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A
MURIÇOCA E O PESCADOR
Estava uma tarde de sol daquelas bem modorrentas, ninguém
aparecia alí naquela curva onde o rio fazia um remanso
gostoso. Vez ou outra aparecia uma viuvinha que, em vôo
rasante, molhava o bico e matava a sede. Havia, também,
um pica-fumo que, acredito eu, tirou o dia para vôos curtos
do galho de uma goiabeira até um tronco semi-submerso,
às margens do rio.
Também,
pudera, quem em plena terça-feira, no período escolar,
haveria de estar alí no rio a fazer marolas e à
mercê de vários insetos picantes? Ninguém
haveria de aparecer mesmo..., êpa, vém vindo um incauto!
Quem haveria de ser à aquela hora do dia, a tirar o sossego
da natureza?
Martins,
já aposentado pelo antigo Funrural, gostava de uma pescaria
no rio. Não importava se o peixe era grande ou pequeno,
o bom da pescaria era a disputa para ver quem seria o mais esperto.
Martins pescava por prazer, quase um vício. Todo final
de tarde, por volta das 16 horas, passava a mão numa enxada,
que ficava atrás da porta da despensa, descia uma escada
até o quintal, desenterrava uma dúzia de minhocas
e jogava dentro de uma latinha de Leite Moça, juntamente
com um pouco daquele húmus que servia de habitat às
minhocas. Voltava para dentro de casa, passava a mão no
embornal e nas 3 varas de pescar e saia para mais um dia de pescaria.
Neste
dia Martins resolveu fazer sua pescaria num local que há
muito não frenqüentava, num remanso do rio onde as
márgens eram enfeitadas de goiabeiras e um pé de
jambo. Foi neste instante que a Muriçoca ouviu os passos
de alguém chegando e fazendo crepitar os pequenos galhos
secos das goiabeiras, caidos ao chão.
Martins
escolhera ficar sob uma goiabeira bem frondosa, porém sem
frutos, e que ficava ao lado do pé de jambo, onde estava
a Muriçoca. Tirou o embornal do ombro e pendurou-o numa
ponta de galho quebrado, no tronco da goiabeira. Preparou as varas
de pescar e se ajeitou bem entre duas raizes da goiabeira, que
estavam salientes no chão. Abriu a lata usada de Leite
Moça e pegou uma minhoca bem graúda. Limpou o húmus
que veio grudado nela e a dividiu em 3 partes iguais. Voltou com
os dois pedaços para dentro da lata e com o terceiro pedaço,
enroscou-o no anzol para pescar piau.
De
longe a Muriçoca só via aquele movimento contínuo
e harmonioso do Martins se preparando para lançar n´água
a minhoca esquartejada. Que ousadia desse pescador quebrar a harmonia
desse recanto paradisíaco, pensou a Muriçoca e,
ato contínuo, iniciou a elaboração de um
plano de ataque ao intruso.
Como
todo bom pescador de beira de rio, Martins se protegia da picada
dos insetos usando botas, calça e camisa compridas e de
tecido grosso, um chapéu e um frasco de repelente para
passar no rosto e nas mãos. Muriçoca resolveu, então,
chegar mais perto do intruso para planejar melhor o ataque. Saiu
do galho do pé de jambo e, num vôo rasante e zunindo,
aterrizou num galho liso da goiabeira que dava abrigo ao pescador
Martins. A posição do galho escolhido era excelente,
pois dava para ver toda a movimentação do pescador.
Após alguns minutos observando o pescador e de alguns vôos
de reconhecimento ao redor da vítima, Muriçoca chegou
a algumas conclusões. A primeira era de que seria difícil
ou mesmo impossível, aplicar qualquer picada na pele do
pescador, pois as roupas que usava era de um tecido grosso e,
por conseguinte, havia restrições técnicas
ao seu aparelho de perfuração cutânea. Em
segundo lugar, num dos vôos de reconhecimento realizados,
seus sentidos detectaram um leve aroma de uma substância
repelente de inseto, o que lhe havia causado um certo mal estar
e, por que não dizer, uma certa tonteira. Foi até
difícil o vôo de retorno para o galho. Por último,
havia o problema de calcular o tempo máximo de exposição
à ação química do repelente.
Muriçoca
já estava perdendo as esperanças de desfechar um
ataque de pleno sucesso e, o que era pior, todo aquele preparativo
para chegar mais próximo do pescador a deixara fraca e
com fome. Como um inseto hematófago que era e parente bem
próximo do pernilongo, a Muriçoca possuia um potente
e eficiente sistema de perfuração, sucção
e armazenagem de sangue em seu minúsculo corpo. Contudo,
seu organismo necessitava de muito sangue para fazer o sistema
funcionar perfeitamente e também para ser uma boa genitora.
Não
havia tempo a perder. Ou a Muriçoca planejava rápido
um plano de ataque e o executava ou, então, a natureza
se incumbiria de fazer a seleção natural da espécie.
Muriçoca estava matutando um plano meio suicida quando,
como que por um milagre da natureza, uma lufada de ar morno arremessa
o chapéu que Martins usava, depositando-o no chão
a uns poucos metros de distância de onde se encontrava o
pescador.
-
Eu não acredito no que estou vendo ! Exclamou a Muriçoca,
não se contendo de tanta alegria.
A razão de tanta euforia era porque Martins era careca.
E a careca era lisinha, do tipo que chamam popularmente de tobogã
de mosquito. Rápidamente Muriçoca refez seu plano
de ataque. O plano agora consistiria num vôo rasante saindo
do galho da goiabeira até o cucuruco da careca. A cabeça
humana é um local que circula muito sangue e cheia de pequenos
vasos sangüíneos. Mas tinha um porém, com a
perda dos cabelos, o couro cabeludo ficava mais ressecado, o que
demandaria um tempo maior no trabalho de perfuração
e, conseqüentemente, de toda a operação. Não
poderia esquecer que o tempo era um dado importante na operação,
visto que Martins havia passado repelente no rosto e a exposição
ao cheiro do repelente era mortal para a Muriçoca.
Com
o pensamento a todo vapor, Muriçoca decide, então,
fazer da careca do Martins um ponto somente de apoio. Dalí
ela voaria até a orelha direita do pescador, que apresentava
os pêlos mais bem aparados que os da esquerda. Todavia,
também na orelha havia um problema a ser resolvido. Quem
vê uma muriçoca voar não ouve o zunido produzido
por suas asas, que batem com uma frequência muito grande,
como as dos seus parentes mais próximos, os pernilongos.
Entretanto, ao voar próximo dos ouvidos, estes se transformam
numa caixa de ressonância, fazendo com que os zuninos se
repitam indefinidamente, produzindo um barulhinho irritante, o
que leva a vítima a armar seu contra-ataque.
Com
o pensamento em ebulição, Muriçoca resolve
que o vôo da careca até a orelha será um vôo
planador, ou seja, sem bater asas nas proximidades da orelha.
Havia uma diferença de altura razoável entre o cucuruco
da cabeça e a ponta superior da orelha. Chegando na parte
superior da orelha, o local escolhido para fazer a perfuração
era a aba superior que, tal como uma marquize, protegia o ouvido
das intempéries. O local escolhido também era rico
em minúculos vasos sanguíneos e a pele bem macia.
Mas,
como em todo plano, há o imponderável. Quem poderia
garantir que o senhor Martins, quando criança, não
foi um menino levado na escola? E em sendo levado, quantos puxões
e beliscões na orelha não haveria de ter levado
da professora brava? Podia ser que aquela orelha escolhida já
estava calejada demais e ai, neste caso, adeus pele macia.
Havia
dúvidas também quanto às condições
do tempo na segunda parte do ataque. Como seria executado em vôo
planador, uma lufada mais forte de vento e a rota estaria perdida.
Nada de pensamento negativo numa hora dessas. Ninguém merece!
O plano estava traçado e seria posto em prática
já. Muriçoca partiu para o ataque num vôo
rasante. Chegou por sobre a careca do Martins em questão
de segundo. Sobrevoou o local e, qual um helicóptero, pousou
suavemente. Martins nem esboçou uma reaçãozinha
sequer. Um pouso perfeito!.
Da
careca do Martins até a ponta da orelha direita, a distância
é pequena, porém, a duração do vôo
foi maior, devido ao vôo ser do tipo planador. Por sorte,
ao alçar vôo da careca para a orelha, uma pequena
brisa que estava soprando, cessou por completo. O plano estava
sendo executado na risca e sem grandes atropelos. Aterrizagem
na orelha não foi uma maravilha como tinha sido na careca.
Também, pudera, sem poder bater as asas na frequência
ideal, o pouso foi com o de um teco-teco em pista de chão
batido. Martins deu uma balançada com a cabeça como
que espantando qualquer coisa da orelha, mas a Muriçoca
ficou estática. Ufa! Que susto!
Imediatamente a Muriçoca posicionou suas pernas, de forma
a estabilizar todo o corpo e obter um ângulo perfeito para
fazer a perfuração. Estabilizado o corpo, cravou
a haste perfuradora sem dó nem piedade e começou
a sucção. Como suas parentes mais próximas,
os pernilongos fêmeas, as muriçocas fêmeas
são as responsáveis pelas picadas. Os machos não
enfrentam esses perigos, sua função é mais
nobre, ou seja, perpetuar a espécie, fecundando o maior
número possível de fêmeas. Que dureza!
A
Muriçoca já estava com o reservatório sangüineo
quase cheio, mas faltava ainda uma maldadezinha. Antes de retirar
a haste perfuradora, era costume da espécie depositar as
fezes ao redor do buraco feito na pele e, até mesmo, misturada
com saliva. Além disso, a medida que a haste perfuradora
era recolhida, ia sendo injetada uma toxina no orifício.
Essa tóxina provocava uma reação alérgica,
a tal coceira, que muito irritava os humanos.
A
haste mal acabou de ser recolhida e a Muriçoca já
estava batento suas asas a todo vapor, a caminho do galho da goiabeira.
-
Zuuumm, Paft! A mão do pescador encontrou a orelha direita
e, qual o efeito daquela brincadeira de telefone, o ouvido era
um zun-zun-zun só. O deslocamento de ar provocado pelo
movimento do braço e da mão, formou uma corrente
de ar que atingiu a Muriçoca pela popa, causando uma certa
turbulência no seu vôo, mas até que ajudou
a chegar mais rápido no galho.
-
Ah pernilongo desgraçado! Filho de uma égua! Vai
atazanar uma pernilonga vadia que tem aos monte aqui na beirada
do rio! Praguejou o pescador, mostrando todo o seu desconhecimento
zoológico. Ainda por cima, acabara de perder um belo piau
-
Vou voltar lá naquele grosso! Ele vai ver com quantos ml
de sangue se faz uma muriçoca! Pernilongo são todos
da família dele! Vadia é a p.q.p! Esbravejou a Muriçoca.
-
Calma minha Muriçoquinha de sangue bom! Essa irritação
do pescador é normal. Aquela toxina que vocês injetam
dá uma coceira danada! O sanguinho bom num acha que seria
querer demais que o pescador a chamasse de muriçoca? Afinal
suas primas pernilongos são muito mais famosas. Eu, por
exemplo, nem ligo quando meus primos pernilongos, numa roda de
bate papo, se vangloriam dizendo que os humanos, numa brincadeira
de jogo de palavras, lhes chamam de pênislongos.
-
Descanse um pouco! Depois vamos para o meu galho. Afinal temos
que perpetuar a espécie!
-
Zun-zun, zuin-zuin, Ah! Oh! Zuuuuuunnnnnnnn..................
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE( Juquita )
calcadense@bol.com.br

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