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O MENINO E O CINEMA

   O mundo convivia na década de cinqüenta com uma grande modalidade de divertimento: O Cinema.

   Esta casa de diversão, funcionava em quase todas as cidades brasileiras, por mais longínquas que fossem; era de vital importância na vida social da população urbana e rural. Transmitia ao público cultura, comédia, drama, política, esporte, enfim uma quantidade de informações que eram absorvidas dentro da potencial idade e grau de formação educacional, intelectual de cada pessoa.

   Apesar da freqüência heterogênea do público, cada espectador, conduzia o veículo de sua fantasia de acordo com a fertilidade de sua imaginação, podendo sentir o personagem e viver a história como se fosse o próprio protagonista.

   Era comum, após as sessões, encontrarmos pequenos grupos concentrados pelas ruas, comentando cenas do filme e tecendo opiniões sobre o enredo e atuação do ator.

   Hoje, temos a televisão como meio de comunicação presente em quase todas as residências, informando-nos rapidamente os acontecimentos mundiais, transmitindo-nos simultaneamente através de satélites espaciais.

   Voltando à década de cinqüenta, um acontecimento de grande importância, talvez o maior do ano, foi a inauguração do "Cinema"em São Benedito.

   Esta casa de espetáculo funcionava num galpão, onde promoviam bailes de carnaval.

   Este local fora adaptado para projetar filmes de 8mm, marcando,assim uma matinê para sua inauguração. O filme exibido, para satisfação geral, foi um faroeste, com Hopallon Cassidy ( Joel MacCrea).

   A divulgação de tal acontecimento, chamou atenção total do município, a notícia chegou a todas as fazendas da redondeza, através da informação boca a boca.

   Mas como notícia boa também corre rápido, logo a fazenda RAGGI, distante apenas dois quilômetros da "RUA" ( como era chamado São Benedito), recebeu a notícia com muito entusiasmo, e orgulhosa desta grande novidade, enaltecendo ainda mais o próspero e promissor lugarejo.

   Atento aos acontecimentos, estavam curiosamente dois irmãos, cuja faixa etária não ultrapassavam oito e dez anos de idade. Receberam a notícia com um largo sorriso, pois queriam participar também deste grande evento e poder conhecer finalmente este tal de "cinema" de que tanto falavam.

   Infelizmente, somente o mais velho fora agraciado para assistir a película, prometendo ao irmão mais novo que contaria tim-tim por tim-tim, assim que voltasse à fazenda.

   Luís, assim se chamava o mais novo, ficou sentado no alto da escadaria de pedra bruta, que dava acesso ao casarão, observando insistentemente o vale verde ao longo da estrada.

   Absorto em seu mundo de menino, não parava de pensar no cinema e no regresso do irmão Aristide, conhecido como Tide. Lá pelas tantas, avistou aquela figura familiar, aproximando-se lentamente, com seu peculiar andar descansado, vindo em direção à fazenda. Rapidamente correu ao seu encontro, juntando-se ao seu lado, curioso mas um tanto desconsertado; pois nunca tinha visto e nem sabia na realidade o que era cinema. Passaram-se alguns minutos, perguntou de supetão, como tinha sido a inauguração do cinema.

   Tide, que não era de muita conversa, simplesmente respondeu:

     - Foi bom...

   - Mas só isto? , perguntou Luís. Conta mais...

   Tide pensou um pouco, pois as cenas estavam ainda embaralhadas em sua mente, e falou calmamente: - O mocinho deu muitos tiros e matou vários bandidos.

   Imediatamente Luís perguntou: - E o Zico Maria não fez nada? Onde estava o Zico Maria?

   Tide surpreso e irritado disse: - O Zico Maria estava lá, rapaz, estava assistindo também ao filme.

   Luís não satisfeito retrucou: mas como estava lá? Não prendeu ninguém? Não fez nada? Não acredito.

   Tide, contestou sem paciência. Como não fez nada? É um filme, rapaz, não é de verdade, tudo se passa na tela, parecendo de verdade, mas não é.

   Luís ficou insatisfeito e decepcionado com o famoso subdelegado, homem de fama de bravo e valentia à toa, por não manter a ordem no cinema como ele mantia na rua.

   Juntamente com a falta de explicação do irmão e maiores informações anteriores, não conseguia entender o que era realmente o cinema, pois quem nunca viu a fantasia projetada numa tela, jamais poderia formular a própria concepção do que era o cinema.

   Cansado da espera, já noite a dentro, vai para cama cheio de dúvidas e frustrações. Entretanto, sonha com os bandidos, sob olhar distante Zico Maria, sem prestar-lhe nenhuma ajuda.

   Acorda assustado e sente que está em seu quarto, junto com seu irmão; aliviado, agradece a Deus, adormece novamente, na esperança de que um dia poderá satisfazer a sua curiosidade, conhecendo o cinema de São Benedito.

   Hoje, este menino que não conseguia entender o que é o cinema, por tàlta mínima de informação, de uma época não muito distante, é professor de informática numa Universidade Federal. Transmite aos seus alunos informações altamente valiosas do computador para a vida profissional, projetando, no seu monitor, a imagem de sua imaginação e conhecimento técnico, dentro da realidade da ciência exata.

   Não importa onde nascemos, em que época vivemos, o que importa é a eugenia, a formação familiar, orientando a trilha de nosso destino, para que possamos atingir o referencial de amanhã, na busca de nossos objetivos.

   Parabéns Luís por ter chegado lá, não como cineasta, mas como conceituado professor universitário.


Raulino Pereira

 

 


 

 

 

 

 

 

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