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O AUTO DE DEDÉ
Os
meios de transporte têm evoluído na tecnologia e
no conforto. Estas máquinas transportadoras de pessoas
e coisas modernizaram-se neste século em que vivemos e
com certeza continuarão aperfeiçoando-se no amanhã.
Os Automóveis vieram para substituir
as carruagens, que no princípio chegaram a competir, entretanto
a velocidade em que os motores desenvolveram sua performance nos
variados sentidos, distanciaram-se das carruagens num passo de
magica.
Nos anos cinqüenta, o Brasil interligava-se
por um veículo de passageiro bastante popular, movido a
gasolina, cuja frente projetada e bicuda ocupava o motor. O "choufeur"
ficava ao lado da porta, onde controlava a chegada e saída
dos passageiros. O bagageiro localizava-se em cima do teto, tendo
acesso por uma escada na parte traseira do ônibus. Os bancos
eram pequenos e apertados sacrificando as pessoas de estaturas
altas na acomodação das pernas. A distância
do assoalho ao teto também não apresentava altura
suficientemente confortável.
Estes veículos eram chamados no Rio de
Janeiro, naquela época, de lotação. Apesar
do nome, não tinham capacidade para muitos passageiros.
Uma vez preenchida a lotação dos sentados, não
permitiam levar passageiros em pé, devido a pouca altura
e o estreito corredor.
No interior, devido a precariedade das estradas, sem terraplanagem,
asfalto e conservação mínima do governo,
as dificuldades enfrentadas eram realmente assustadoras.
Naquela época havia uma linha de ônibus,
que ligava Bom Jesus à Cachoeiro de itapemirim, passando
por São José do Calçado, São Benedito,
Conceição de Muqui e Muqui.
Este Auto ( nome popular do ônibus) saía
às 6:00hs da manhã e regressava aproximadamente
às 18:00hs, isto quando tudo corria dentro do previsto.
O itinerário montanhoso, com incalculáveis serras
e perambeiras, faziam parte desta rotina sobre rodas. Em época
de chuvas a corrente fazia parte integral do veículo, para
romper os atoleiros e subir as serras derrapantes. Apesar da velocidade
baixa, as pessoas sentiam tanto medo, que rezavam vários
terços durante esta peregrinação automobilística.
Quando não eram os barros e buracos em abundância,
sacudindo e dançando o veículo, era a poeira que
penetrava por toda a cabine, maquiando até as sobrancelhas
dos passageiros.
O cheiro de gasolina provocava um mal-estar,
embrulhando o estômago e expelindo vômitos que eram
lançados pela janela abaixo, deixando o lado do ônibus
todo lambuzado.
A poltrona da frente era disputada, porque ficava
em frente à porta e
consequentemente recebia mais vento, evitando o cheiro de gasolina
que parecia acumular na parte de trás.
O motorista desta penosa linha se chamava Dedé,
que convivia nesta rotina há mais de vinte anos. Seu temperamento
era conhecido por todos, tratava-se de uma pessoa extremamente
nervosa, irrequieta, que nunca parava no ponto solicitado pelo
passageiro.
O passageiro que o estava esperando na beira
da estrada, quando acenava junto ao ponto, ele sempre passava
e só parava mais à frente. Este, com medo de perder
a condução, corria ao seu encontro. Esta tática
evitava aquelas despedidas demoradas que sempre ocorriam quando
o veículo parava. As famílias nesta hora lembravam-se
de todas as recomendações e abraçavam-se
demoradamente.
Dedé, já alguns metros distantes,
ficava em seu banco olhando impaciente para a porta com ar de
reprovação da possível demora.
Este senhor, apesar deste perfil, era o leva-e-trás-tudo
deste longo trecho intermunicipal. Levando e trazendo remédios,
cartas, embrulhos lacrados e bem recomendados, encomendas de grandes
e pequenos valores, até recado para os mais íntimos.
Neste caminho da vida sua cruz com o tempo pesava cada vez mais,
era como se tivesse cansado da estrada, dos buracos e curvas tão
conhecidas, juntamente com o desconforto e falhas mecânicas
que freqüentemente era acometido. Entretanto sua assiduidade
no cumprimento do trabalho era algo de meter inveja aos grandes
motoristas profissionais. Quando não conseguia romper a
estrada barrenta, era porque a coisa estava
realmente intransitável.
Numa destas viagens encontrava-se um caipira
muito atento e assustado. Ao entrar no Auto procurou um lugar
ao lado da janela, para poder apreciar as paisagens e não
passar do ponto que desejava descer, pois ouvia dizer que o motorista
não era fácil de tratamento e chamava atenção
por qualquer coisa.
Sentou-se e amarrou seu bornal, dando um nó
apertado no tio metálico, onde corria as duas bandas de
cortina. Como estava longe de seu destino, pôs-se a contemplar
as paisagens, deliciando sua primeira viagem. Lá pelas
tantas, aproximando de sua encruzilhada, levantou e pediu ao Dedé
para parar na dita cuja.
Como era de praxe, quando solicitado sempre
parava a alguns metros do local. Neste dia exagerou, deixando
o pobre homem preocupado e extremamente nervoso.
Dedé parou, olhando para trás
com um rosto carrancudo e impaciente enquanto a nuvem de poeira
acomodava e esperou...
O passageiro enquanto isso, tentava desatar
o nó cego da alça do bornal e olhava para ele como
se quisesse dizer com os olhos que estava tentando desatar o bornal.
Com medo se ser chamado à atenção dentro
daquele silêncio absoluto,. observado por todos os passageiros,
o caipira suava copiosamente, como se estivesse num banco de réu
esperando
sua sentença.
Cansado de tentar desamarrar o nó, com
um gesto violento, arrebentou a alça do bornal, dirigindo-se
para a porta.
Dedé, irritado pela demora, perguntou
entre os dentes: - Onde está o bilhete da pássagem?
O caipira, revirando dentro do bornal, enfiando
as mãos nos bolsos, agitado e irrequieto, não encontrou
o maldito bilhete.
O silêncio dos espectadores o atormentava
ainda mais, assim como o olhar faiscantede Dedé. Neste
vira e remexe na procura do comprovante da passagem, seu pensamento
já o condenava da vergonha de não achar o bilhete.
"As outras pessoas estarão pensando
que eu não paguei a passagem e serei chamado atenção
na presença de toda aquela gente, que vergonha"! Neste
momento não só suava como também tremia dos
pés à cabeça.
Dedé, estourando, falou alto e agressivo.
- Não precisa de papel nenhum, saia logo
que estou com pressa.
- O caipira deu pulo para fora do Auto, saindo
correndo para a encruzilhada. À proporção
que se afastava da estrada, a cor voltava ao rosto e uma sensação
de bem -estar envolvia seu corpo, na certeza de que estava perto
de casa e longe daquela terrível experiência de marinheiro
de primeira viagem.
Dedé, hoje aposentado, deve sentir falta
daquela rotina serpenteada vivida na estrada da vida, porque com
certeza a rotina da aposentadoria é mais tediosa do que
a do trabalho no dia-a-dia.
SEBASTIÃO RAULINO PEREIRA

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