MENU





Sua mensagem


Caso a página não esteja sendo exibida corretamente
instale o plugin  do  flash  no seu computador entrando
no link acima.

Melhor visualizado em resolução 800x600 ou 1024x768


LEMBRANÇAS POR UMA CALÇADENSE DE CORAÇÃO

Padeeeeiiiiro! Olha o padeeeeeiiiiro! “É o pão da padaria “Pão Bom!” Olha o padeeeeiiiiroooo!

Durante anos quando estávamos em Calçado, normalmente em julho, éramos acordados bem cedo mais ou menos as cinco da manhã pelos vendedores de pães das padarias da cidade; podia-se ouvir vindo ao longe até chegar à nossa casa, o tilintar das campainhas das bicicletas onde eram colocados imensos cestos de vime recheados de deliciosos pães. Quantas vezes ouvíamos a minha sogra pedindo ao padeiro para falar mais baixo senão acabaria por nos acordar, mas eu na verdade estava curtindo aquele episodio pois mostrava a meu ver, que o lugar estava vivo.

A cidade era madrugadora e já nas primeiras horas do dia, bem cedinho, podia-se ouvir o seu despertar através das inúmeras atividades que se iniciavam a partir daquele horário: eram os carros que se dirigiam ao hospital, era alguém que parava por baixo da janela para papear com outra pessoa, era o canto do passarinho, a galinha cacarejando ou mesmo alguém cantando ao longe. Dentro de nossa casa, os passos dos meus sogros faziam ranger a antiga tábua corrida. O cheiro delicioso do café que emanava da cozinha chegava até a nós despertando o nosso apetite.O fogão era de lenha e estava sempre acesso. Quantas vezes aquecemo-nos à sua frente com as palmas das mãos estendidas em direção ao fogo e usufruíamos do seu calor para amenizar o frio que sentíamos naquela época do ano. Alegremente sentávamos ao redor da mesa da cozinha onde papeávamos e tomávamos um café quentinho com pão e manteiga em xícaras Duralex, usadas na verdade, apenas para as visitas ou quando os filhos iam lá. Por várias vezes pude observar da varanda, por entre a fileira de eucaliptos antigos que permeavam calçada acima, os raios de sol penetrarem por entre os galhos nas primeiras horas da manhã e trazendo até a nós um zumbido das abelhas que ali habitavam. Era um lindo espetáculo!

Ao longe lá no alto pode-se ver a igreja católica é uma igreja interessante onde as pinturas apocalípticas contornam as paredes e o teto da mesma. O povo calçadense é muito religioso e todos têm o direito de seguirem a religião que melhor lhe aprouverem. A igreja Presbiteriana, o que me trazia maior orgulho pois pertenço a esta denominação, é sempre convidada para cantar com o seu coral nos mais importantes eventos na cidade.

De uma beleza singular Calçado se destaca pela praça que começa em frente a igreja católica e desce graciosamente os morros até chegar aos pés do Grupo Escolar Manuel Franco. A praça abriga um coreto gracioso onde os políticos fazem seus discursos, contém ainda belos jardins os quais florescem durante todo o ano. Esse é o lugar onde os jovens e as famílias se reúnem para namorar ou mesmo prosear quase que diariamente. O pipoqueiro até a minha época era o mesmo da infância de meu marido, ao anoitecer espera sempre no mesmo ponto da praça a sua clientela que ontem eram crianças, hoje são pais que compram pipocas para seus filhos. À noite o céu estrelado deslumbrava a todos nós que o víamos, devido a pouca luminosidade das ruas.

Nas festividades da cidade, o calçadense é festeiro e patriota , o povo desde cedo começa a se acomodar nas beiras das calçadas, nas varandas e janelas das casas dos vizinhos, nas portas dos bares; dessa forma esperam pacientemente pelo desfile ou mesmo por algum importante evento.

As ruas são calçadas por pedras roliças as quais dão um toque colonial e bucólico à cidade. As casas são construídas quase nas calçadas, pois não há recuo das mesmas, porém são lindas e antigas, cada uma tem histórias de gerações guardadas dentro de si. Histórias que são verdadeiras sagas que passam de geração a geração. O mais interessante é que o povo continua a construir os casos do dia a dia nas rodas de amigos e almoços domingueiros.

O comércio ha o comércio, esse me encantava pois a maior parte era tipo “loja de quase tudo”, desde os calçados aos tecidos, dos pequenos objetos para se presentear aos vasilhames de cozinha, dos brinquedos aos materiais escolares. Os donos das lojas recebiam com grande calor humano os seus fregueses, pois afinal o movimento não era tão grande assim. Se pudesse eu ficaria uma boa parte do dia ali. O movimento maior era nas vendas e no super mercado que para mim, parecia um micro shopping pois ali se podia comprar quase tudo para a cozinha e para casa também. As compras eram feitas através de cadernetas e no final do mês as contas eram acertadas. Todos tinham crédito naquela época. Era divertido passear no “supermercado” pois na verdade a cidade tinha pouca diversão e esses momentos valiam ouro para mim. Muitas vezes eu só pescoçava por esses lugares.

Calçado é na verdade, uma pintura com matizes deslumbrantes, que toca os meus sentimentos e desperta sempre o meu interesse. Até hoje recebemos notícias através do único jornal, que eu saiba, da cidade: “A Ordem”, onde se escreve sobre política, eventos importantes, quem nasceu, quem morreu ou quem esteve visitando a cidade. Tenho lembranças maravilhosas daquela época em que tivemos o prazer de ser um pouquinho calçadense, esse tempo encerrou no dia em que Deus levou a minha sogra e a nossa casa foi vendida. Que pena! Realmente ficou uma grande saudade não só em mim mas em toda a família. Até hoje ao redor de nossa mesa relembramos o nosso período ali em Calçado o nosso convívio com D. Carly e Sr. Sodré e até hoje, divertimos muito com suas histórias maravilhosas. Porém quero dizer que através dessas experiências passei a me sentir uma verdadeira calçadense de coração.

19/11/03
Vanda Maria Quintão de Souza
acsodre.vandaquintao@terra.com.br




 

 


 

 

 

 

 

 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados