Pedrinho
Melo, Toinha, Orlando e eu ), no carro do Pedrinho Melo. A Branco
no Samba ficava no final da praia de Charitas. Até chegar
lá, o caminho era pontilhado de vários bares e restaurantes.
Nem bem acabamos de atravessar o túnel que liga Icaraí
ao Saco de São Francisco, aliás é só
São Francisco ( também, p'ra que santo precisa de
saco ? ). Bem, como ia dizendo, estávamos iniciando a passagem
pela praia de Charitas quando o Toinha apontou para um boteco
que estava fazendo o maior sucesso naquele verão. Paramos
e fomos conhecer.
O boteco tinha na entrada duas portas estreitas
e muito altas. Dentro existia um balcão e as paredes ficavam
escondidas atrás de grandes prateleiras. Tudo no estilo
bem antigo, tipo as prateleiras da farmácia do "Seu
Cruz", lá de Calçado. Nas prateleiras estava
o motivo do grande sucesso daquele boteco. Tinha tudo quanto era
tipo de batida possível de imaginar. Ficamos ali por alguns
15 minutos, não mais que vinte. Acho que menos de uma hora.
É, definitivamente, ficamos ali no máximo uma hora.
Finalmente conseguimos sair daquele boteco.
Achar o carro já foi uma dificuldade, mas achamos. Chegamos
no ensaio da Branco no Samba em estado lamentável. Na boca,
aquele gosto adocicado das batidas estava nos deixando enjoados.
O jeito foi encaminharmos para a barraca de cerveja mais próxima,
o que não foi difícil, pois em cada canto tinha
uma, e pedimos, não, gesticulamos para o barraqueiro, que
nos servisse uma cerveja. Após algumas longas horas e para
grande felicidade do barraqueiro, finalmente fomos embora.
Chegamos no apartamento do Tunico. Não
vale perguntar a que horas saímos do samba, quem foi dirigindo
o carro e como chegamos em casa. Até hoje não sei,
só sei que chegamos. O apartamento ficava no Ingá,
tinha uma varanda que dava para uma rua secundária e não
tinha garagem. Azar do Tunico. Lembro que o Toinha mostrou onde
eu dormiria e onde ficava o banheiro. Caí literalmente
na cama.
Não demorou mais que cinco minutos e
tudo começou a rodar na minha cabeça. A luminária
do teto parecia um ventilador, só que não ventilava.
Ameacei levantar e a coisa piorou. Pressenti que ia vomitar e
aquela sensação de estômago embrulhado estava
aumentando. Só deu tempo de sair correndo e chegar na varanda.
Nem olhei para baixo. Mandei ver. Era cerveja,
chopp, salgadinho, batidas e mais cervejas, formando uma cascata
multicolorida. Foi um alívio. Voltei para a cama e dormi
em segundos.
Acordei com uma dor de cabeça daquelas.
Parecia que toda a bateria da Branco no Samba ainda estava ensaiando.
Encontrei com o Toinha já lavando o rosto e nos encaminhamos
para tomar o café. Sentamos à mesa e logo em seguida
chegou o Tunico.
- Ué pai, não foi para o Posto
?, perguntou o Toinha. Tunico, com uma cara de poucos amigos,
pergunta:
- "- Eu queria saber quem foi o f.d.p que vomitou
de para-quedas sobre o meu carro ? Além de estar todo fedendo,
ficou mais colorido que carro alegórico. Podem tratar de
lavar o carro todinho, cambada de cachaceiros".
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE

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