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O
menino da porteira.
Plagiando
o grande escritor colombiano Gabriel García Márquez,
podemos dizer que "A vida não é a que a
gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para
contá-la."
Às
6 horas da manhã, o frio era de cortar os ossos, o sol
era ainda tímido e a nossa casa ficava encoberta pela sombra
da mata que havia do outro lado da estrada de Calçado a
Bom Jesus. Somente lá pelas 7 horas é que se iluminava
e esquentava a casa e as redondezas.
O
cheiro gostoso do café que a Lica passava no coador de
pano se espalhava por toda a casa anunciando que era hora de levantar.
A Lica era uma negra bonita, filha de um casal de antigos colonos
dos tempos de meus avós, tinha uma bunda grande e muito
bem formada. Eu vivia dizendo que ela dava "garupa".
Foi a primeira paixão de minha vida, mas logo foi para
o Rio de Janeiro. Só voltei a vê-la uma vez, dez
anos mais tarde, mas a vida dura havia lhe tirado muito de sua
inocência e encanto.
A
minha obrigação, logo ao levantar, era tratar dos
porcos. Pegava a lata de sobras de comida que ficava em cima de
um grande mesa na varanda da cozinha, misturava o fubá
fazendo uma massa fedorenta que levava para o chiqueiro. Vez ou
outra, pisava descalço em uma merda mole de galinha, que
penetrava entre os dedos dando o maior trabalho para limpar.
Às
7 horas, estava na "Escola Singular da Fazenda Velha"
onde estudei até a terceira série primária,
tendo como professora a Maria Olinda. Dos colegas lembro-me de
alguns: Zé da Neném, Getúlio e Luiz, filhos
de meeiros do meu pai, e uma menina, cujo nome não lembro,
vinha lá das bandas da fábrica de telhas do Antônio
Borges. Nesta época, as quatro séries do primário
estudavam juntas, numa mesma sala, não sei como a professora
conseguia "ensinar" a todos, realmente era um proeza.
Após
o almoço, lá pelas onze horas, eu me sentava no
muro da varanda e ficava à espreita de alguns carros, que
passavam em frente a nossa casa, indo ou vindo, da direção
da Fazenda da Segunda. Quase em frente à casa havia uma
porteira que estava sempre fechada para impedir que o gado se
espalhasse pelas redondezas. Essa porteira era minha fonte de
renda. Ao escutar o barulho de um carro, saía correndo
para abrir a porteira, na esperança de que algum motorista
jogasse uma moeda em agradecimento a aquela ajuda. Quase sempre
os motoristas nem ligavam. Uma das exceções era
o João Marques, irmão do Tião Marques. A
sua propriedade rural era perto da Usina São José
e, sempre que passava pela porteira, gentilmente agradecia jogando
uma moeda, que eu pegava e corria todo feliz para mostrar ao primeiro
que encontrasse o pagamento pelo fruto do meu trabalho.
Na
profissão de "abridor de porteira", o que mais
me dava satisfação era quando o meu tio Aristides,
o médico da região, atendia algum doente lá
pelas bandas da Segunda, Ponte do Sossego, Bem Posta etc, . Ele
vinha no seu "Jeep 1954 com capota de aço" e
me chamava para ir junto abrindo as porteiras. O bom era que só
abria aquelas em sentido contrário, pois as de mesmo sentido
ele empurrava com o pára-choque do Jeep.
O
tio Aristides foi um dos homens que mais admirei na vida, não
pelas suas atuações políticas, mas pela sua
grandeza como ser humano, que tive o privilégio de conhecer
na intimidade. Foi também o "pior" motorista
que conheci até hoje. Quando saímos pelas roças,
para atender aos doentes, ele "dirigia", cantando e
mordendo a língua, naquelas estradas estreitas e cheias
de precipícios, e felizmente saíamos ilesos. Penso
que não morreu num acidente de carro porque a sua missão
na terra era muito importante e Deus dirigiu junto com ele durante
toda a sua vida.
O
pagamento pelo trabalho de abrir porteiras para o Jeep não
era em dinheiro, mas sim deixar que eu, sentado em seu colo, conduzisse
o Jeep somente pelo volante, sendo que o controle dos pedais e
das marchas ficava por sua conta. Sem falsa modéstia, era
mais seguro, eu na direção, do que ele.
Quando
o Sol se punha por detrás do prédio da Usina São
José e as sombras da noite cobriam nossa casa, eu me recolhia,
como fazem os animais na natureza, para sonhar como seria o Hoje.
O
tempo passou, saudades, saudades .... .
Oscar
Rezende
roscar@uol.com.br

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