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O Jeep e o João  

    Diz o ditado popular, " quando começamos a olhar mais para o passado do que para o futuro, estamos envelhecendo".

    Muitas vezes sou surpreendido com as lembranças do passado, principalmente da época que vivi em Calçado. Estas lembranças, em sua grande maioria, trazem alegria e animo para encarar o futuro com muito otimismo.

    Revirando a memória, lembrei de várias pessoas que foram importantes na minha vida quando morei em Calçado, dos 11 aos 16 anos. Sem querer atribuir maior ou menor importância aos amigos, gostaria de falar de um em especial, o primo João Bosco.

    Quando a minha família mudou-se da fazenda para a cidade, eu estava com 11 anos. As diferenças culturais entre a roça e a cidade eram grandes, e as brincadeiras da turma urbana tais como, mocinho e bandido, forte Apache, futebol de botão, colecionar figurinhas, que recebiam a influencia da televisão recém chegada, e dos filmes do Cine São José, não faziam parte do meu cotidiano. Lá na roça o mundo era outro, jogava-se bola com bexiga de porco, brincava de carro de boi feito de lata de sardinha com rodas de mexerica verde, andava de carroça puxada por bode, pegava coleiro, catatau e canário da terra, tomava banho de rio e pescava.

    Em Calçado, a nossa casa ficava próxima a dos pais do João Bosco, e logo ele assumiu a responsabilidade de me apresentar a este novo mundo, cheio de mistérios e novidades para um "bicho do mato".

    O João Bosco era um garoto vivido, sabia das coisas, conhecia a turma que era legal e também aqueles que eram carne de pescoço. Quando algum garoto da rua vinha me aporrinhar ele saía em minha defesa, e com isto foi se tornando um grande companheiro, como um irmão mais velho, e a seu lado aprendi muito da vida.

    Como não gostava muito dos estudos, a família resolveu manda-lo morar com um irmão, em Machado, uma cidade do sul de Minas, para ver se adquiria gosto pelos livros, mas não se adaptou aquela vida cheia de regras que lhe impuseram, voltando um ano depois. Foi uma alegria geral, pois durante o período em que ele passou em Machado me senti meio órfão sem sua presença.

    Das muitas coisas que fizemos juntos tenho recordações do primeiro cigarro que fumamos, se chamava "Vanguarda", do primeiro porre de conhaque Drea, (que não posso sentir o cheiro até hoje), dos passeios de bote no rio Calçado, das pescarias de bagre no corgo do Jacá, dos passeios na Morubéca, lá pelas bandas de Bonsucesso, viajávamos o dia inteiro percorrendo o vale do Jacá montado em duas velhas mulas aposentadas, por terem prestado relevantes serviços às tropas que puxavam café.

    Em nossa adolescência seu pai comprou um Jeep 52 e pediu ao Célio, o motorista de ônibus, para ensiná-lo a dirigir. Aprendeu logo no primeiro dia, tornando-se um excelente motorista.

    João Bosco escandalizava a sociedade calçadanse, tinha fama de dirigir em alta velocidade (e dirigia mesmo). Os pais não deixavam que seus filhos andassem de carro com ele, mas todos arranjavam um jeito e o Jeep estava sempre cheio.

    Andei naquele Jeep durante dois anos, e, apesar da velocidade com que ele dirigia nunca tive medo, pois além do excelente motorista que sempre foi, a adolescência nos tornara inconseqüentes.

    O Jeep fez fama em Calçado, era pau para toda obra, levava a turma para os bailes das redondezas, para a "zona" de Guaçui e de Bom Jesus, para o Cine Monte Líbano, carregava o bambu e o sapé usados na construção das barracas das festas juninas do Colégio de Calçado. Até as escadas atrás do coreto o Jeep descia, quando o João Bosco queria se exibir para alguma garota.

    Quanto as namoradas, nunca tivemos segredos um com o outro, ao contrário, fomos confidentes dos nossos sucessos e insucessos amorosos. Lembro-me de uma vez em que namoramos a mesma garota, em épocas diferentes é claro, uma linda loira de Guaçui.

    Nas "artes" da vida João Bosco me ensinou muito, mas em algumas delas, como jogar sinuca e totó, se deu mal, pois sempre fui melhor do que ele.

    Tivemos uma convivência muito boa, até que nossas vidas tomaram rumos diferentes e cada um foi cuidar do seu destino.

    Casou-se com a professora Cristina Garcia, teve filhos, que já estão praticamente criados, e hoje vive tranqüilo em Calçado numa confortável casa ao lado da esposa. Mas o seu espírito sempre jovem e dinâmico continua presente, anda de moto, cavalga e trabalha no seu sítio com a mesma determinação e bravura de quando era jovem, sempre vencendo os percalços da vida.

Oscar Rezende
Outubro de 2003
roscar@uol.com.br

 

 

 


 

 

 

 

 

 

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