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O FORTE APACHE

Em São José do Calçado a molecada que morava nas casas que circundavam as praças Pedro Vieira e Governador Bley, respectivamente, a praça em frente à Prefeitura e a praça do Grupo Escolar, gostava de brincar na rua. Podia ser uma pelada, pique - esconde, baleba ou bola de gude ou carrinho de mão, não importava o que fosse, o negócio era brincar na rua.

Atrás do Grupo Escolar existia um campinho de terra batida, que terminava num barranco, no qual avistávamos toda a ladeira, que chamávamos de ladeira da Dona Candinha. Descendo essa ladeira e seguindo em frente, ficava o Matadouro Municipal. Era no campinho que passávamos a maior parte de nosso tempo brincando.

Pois bem, quando não estávamos jogando bola ou brincando de baleba ou brincando de pique - esconde entre as catacumbas que existiam próximo ao campinho (o local era o antigo cemitério da cidade), encontrávamos brincando de carrinho de mão. Na parede do barranco construíamos verdadeiras auto-estradas e obras de arte como viadutos, túneis, pontes e, até mesmo, trevos. Passávamos horas viajando em nossa imaginação por aqueles caminhos cheios de curvas e pirambeiras ( era como chamávamos os desfiladeiros ).

Por volta dos anos 1965/67, nós já estávamos em idade escolar e, praticamente, todos estudávamos no Grupo Escolar Manoel Franco. Molecada de seus 6, 7 e 8 anos de idade que, agora se encontrando todos os dias na escola, trocavam novas idéias e conheciam novas brincadeiras. E uma dessas novas brincadeiras que surgiram foi o jogo Forte Apache.

Os irmãos Carlos e Edson Lobo, filhos do José D'Ávila, possuíam um Forte Apache. Outro que também possuía um Forte Apache era o Djalma Lahud ou Djalminha, filho do Tunico. Como toda novidade, aquele jogo virou febre entre nós. Quando não íamos brincar na casa do Carlos e Edson Lobo, estávamos brincando na casa do Djalminha.

Vou fazer um parêntesis aqui para explicar que Djalminha e Piriquito são a mesma pessoa. Naquele tempo chamávamos o Djalma de Djalminha. Piriquito era só para os adultos, principalmente Crissaff, Tião Machado e o Carioca.

Muito bem, num belo dia fomos brincar de Forte Apache na casa do Djalminha. Estávamos em 6 colegas ( Djalminha, Edson Lobo, Renato Abusado, Saragaia, Cosminho e eu ) e começamos a montar o Forte e a escolher quem seria o que no jogo. O jogo era uma brincadeira de estratégia, que consistia em ver quem montaria a melhor para invadir o Forte ( no caso, os índios ) ou evitar que o Forte fosse invadido ( no caso, o exército confederado americano ). Mas tinha um problema sério na hora de escolher as funções de cada um. Ninguém queria ser índio, principalmente quando a brincadeira era realizada na casa do Djalminha.

Desde aquela época, Djalminha já tinha mania de ser Marechal, Comandante em Chefe, Capitão da Guarda, Xerife, Coronel, General e demais patentes que conferisse autoridade máxima. E aqui para nós, o Djalminha gostava de dar tiro naqueles índios americanos, não importando se fosse das tribos Sioux, Apache, Pele Vermelha ou Moicanos. Dessa forma, quem fosse sorteado para incorporar os índios, sabia que teria vida curta na brincadeira.

Existiam regras para brincar o jogo, e uma delas era que, para além de uma distância de um palmo, os tiros e as flechadas não atingiriam os oponentes. Mas com o Djalminha comandando o Forte, existia sempre uma arma nova que, por exemplo, tinha o poder de atingir o alvo além da distância de um palmo. Antes de começar o jogo, ninguém sabia da existência dessa arma, até que o Djalminha, após matar um índio desavisado, explica que é um rifle novo do exército americano e que atingia o alvo a um palmo e meio de distância. Fazer o que? Não adiantava discutir, pois estávamos na casa dele, o comandante do Forte era ele e o brinquedo era dele. Mas, para amenizar a situação, Djalminha avisava que, caso algum soldado do Forte fosse capturado pelos índios, a arma que se encontrava com o soldado poderia ser considerada de grande alcance, também.

Mas era tudo conversa fiada. Na verdade, qualquer índio que se atrevesse a chegar próximo do Forte, era recebido com uma saraivada de tiros, deixando o Forte totalmente molhado, devido às gotas de saliva que saiam de nossas bocas. Era a imitação que fazíamos, quase perfeita, do som produzido pelos disparos das balas cuspidas pelos nossos rifles e revólveres. O rifle do Djalminha mais parecia uma metralhadora.

Nisso que estávamos organizando para iniciarmos a brincadeira, chega para incorporar ao grupo o nosso colega Carlinhos Crissaff ou Caçapa. Chega cheio de sorrisos e trazendo uma caixa de sapato debaixo do braço. Avisa que trouxe dois ajudantes e que queria ser índio. Aquela soberba toda deixou o Djalminha meio cabreiro e com mais vontade ainda de exterminar todos os índios, o mais rapidamente possível. Que coragem era aquela de escolher ser índio? Que ajudantes eram aqueles que Caçapa havia trazido, que o deixava tão seguro de si? Essas e outras perguntas passavam pela cabeça de todos ali.

Caçapa abriu a tampa da caixa de sapato e tirou dois personagens montados em cavalos. Sobre o cavalo branco, um Zorro todo paramentado, com máscara sobre os olhos, chapéu, espada e capa. No outro cavalo, rajado, estava o Tonto, fiel escudeiro do Zorro, com somente uma máscara sobre os olhos. Djalminha, num acesso de autoritarismo militar, arranca o Zorro e o Tonto das mãos do Caçapa e joga os dois personagens de volta para a caixa de sapato e, em seguida, num ato de benevolência, devolve os cavalos. Diz que se quiser brincar é só com os cavalos, nem a espada poderia ser utilizada, uma vez que índio não sabia manejar aquele tipo de arma. Caçapa não se deu por vencido. Aceitou perder os ajudantes, pois queria mesmo era ser índio. A irritação do Djalminha era visível com aquela afronta aos bravos soldados do Forte.

Começou a brincadeira e Caçapa, conhecendo os truques do Djalminha, passava com os índios longe do Forte, bem mais que a distância de dois palmos. Dessa maneira não dava para o pessoal do Forte matar nenhum índio. Numa das incursões dos indígenas ao Forte, por um descuido dos sentinelas postados nas torres de observação, um dos soldados foi capturado. Caçapa volta para o seu posto e, triunfante, ergue o corpo do soldado em direção ao Forte. Para completar a humilhação a que todos no Forte estavam sendo submetidos, o índio Caçapa faz gestos como se estivesse tirando o escalpo do soldado capturado. Djalminha, já espumando de tanta raiva, ordena que todos no Forte apontem suas armas para aquele índio desgraçado e mandem bala. Foi uma cuspição dos diabos, praticamente o Forte ficou ilhado. Mas não adiantou nada, os indígenas se encontravam a mais de dois palmos de distância do Forte e não havia como atingi-los.

Não havia outra solução a ser tomada que não fosse propor o término do jogo. Esse era o entendimento do Djalminha, com o qual não compactuava o Caçapa. Afinal de contas ele, Caçapa, havia capturado um soldado e não tinha sofrido nenhuma baixa entre os índios. Djalminha contra - argumentava que os índios também não tinham invadido o Forte, sendo assim, a melhor solução seria o empate. Depois de algumas discussões, Caçapa aceita o empate, mas avisa que ganhou a batalha.

Aquele empate com gosto de derrota deixou o Djalminha transtornado. Na nossa saída da casa, Djalminha, já arquitetando alguma para cima do Caçapa, pergunta quem quer brincar de outro jogo. Todos nós dissemos que sim, inclusive o Caçapa. Agora incorporando o cabo Rusty ( acho que essa foi a menor patente já utilizada pelo Djalminha ), Djalminha faz do Caçapa o cachorro RIN TIN TIN, e ordena que o cachorro vá atacar os índios Touro Sentado ( Tunico ), Cambaxirra ( Carioca ), Cabrito Saltitante ( Tião Machado ) e Urubu Depenado ( Padre Amando ), que se encontravam conversando na esquina da ladeira da Dona Dulce. Protestando muito, Caçapa Rin Tin Tin parte para cima dos ..............

Bem, até o parágrafo anterior, vocês não conheciam essa história. Daqui para frente, ou seja, o resto da história, já foi muito bem contada pelo Piriquito, em uma de suas crônicas datada de 27/06/03, na qual ele perdoa o Caçapa por todas as maldades praticadas.

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

 

 


 

 

 

 

 

 

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