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DIGRESSÃO SOBRE O FALAR DEMAIS, OU UM ZERO NA TEREZINHA

   As mulheres são formidáveis! Eu, de minha parte, às vezes fico pensando nas... "mulheres da minha vida". As principais são quatro, ou cinco, ou mais certamente: mãe, esposa, filha, irmãs, sogra, tias, todas espetaculares. Sobram-lhes desprendimento, atenção, carinho, amor, às vezes bom senso, e muito mais. Imagino que, com a maioria das pessoas, também deve ser assim pois, de fato, as mulheres são seres formidáveis, ai de nós sem elas. Não obstante, devemos reconhecer que, convenhamos, algumas têm alguns defeitos irritantes, como por exemplo o de falar demais. Falam pelos cotovelos, por gosto, mesmo não tendo nada o que dizer, parece que são dominadas por um impulso íntimo incontrolável. Ao telefone, por exemplo, eu conheço mulheres que passam horas conversando, tagarelando, se repetindo, um assunto puxando o outro, volta atrás, segue adiante, os minutos passando, a linha ocupada, no fim nada que se aproveite. Considero isso uma forma de talento, muito talento aliás, às avessas é claro, mas que exige a virtude da paciência, delas e de nós outros.

   Entretanto, devemos reconhecer que, a tagarelice, apesar de mais comum nelas, não é exclusividade das mulheres. Eu conheço muitos homens que, pelo meu gosto, falam muito, não conseguem ficar calados, e como tal, sempre terminam dizendo um monte de bobagens. Na verdade, o ato de falar e conversar direito, de forma eficiente, atendo-se ao essencial, ao oportuno, e ao agradável, não é coisa simples, ao contrário, acho que é até bastante complexa, e é através dele que causamos impressão nos outros, que nos revelamos, uma janela por onde nos expomos à curiosidade alheia. Há um ditado que diz que a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. Em geral, quase sempre, para a maioria, nós falamos de improviso, ou seja, vamos pensando e falando ao mesmo tempo, quase que simultaneamente, sem colocar um filtro de anteparo, com as idéias fluindo imperfeitas, mal reveladas, em rascunho, sem as correções devidas, incompletas, ainda brutas, dando como conseqüência chances a mal entendidos e interpretações erradas.

   Todavia, em compensação, existe igualmente o outro lado da medalha. Eu conheço pessoas que considero privilegiadas, das quais tenho inveja, são aquelas que pensam antes de falar. Umas trazem essa característica naturalmente em si mesmas, nascem assim, outras a adquirem com o tempo, por auto controle, ou auto domínio, são as mais sofisticadas. São pessoas amadurecidas, ponderadas, que sabem ouvir e calar, e quando falam, o fazem baixo, devagar, sem ênfase, soltando as idéias buriladas e completas. Numa discussão, ou num grupo, vale sempre a pena ouvi-las.

   Eu considero que o meu saudoso Professor João Carneiro Ribeiro poderia ser incluído nesse tipo de gente. Apesar de algumas esquisitices, de seu modo fechado, era um sábio, e não jogava conversa fora nunca. Nos intervalos das aulas, durante o cafezinho, costumava conversar com um ou outro professor, mas muito pouco, com grande comedimento. Na sala de aula, era um falador que se atinha aos assuntos de interesse, não fazendo nenhum comentário extra, nenhuma observação fora da matéria, nenhuma brincadeira. Mesmo quando provocado sabia se conter. Era um indivíduo carrancudo e sistemático, e sua vida se resumia a três ambientes: no Hotel, onde era o dono e morava; no Colégio, como professor; e na beira do rio, pescando, onde se distraia. Não participava de nenhum evento social, dizia mesmo que não se sentia bem no meio de muita gente.

   Há muitas coisas interessantes a falar sobre ele.

   Entrava na sala com o livro de chamada sob o braço, com cara fechada de poucos amigos, muito sério. Dava a impressão de uma pessoa brigada com a vida e que poderia explodir a qualquer momento. Os alunos, em geral, o temiam e ficavam em silêncio durante suas aulas. Quando algum mais desinibido se atrevia a uma pergunta, ele se mostrava paciente e repetia a explicação. Seus conhecimentos eram enciclopédicos, de largo espectro. Que me lembre, dava aulas de Inglês, Matemática, Física, Português e Latim. Tinha algumas manias. Uma delas era dar a nota em um código próprio, que combinava traços, pontos, quadradinhos, que eram registrados no livro, cada símbolo representando uma nota. Com o tempo, nós descobrimos o significado de todos eles. Era seu hábito dar provas orais. Sem avisar, mandava os alunos ao quadro para demonstrar um teorema, resolver um problema ou fazer qualquer outro exercício. Registrava as notas no livro e no final do mês tirava a média. Por vezes, ele entrava na sala e iniciava a aula direto; outras não, sentava-se à mesa, fazia a chamada olhando aluno por aluno, sem dizer os nomes e ficava escrevendo no livro, fazendo contas, tirando médias, conferindo alguma coisa, permanecendo assim alguns minutos, de cinco a dez, para somente então iniciar a aula. Foi num dia desses que aconteceu o caso do zero na Terezinha.

   Era uma aula de Inglês. O Prof. Carneiro entrou, como sempre sério, sentou-se à mesa e ficou escrevendo no livro de chamada, de cabeça baixa.

   Iniciou-se então um momento de silêncio respeitoso. Todo mundo calado. Dois minutos, três..., e uma aluna, a Terezinha, uma moça magrinha, conversada, não se conteve, e começou a cochichar baixo, baixinho, com o colega do lado.

   Silêncio..., e a Terezinha continuava cochichando, agora já com a colega da frente, sem perceber aumentou o volume, um pouquinho mais alto. Depois com outro, do outro lado. E no silêncio, sua voz sobressaía, perfeitamente audível, irritante. E somente ela falava, pois os colegas respondiam com gestos. Sem desconfiar, continuou falando, cochichando, com um, com outro, por um bom tempo.

   Eu, como de resto toda a sala, em silêncio, já tinha percebido que havia algo de errado. Dez minutos passados, João Carneiro de cabeça baixa, escrevendo. Impossível não estar ouvindo aquele cochicho. Foi quando ele se levantou, dirigiu-se ao quadro negro e escreveu algumas frases em português. Voltou a sentar-se e disse, muito sério:

   "Dona Terezinha, por favor, dirija-se ao quadro e verta para o inglês este texto."

   Ela levantou-se e foi ao quadro. Pegou do giz, leu o texto, que era difícil, bem acima do nosso nível de conhecimento, e ficou parada alguns minutos, tentando alguma saída, sem saber o que fazer. Um silêncio constrangedor na sala.

   Depois de algum tempo, como não saísse nada, João Carneiro mandou que ela voltasse a seu lugar e se sentasse. Pegou do livro e registrou uma nota, falando em voz baixa, sonora, grave, só para si, mas que todos ouvimos: "Só mesmo dando um zero nessas meninas tagarelas!".

   Em seguida, sem dizer mais nada, levantou-se e iniciou a aula.

   Uma outra do Professor Carneiro que me lembro agora, que penso merece ser registrada. Já aposentado, morando em Itaperuna, ele passou por Vitória e resolveu fazer uma visita ao Dr. Pedro Vieira e a Dona Mercês. Conversa vai, conversa vem, e ele saca o seguinte "Sabe Dona Mercês, depois desses mais de cinqüenta anos de magistério, ando cansado, tomei horror a aluno. Quando vou por uma calçada e vejo que vou cruzar com um, ou com um grupo deles, vindo do sentido oposto, me desvio, atravesso a rua e passo para a outra calçada" .

João Hertesi




 

 


 

 

 

 

 

 

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