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Uma Viagem de Fordeco

    Minha tia Edissé era a titular do Cartório de Registro Civil de São José do Calçado. Muitos de nós, broinhas, tivemos nosso primeiro documento - nossa Certidão de Nascimento, feito pela Tidissé ( era assim que nós, sobrinhos, a chamávamos ).

    Como oficial do Cartório, Tidissé registrava, também, as certidões de óbito e de casamento. Era comum a realização do casamento civil no próprio cartório, para os noivos que residiam fora da sede do município de Calçado. Nesses casos, era preciso chamar o senhor Nonô Abdala, Juiz de Paz da Comarca. Claro que, antes dos devidos apontamentos no livro próprio de registro, corria o prazo dos proclamas, publicados no jornal A Ordem, para divulgar as intenções dos noivos e, também, sondar se haveria alguém disposto a melar aquela união.

    No dia e hora marcados para a realização do casamento, uma pequena aglomeração de parentes e curiosos se formava ao redor do Cartório. Iniciada a cerimônia, o senhor Nonô Abdala solicitava que a oficial do Cartório, Tidissé, procedesse a leitura do livro de registro de casamento. Em seguida fazia uso da palavra o próprio Juiz de Paz, solicitando a quem ali estivesse presente naquela cerimônia, que se pronunciasse caso houvesse alguma informação que depusesse contra a união do casal. Caso ninguém se manifestasse, Tidissé solicitava aos noivos que assinassem o livro e, em seguida, as testemunhas também assinavam. Após as assinaturas, os noivos eram declarados marido e mulher e recebiam a Certidão de Casamento. Dessa forma estava encerrada a cerimônia.

    Mas o casal precisava de uma condução para ir para a casa. Aí entra o Fordeco do Tio Manoel França. Geralmente quem utilizava o cartório para realizar a cerimônia do casamento civil, morava nas sedes dos distritos do município ou, então, nas fazendas. Invariavelmente era o carro de meu tio Manoel França que fazia o serviço de levar os nubentes para casa. Um Ford 1929 que vivia brilhando e que, também, vivia dando trabalho. Timanéo ( era como nós o chamávamos ), conhecia todas as peças e manias do Fordeco, por isso sabia tudo que podia acontecer e que, invariavelmente, aconteciam durante uma viagem com o seu Fordeco.

    Terminada a cerimônia do casamento civil, os pombinhos querem mais é chegar o mais rápido possível em casa. Com o Fordeco brilhando ali na frente deles, uma tática infalível que o Timanéo empregava, era só combinar o preço e subir no carro.

    Ao término de um desses casamentos, com o preço da corrida já combinado, Timanéo e eu, como seu ajudante de motorista, nos acomodamos no assento da frente do Fordeco. Os noivos estavam bem acomodados na poltrona de trás. Timanéo ligou a chave da ignição e ficou pensando por alguns segundos. Pediu que eu descesse e fosse buscar 3 ovos. Tidissé pergunta para que os ovos, mas Timanéo não dá muita conversa e diz que é por precaução. Peguei os ovos, entrei no Fordeco e fomos embora.

    Perguntei para Timanéo onde estávamos indo. Segundo ele, iríamos para Biscoito Duro, perto de Tábua Lascada. Acho que o casal captou alguma maledicência nos nomes dos locais para onde iríamos, pois se puseram a rir muito e o Timanéo, mais ainda. Eu dei um sorriso, mas não entendi nada, pois já conhecia essa mania do Timanéo de inventar nomes de pessoas e lugares.

    Acabamos de sair da cidade e entramos numa estrada estreita, de chão batido. Se eu não estou enganado, estávamos indo para uma fazenda em São Benedito. Começaram a aparecer porteiras para serem abertas. Pude, então, perceber uma das finalidades do ajudante do motorista - abrir e fechar as porteiras. Outra finalidade, a qual estava ligada diretamente à primeira, era para não precisar dar gorjeta aos meninos das porteiras. Depois de muito sobe e desce e de várias porteiras abertas e fechadas, chegamos ao local onde fora combinado que os noivos ficariam.

    Feito o pagamento da corrida, nos despedimos do casal e tomamos rumo de volta para casa. Recomeça tudo de novo. Abre a porteira, passa o carro, fecha a porteira e começamos a subir e descer aquela estrada de chão, esburacada e poeirenta. Começa, também, o repertório de xingamentos do Timanéo:

    "- Será que essa Chiquinha C... de Brinco não tinha um lugar mais perto para morar, não ? Essa buraqueira desgraçada vai acabar com as barras de suspensão do carro. Ah estradinha f.d.p , da próxima vez vou indicar o Sodré ( que tinha o apelido de Caveira ) para fazer esse serviço. Pior é que vou chegar em casa e ainda vou ter que levar as minhas meninas ( as filhas do Timanéo ) para assistir filme em Bom Jesus. Esse carro não agüenta tanto esforço !. Já falei para Edissé, mas ela não me ouve. Acha que é só colocar gasolina e andar. Na hora que vierem pedir para dar uma voltinha de carro, vou mandar todo mundo chupar prego. E etc, etc. etc.........".

    Nisso, começou a sair uma fumacinha na tampa do radiador do Fordeco e um barulho como se fosse de uma panela de pressão.

    "- Ah Fordeco desgraçado, isso são horas para começar a esquentar? Desce e vai ver se está pingando água embaixo do carro".

    Desci e fui ver. Disse que estava pingando muito na frente do carro.

    "- Só faltava essa, agora. Essa estrada cheia de pedras furou o filho de uma égua do radiador. O motor está esquentando e a água evaporando"

    Timanéo desligou o motor do Fordeco e esperamos que o radiador esfriasse para retirarmos a tampa. Uma parte da água havia vazado, a outra, evaporado. Por sorte havia um riacho próximo à estrada, mas tinha que descer um bom trecho de morro para chegar até ele. Desci com uma vasilha e a enchi d'água, conforme recomendação do Timanéo. Esperamos mais um tempo para deixar o motor esfriar também. Foi, então, dado início os procedimentos para conserto do carro.

    "- Onde estão os ovos ? Pegue um e vá para frente do carro e fique próximo ao radiador. Quando eu ligar o motor, você abre a tampa do radiador, quebra um ovo e joga lá dentro ".

    Fiz o que foi pedido. O motor foi ligado e eu quebrei a casca do ovo e joguei a clara e a gema para dentro do radiador e enrosquei a tampa. E nada de a água parar de vazar no radiador.

"- Abra a tampa e jogue outro desgraçado desse ovo." Pediu Timanéo, já xingando a galinha de tudo quanto era nome, por ter feito um ovo tão pequeno.

    Joguei o segundo ovo e nada de parar o vazamento. Se bem que, agora, o vazamento estava bem menor mas, mesmo assim, não dava para prosseguir viagem.

    "- Jogue esse f.d.p. desse terceiro ovo dentro do radiador. Ah galinha caipira desgraçada, não serve nem para botar ovo direito, uns merda de ovinho desse tamanho. Vou falar para Edissé para não comprar mais ovo na venda do Geraldo Ribeiro. É um absurdo vender uns ovos tão pequenos. Deve ser ovo da galinha garnizé ."

    Joguei o terceiro e último ovo. Passaram-se alguns poucos segundo e o vazamento parou por completo. Falei para o Timanéo que tinha parado de vazar água. Ele deu aquele sorriso de quem sabia das coisas e pediu que eu entrasse no carro.

    "- Esse Fordeco é o carro que tem a melhor mecânica que eu já vi até hoje. O problema era que o furo no radiador devia ser muito grande. Acho até que os ovos tinham um bom tamanho. O pior é que vou ter que comprar mais 3 ovos para repor esses, senão a Edissé vai falar uma semana no meu ouvido".

    Fomos embora e chegamos em Calçado um pouquinho depois da hora do almoço. O radiador do Fordeco mais parecia uma omelete gigante. No outro dia deu um trabalhão para desmontar o radiador, fazer a limpeza, soldar o furo e recolocar o radiador no lugar. E o velho Fordeco estava pronto para novas aventuras

Tio Manoel França sabia das coisas !

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

 

 


 

 

 

 

 

 

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