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TEM PENETRA NA FESTA DE CASAMENTO  


   
   Estávamos vivendo a fase negra do glorioso Botafogo. Não sabíamos o que era comemorar um título de campeão Carioca fazia muitos anos, desde um longinquo ano de 1968. Ìamos ao Maracanã com uma eterna esperança de que, de repente, as coisas tomariam um novo rumo. Mas tava difícil. Quanto sofrimento !

   Naquela tarde modorrenta de sábado, haveria rodada dupla no Maracanã. Fluminense e Olaria jogariam a preliminar de Botafogo e América. Marcamos de nos encontrar às 14:00 h, no bar dos vovôs, que era o último bar para quem entra no Maracanã pela rampa do Mané Garrincha e segue, à esquerda, no anel inferior, sob a arquibancada, até as cabines de rádio e tv.

   Toinha e Pedrinho, mesmo vindo de Niterói, chegaram primeiro e se instalaram no cantinho de sempre no bar dos vovôs. Carioca e eu, que morávamos na Tijuca, chegamos alguns minutos mais tarde. Como o jogo do Botafogo só começaria às 17:00h, tínhamos muito tempo para conversar e tomar nossa cerveja.

   Secamos o Fluminense. O Olaria conseguiu empatar no finalzinho do jogo. Ia começar o jogo do Botafogo. Saimos do bar e subimos para a arquibancada. A conta só era paga quando do intervalo do primeiro para o segundo tempo ( muita gente não acredita nisso, mas é verdade ).

   O jogo estava tão ruim que passávamos a maior parte do tempo em trânsito entre a arquibancada e o bar. O Botafogo jogava irritantemente mal, o que nos levou a uma bebedeira tenebrosa. Um time que tinha no ataque Cremilson, Tuca e Puruca não fazia mal a ninguém. Aliás, minto, só fazia mal aos seus próprios torcedores.

   Acabou o jogo e o Botafogo ficou no 0x0 com o Ameriquinha. Estávamos pior do que tinha sido o jogo. E ainda tivemos que levar o Carioca para casa. Na volta, à pé, seguiríamos pelo canal, rua 28 de setembro e rua Silva Teles, onde eu morava. Contornamos o Maracanã e seguimos por uma daquelas ruas transversais. De repente o som de música nos chamou atenção. Paramos em frente a Associação dos Garis da Cidade do Rio de Janeiro. Tem coisas que bêbado faz que nem ele mesmo sabe explicar. Resolvemos entrar, subindo por uma escada. Eu, encabeçando a fila, já estava quase chegando à porta, quando se dá o seguinte diálogo:

   - Quem são vocês ? Pergunta um negão de dois metros quadrados.
   - De primeira e tropeçando no último degrau, respondi que éramos primos da noiva.
   - O salão de festa é pela outra escada. Aqui só os garçons. Disse o negão, também meio mamado.
   - Nossa prima pediu que ajudássemos a distribuir as bebidas. Disse o Toinha, fazendo força para parecer sóbrio.
   - Ah, que bom que vocês vieram. Isso aqui dá muito trabalho. Alí ficam os freezeres e os salgadinhos. Eu vou dar uma passadinha lá no salão. Despediu-se o negão, todo gentil e meio cambaleante.
   - Pode deixar que tomaremos conta de ....todas. Disse o Pedrinho Melo, bem baixinho.

   A festa estava animada e a todo minuto aparecia um garçon pedindo mais cervejas. A cada cerveja distribuida, abríamos uma outra para nós. Já estávamos chamando urubu de meu louro, e não percebemos que quase todo mundo tinha ido embora. Do nada apareceu o negão, acompanhado da noiva. Agora a coisa vai pegar, pensamos. O negão começou a falar para a noiva:

   - Esses são os seus primos. Estão desde cedo ajudando os garçons com as bebidas.
   - Obrigado pela ajuda. Veio tanta gente. Jair ( esse era o nome do negão ) disse que vocês ajudaram muito. Agradeceu a noiva, cheia de elogios pelo nosso serviço.
   - Não foi nada. Fizemos por puro prazer. Disse Pedrinho Melo, na maior cara de pau.
   - Vocês me desculpem perguntar, mas a família de papai é tão grande. Vocês são os parentes lá de Cascadura ? Perguntou a noiva.
   - Eu já ia confirmando, quando o Toinha disse que não.
- Somos de Niterói, somos filhos do Tunico. Completou o Toinha, quase caindo dentro de freezer.
   - Anh ! Papai falou que vinha parente de Niteroi também. Que bom que vocês vieram. Vamos lá no salão, Jair, chamar o papai para ver os parentes.

   Foi só o tempo da noiva e o negão descerem a escada e tomarem o rumo do salão. Descemos a escada num pulo só, corremos até a rua Hadock Lobo, entramos na Barão de Mesquita e chegamos na Silva Teles. Chegamos no apartamento com o estado físico lamentável, mas os efeitos da bebedeira tinham passado. Estávamos que nem côco e ainda eram 23:30 h.

   Passado o cansaço, percebemos que ali próximo, no Andaraí, o Salgueiro estava ensaiando o seu samba enredo de carnaval. A noite ainda era uma criança. Por que não aproveitar o finalzinho de sábado ....... Esta será uma outra história !


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE


 

 


 

 

 

 

 

 

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