|

DAS DIFICULDADES DE SER SANTO
Pode
ter sido em 1951, mas acho mais provável que o ano seja
o de 1952. A Congregação Mariana tinha sido fundada
recentemente pelo Padre Francisco, com grande pompa e entusiasmo,
ativa participação de toda a rapaziada. Fita azul
no pescoço, missas, ladainhas, reuniões, pregações,
cantoria, coros, confissões, comunhões, horas santas,
todos compenetrados da nova condição de exemplo
de honestidade, de irmandade, de camaradagem e de dedicação
à Igreja. Orgulhosos e exibidos, fazíamos questão
de demonstrar nossa fé e nossa condição de
congregado, seguidores de Maria, a mãe de Jesus.
Festas de carnaval. O padre Francisco trouxe um padre do Colégio
Saleziano de Vitória para pregar no nosso retiro. Não
estou certo se era padre ou monsenhor, igualmente não me
lembro do nome, mas lembro perfeitamente de sua eficiente atuação.
Religioso tranqüilo e maduro, soube nos influenciar, nos
acompanhou durante aqueles três dias como um companheiro
de fé, amigo, irmão mais velho que sabia das coisas.
Como parte da programação, havia as horas de meditação.
Nos colocava juntos num canto da igreja, sentados nos bancos,
ele na frente numa cadeira, de onde conversava, um papo agradável,
casos, exemplos de virtude, biografias de santos, os caminhos
da salvação. Conseguia nosso silêncio e nossa
atenção, falava macio como em tom de conversa e
nos enleava, deixando-nos leves como suspensos no ar.
Uma de suas estórias foi sobre São Luiz Gonzaga,
um jovem que a partir de certo dia tomou uma decisão radical
na vida: a partir de então não cometeria mais pecados,
não ofenderia mais a Deus. Como conseguir isso? Fácil,
observar os Dez Mandamentos e dar uma olhada nos Sete Pecados
Capitais.
Influenciado, após meditar algum tempo, resolvi que imitaria
o jovem santo, a partir de agora “também não
vou cometer mais pecados”. Claro que não cheguei
a fazer um juramento, nem uma promessa, eram compromissos sérios
demais perante o Altíssimo. Fiz apenas uma decisão
íntima, comigo mesmo, sem maiores comprometimentos, não
convinha brincar com Deus. No fundo me conhecia e tinha consciência
de minhas debilidades. De qualquer modo, resolvi que ia ser santo.
Com um pouco de sacrifício, personalidade, força
de vontade, não devia ser assim tão difícil,
chegaria lá. Entretanto, ...
Entretanto em pouco tempo vi que as coisas não eram assim
tão simples. Passados apenas alguns dias, poeira assentada,
monsenhor não mais presente, tudo voltando à vaca
fria, a seus devidos lugares, é que fui dar conta da enormidade
dos meus propósitos.
Sabemos que os tipos de pecados são três. O original,
do qual não temos responsabilidade, vem de nossa condição
de humanos, filhos de pecadores, de Adão e Eva. Felizmente,
com o sacramento do batismo, a gente se livra dele, não
implica em maiores cuidados. Depois vêm os pecados veniais,
resultam de nossas fraquezas ou falhas relativamente leves, não
chegam a comprometer muito, um bom exame de consciência,
confissão, penitência, Ato de Contrição,
Ave Marias, Padre Nossos, etc., e está resolvido. Por último
enfrentamos os pecados mortais, que podem nos levar ao inferno,
são problemáticos, temos que tomar cuidado, variam
desde pequenos atos praticados com maldade até falhas mais
sérias, atitudes de grande vilania, crimes, etc. etc..
E tem mais, os pecados não são apenas por atos,
a gente pode pecar também por palavras e pensamentos.
Meus problemas, logo, logo, se revelaram bastante sérios.
Quatorze anos de idade, faminto, guloso, preguiçoso, orgulhoso,
explodindo em hormônios, como não pecar?
Muitas as dificuldades, principalmente, não é fácil
de conter a preguiça. Como encarar, por exemplo, com cara
boa, a ordem de descascar milho velho, um balaio cheio, pó
e caruncho, coceira pelo corpo, mãos esfoladas, etc., etc.?
E depois levar a comida dos porcos até ao chiqueiro, ou
esterco para a horta enquanto os companheiros estão se
esbaldando numa pelada ali do lado? Buscar animais no pasto, com
tempo frio, bem cedinho, o capim molhado do orvalho que caiu a
noite inteira? Os pés duros como pedras de gelo.
Como ser dócil com esse pessoal mais velho, chato, que
não compreende a gente e nos azucrina a vida?
E a gula, que pode nos levar ao furto? Como se segurar com aquelas
guloseimas trancadas no armário, vistas através
do vidro, sabendo as chaves onde estão?
E por fim o problema da pureza e da castidade, incompatíveis
com nosso costume, nosso temperamento, nossa vida de moleque,
minha e dos colegas, com os nossos papos fascinantes, dos amigos
e dos companheiros de conversa, como fugir deles? Relacionados
quase que exclusivamente com assuntos empolgantes, coisas de homens,
sexo, mulher, pornografia, zombaria, bisbilhotices diversas e
outros dos mais indecentes, etc., etc.? Tudo condenado como pecado
mortal.
A empreitada ficou difícil, para não dizer quase
impossível. A luta durou um mês, talvez dois, exagerando
três no máximo. Finalmente compreendi o dilema de
nossos pais primitivos, Adão e Eva. O demônio que
conhece as nossas fraquezas, sempre muito competente, sempre por
perto, nos espreitando, observando-nos a cada instante, a cada
esquina, esperando apenas uma oportunidade, metendo minhocas nas
nossas cabeças, sugerindo dúvidas e propondo alternativas,
“deixa de ser besta seu bobo, não entra nessa não,
vai perder a turma, ser chamado de maricas, deixar de fazer muita
coisa boa, a vida é curta e só temos uma, a juventude
passa depressa e depois não tem mais remédio”
e mais, “será que tudo é verdade mesmo, existe
mesmo Deus, existe Céu, existe Inferno?” Fica sempre
a dúvida, “e se tudo não passar de conversa
mole?”. E tem mais, “haverá sempre novas oportunidades
de se redimir, de virar santo, Deus é pai, está
sempre disposto a perdoar nossos pecados. Não é
assim que ensina a Santa Madre Igreja?”
Decisivamente complicado, me rendi, fracassei, não consegui
virar santo, pelo menos daquela vez. Paulatinamente fui caindo
na normalidade da minha vidinha de pecador.
Vila
Velha, fevereiro de 2004
João
Hertesi

|