|

A nossa primeira vez
Corria
a década de 60.
José Humberto - cabrito - era na época
o que se podia dizer, o meu melhor amigo, éramos primos
e tínhamos exatamente a mesma idade.
Adolescentes, tínhamos as melhores cabeças, ideais
íntegros, reformistas do mundo... Típico pois.
Já dávamos duro, eu em Vitória
e ele lá em Calçado, parte ativa que éramos
nas atividades para o sustento familiar.
Não revelávamos para ninguém, tampouco um
para o outro, éramos super introvertidos e tímidos
em que pesasse parecer o contrário.
Ele, na época me parecia muito popular e querido, gracejava
com todos e de tudo.
Não havia uma pessoa sequer que passasse
pelo estabelecimento comercial de sua família que não
ouvisse em cumprimento ou um gracejo, enfim, disfarçava
e muito bem, sua timidez.
Eu lhe tinha uma inveja de machucar.
De outra forma, confidenciára-me anos
mais tarde, o mesmo sentimento ele nutria por mim, seu primo esperto
e experiente que morava na capital do Estado, e que tinha tudo
aquilo que a cidade do interior lhe negara, inclusive, e principalmente,
no que se referia ao relacionamento com o belo sexo.
De tal forma, eu me transformara para ele no
líder experiente, perfeito, e vice versa, sem que cada
um soubesse da fraqueza do outro. Resultado: éramos confidentes
e conselheiros mútuos - imaginem.
Outra característica do Zé Humberto era que, sempre
tinha os seus segredos sussurrados ao pé do ouvido, histórias
incríveis, planos miraculosos, dos quais eu nada entendia,
dada a dificuldade que tenho de compreender aquilo que não
me é dito em tom alto e que eu não esteja olhando
diretamente para o meu interlocutor.
Mas como não podia dar uma de bobo, com
tudo concordava ou ria, isso de acordo com o momento e de minha
percepção do caso.
Nós nos entendíamos e dávamos os nossos "pulos
de gato". E assim, em minhas férias, íamos
em excursões para os arredores de Calçado, onde
os saíamos razoavelmente bem, isso, para não confessar,
muito mal.
Lógico, cada um arranjava logo uma desculpa que queríamos
e acreditávamos verídica.
Corria o tempo e acumulávamos fracassos
em nossas conquistas amorosas.
De certa feita porém, ao cair da tarde,
sentados num dos bancos da Pça. Pedro Vieira, planejamos
toda uma noitada de conquistas que haveria de ser um sucesso total.
Discutimos tudo minuciosamente, e até,
acreditem, ensaiamos nossas falas para com as conquistadas. Anoitecera,
banho tomado, roupa de domingo vestida, na hora aprazada lá
estávamos para seguir para o "campo de batalha",
o aéreo clube em Bom Jesus.
-Ô Cabrito, ta meio cedo ainda, vamos
tomar uma cerveja até chegar a hora.
Proposta feita e aceita imediatamente.
Primeiro boteco, cerveja em pé ali mesmo
no balcão.
Conta: uma cerveja e duas cachaças.
Fiquei calado, não podia gritar, o ambiente
não me era familiar e o cabrito disse logo, anota.
Segundo e terceiro boteco, a conta fora exatamente
a mesma: duas cachaças e uma cerveja.
Aí eu gritei: "tamo sendo roubado!".
Ao que o cabrito retrucou, "tamo nada, a pinga eu bebi e
anotado em buteco num se paga".
Continuamos a nossa peregrinação
pelos butequins de Calçado, agora sim uma dose de cachaça
para cada um e a cerveja.
Bem... as meninas de Bom Jesus estão esperando até
hoje para serem conquistadas pelos dois experientes e extrovertidos
galanteadores de Calçado.
Aquela noite fora nossa primeira vez, não
de intimidades com o belo sexo, mas com a "mardita"
que nos deixou de fogo.
Fernando Castro

|