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O CINE TEATRO SÃO JOSÉ
Década
de cinqüenta. Os homens entram no Banco procurando pelo doutor
Pedro Vieira. Vão logo dizendo: "Nós somos
a conhecida dupla de comediantes "Papagaio & Periquito",
e queremos dar um show no cinema".
Doutor Pedro, daquele jeito dele, ocupado, sem
paciência, responde logo, despachando-os. "Não,
não é comigo não, esse negócio de
Papagaio & Periquito é com o gerente do cinema, seu
Walter Mendonça, está ali naquela mesa, podem falar
com ele".
E lá vão eles conversar com o
gerente. Propõem um show para o dia seguinte. Seu Walter
fica meio em dúvida, questiona, "Papagaio e Periquito?"
Não, nunca ouviu falar. Tenta negar, tirar o corpo fora.
Não, diz, um show desses não dá para encaixar
assim de chofre, sem um preparativo, é necessário
alguns dias, é preciso antes fazer uma programação,
propaganda, um proclame, pelo menos durante uns cinco dias, anunciar
na difusora, para informar as pessoas e atrair o público.
Mas os homens são insistentes, argumentam,
não podem esperar, dizem que são conhecidos, muito
sucesso, casa cheia em Guaçuí, Alegre, e Sabino
Pessoa. Não têm tempo a perder. Já tinham
programação prevista para Cachoeiro, Mimoso e Muqui.
Estão de passagem pela cidade de Calçado, que não
podia ficar de fora, urbe importante, povo de bom gosto, educado,
hospitaleiro, etc., etc..
Era comum aparecerem artistas assim, itinerantes,
passando por Calçado, e costumavam fazer espetáculos
ao gosto do público. Seu Walter tinha experiência.
Normalmente era necessário antes uma investigação
para ver se eram mesmo artistas, buscar referências, no
caso de dúvida negar, tinha sempre o risco de aventureiros
e vexames. Confirmadas as boas informações, então
partia para o programa.
Quanto ao nosso público, era pouco sofisticado
para diversões mais elaboradas, assim como os filmes, falados
em idiomas estrangeiros, dependentes de legendas. O que fazia
sucesso na cidade mesmo eram os circos: palhaços, trapezistas,
equilibristas, dramas e comédias, um monte de artistas,
música de banda, participação da platéia,
desconforto, mas tudo ao vivo e em vernáculo compreensível.
Uma dupla engraçada também era benquista, por isso
o cinema às vezes as apresentava.
O cinema, o Cine Teatro São José,
já vinha funcionando há alguns anos, desde 1949,
mas com sucesso relativo. Desde o princípio tinha poucos
freqüentadores assíduos.A maioria das pessoas não
costumavam freqüentar. Povo meio atrasado e com pouco dinheiro.
Alguns, os mais velhos, não gostavam mesmo, por falta de
hábito, outros, de pouca leitura, não conseguiam
acompanhar os enredos, não entendiam nada, palavreado incompreensível,
legendas rápidas, não conseguiam seguir aquelas
escritas aparecendo e sumindo, tão depressa, era difícil,
terminavam se desligando e dormindo no escurinho. Não voltavam
mais. Outros até que gostavam, mas não freqüentavam
por outros motivos, normalmente por causa do dinheiro, por apego
excessivo a ele ou por falta mesmo.
No entanto, sempre havia um público mínimo
que permitia manter as atrações. Se um filme dava
lucro, outro dava prejuízo, e a situação
permanecia mais ou menos equilibrada no zero a zero, e dava para
ir levando. O ingresso, cinco cruzeiros, para todas as seções,
inclusive a matinê, não havendo meia entrada. Passavam
três filmes por semana, o de sábado repetia na matinê
de domingo, o de domingo à noite, se fosse dos bons, repetia
na segunda e o outro, do meio da semana, era exibido na quarta
feira.
Antes de começar tudo, em 1949, seu Walter
lembra que teve que ir ao Rio de Janeiro pessoalmente, para contatar
as companhias: Wanner, Paramount, Metro, Colúmbia, Pelmex,
Atlântida e Condor. Não houve problemas, tudo acertado,
contratos assinados, às companhias cabiam enviar as relações
das películas disponíveis, com preços, sinopses
e cartazes, e depois garantir a programação, enquanto
que ao cinema competia cuidar bem do material e exibir ao menos
um número mínimo de películas por companhia,
com os alugueis pagos adiantados.
Os filmes chegavam através de Bom Jesus,
de trem ou de ônibus, onde um funcionário do cinema,
seu Nego Comprido, ia apanhá-los. Não raro, na estação
das chuvas, seu Nego tinha que ir a pé, pois a estrada
às vezes se interrompia na Volta Fria.
Uma grande atração eram os seriados
que passavam depois do filme no sábado e na matinê
de domingo. Cada episódio, uns quinze ou vinte minutos,
começava com o "perigo" da sessão anterior
e terminava com o novo "perigo", mantendo muita gente
tensa, presa, ansiosa, esperando pelo próximo sábado.
Aventura, mocinho, mocinha, o gozado, muitos bandidos, muita luta,
e interessante, apesar delas, dos tombos e dos levanta e cai,
era comum os chapéus dos lutadores não caírem
das cabeças. Até hoje não entendi. Deixaram
saudades: A Legião do Zorro, O Homem de Aço, A Deusa
de Joba, A Águia Branca, e vários outros cujos nomes
não me lembram. Quanto aos filmes propriamente ditos, entre
outros, me recordo dos sucessos com Errol Flynn, astro da Wanner,
machão, bonito, charmoso, elegante, bom cavaleiro, rápido
no gatilho, grande espadachim, irônico e namorador das mais
belas mulheres. Tudo o que um jovem sonhador queria ser e, para
as moças, o príncipe encantado eternamente sonhado.
Lembra-me alguns títulos inesquecíveis: "O
Gavião do Mar", "O Capitão Blood",
"As Aventuras de Dom Juan", "As Aventuras de Robim
Rood", "Uma cidade que surge", "Sangue e Prata",
e outros cujos nomes agora me escapam.
Um outro tipo de filme que também fazia
sucesso, os dramas mexicanos da Pelmex, "Pecadora",
"Noites de Farra", "Noites de Cabíria",
etc., etc.. Dramalhões, mocinhas que enganadas pelos namorados
terminavam na rua, em cabarés enfumaçados de segunda
categoria, dominadas por um gigolô qualquer. No final, terminavam
sempre bem, redimidas, resgatadas por algum cavalheiro bem intencionado
que por elas se apaixonavam. A "Pecadora" fez muito
sucesso numa Festa de Maio. Pessoas saindo do cinema com os lenços
nas mãos e os olhos vermelhos de choro, emocionadas pelo
enredo comovente.
Para manter a disciplina e permitir que o cinema
fosse um local de respeito, que todos pudessem usufruí-lo
sem problemas, havia um regulamento para conter os excessos, visando
principalmente à criançada, e a algum adulto espírito
de porco que às vezes se metia a engraçado. Quem
o infligisse era posto para fora e suspenso por um bom tempo.
Para refrescar as memórias, de vez em quando, o Zé
Quintão, com sua voz forte e metálica, lia as regras
através do alto falante, antes do início da projeção.
Uma relação parecida, assim como por exemplo, com
Os Dez Mandamentos, onde se listava o que podia fazer e principalmente
o que não podia durante as sessões.
Alguns momentos foram inesquecíveis na
história do cinema.
Seu Walter lembra, na inauguração, no dia sete de
setembro de 1949, a casa encheu e até parecia que ia ser
mesmo uma sucessão de sucessos. O primeiro filme, preto
e branco, uma estória da Primeira Guerra Mundial, "O
Sargento York". Jair Melo anunciou na difusora "Não
percam, na próxima quarta feira, a inauguração
do nosso cinema, um filme espetacular, O Sargento York, com Gari
Co-ó-per". Dona Mercês ouviu e mandou corrigir
logo. "Walter, fala para o Jair que não é Gari
Co-ó-per não, a pronúncia certa em Inglês
é Gueri Cuper". Corrigido logo, logo sem problemas.
Numa Festa de Maio, que eram os dias mais esperados
e mágicos da cidade, o cinema conseguiu trazer para um
show a famosa dupla caipira, nacionalmente conhecida, "Jararaca
e Ratinho". Que beleza, que sucesso, sala lotada, tocaram,
brincaram, cantaram e contaram piadas. Jararaca além de
engraçado era um compositor de renome, ele no violão
e o Ratinho exímio saxofonista, de fôlego invejável,
que às vezes começava a soprar no instrumento, tirando
um agudo, e parecia que não ia parar mais.
Havia também os espetáculos com
mágicos e hipnotizadores. Um que corria o país e
se apresentou em Calçado foi o professor Oriety Bay. Lembrava
o mago de Aladim, barbicha, turbante, roupa branca, um indiano,
impressionava. Fez desaparecer e aparecer em outros lugares jóias
e relógios dos espectadores. Que alívio! Convidou
um grupo de jovens ao palco e hipnotizou quase todos. Uma mocinha,
de tanto calor, começou a levantar o vestido e teve que
ser contida. Um outro ficou rígido como uma estátua
e foi apoiado sobre duas cadeiras, funcionando como uma pinguela
para um menino passar.
Porém, os maiores sucessos mesmo foram
os artistas de rádio. O ponto alto aconteceu quando da
visita de Emilinha Borba. A cantora mais badalada do Brasil, adorada
por milhares (ou milhões?) de fãs, meninas histéricas,
mulheres entusiasmadas, e marmanjos apaixonados. Todos queriam
ver ao vivo a grande artista, Rainha do Rádio, que cantava
na Rádio Nacional e aparecia no cinema em chanchadas da
Atlântida.
Ingresso caro, Cr$20,00, cinema lotado, 300
lugares vezes 20 cruzeiros, renda recorde de seis contos de réis,
como então ainda se dizia. Só que a cantora levou
a maior parte dessa grana. Na porta do cinema, amontoados do lado
de fora, nós, os sem dinheiro, os jovens sem dinheiro,
que impossibilitados de assistir ao show, queríamos ao
menos ver a cantora de relance na passagem, entrando ou saindo.
Por sinal, na saída ocorreu um início
de tumulto. Quando a artista ia passando, um jovem, garotão
desinibido, folgado, Chico Alfredo, de surpresa deu-lhe um beijo.
Parece que ela gostou. Mas ficou assustada e não gostou,
foi do que veio depois, em seguida, quando toda a rapaziada, aos
trambolhões, começou a se aproximar para também
tentar beijá-la. Foi necessário um cordão
de segurança até ao carro. Verificou-se então
que este estava com um dos pneus furado. O motorista vacilou,
seu Walter agiu, com medo do pior, apressou-o, que partisse assim
mesmo, arrancasse rápido, trocasse o pneu na saída
da cidade, lá pela altura da Vala.
Um outro artista famoso que, logo depois de
Emilinha, também apresentou-se em Calçado foi Francisco
Carlos, o cantor mais admirado na época, "Rei do Rádio",
bonito e simpático, que deixava fora de si, arrepiadas,
as mocinhas e muitas madames. Igualmente fez muito sucesso mas,
que me lembre, ninguém tentou beijá-lo. Vontade
não faltava porém não pegava bem.
Lembro-me ainda das apresentações
de outros artistas. Um foi Blackout, um negão conhecido
como "O General da Banda", cantor da Rádio Nacional,
muito aplaudido, outra, Odete Amaral, artista antiga e meio esquecida,
outrora famosa, que cantava bem, mas já quarentona e muito
maquiada, que distribuiu beijos e abraços aos montes para
toda a rapaziada, deixando vários lambuzados de batom.
Mais o quê? Deixe ver
Ah!, para ir encerrando, não podemos
esquecer que inesquecível mesmo para seu Walter, indelével
na memória, foi a apresentação da dupla citada
no início desta crônica, "Papagaio & Periquito".
Felizmente o maior público não esteve presente e
dela não tomou conhecimento, mas ele, por motivos óbvios,
nunca conseguiu esquecê-los.
Ainda na conversa no Banco, tratando dos pormenores
Os homens argumentaram sobre o cachê, queriam o mesmo que
os artistas famosos, uma quantia mínima fixa, mais uma
porcentagem sobre a renda arrecadada. "Não, isso não,
de jeito nenhum, protestou seu Walter, o máximo que podemos
concordar é com uma porcentagem sobre a arrecadação,
digamos 50%". Toparam e ficou acertado ainda que a apresentação
seria dois dias depois, para dar tempo de fazer a propaganda.
Chegando o dia, pouca gente no cinema, ainda
bem, o serviço de alto falante tocou música à
espera do começo do espetáculo. Os artistas foram
lá para trás do palco com seus apetrechos para se
prepararem.
Deu a hora, deu o sinal de início, passaram
um, dois, três
, cinco minutos. E nada, silêncio,
a cortina fechada e os homens não apareciam. A platéia
impaciente, primeiros apupos, assobios, e nada. Seu Walter teve
que tomar iniciativa, e se dirigiu ao palco, na entrada de trás,
para ver o que acontecia. Os dois indivíduos estavam numa
confusão danada, parece que sem saber o que fazer, tentando
se maquiar, passando papel carbono na cara, com latas de graxa
de sapato nas mãos, tinta vermelha, uma improvisação,
caras de palhaço mal maquiadas. Apressou-os, "vamos
minha gente, vamos abrir a cortina, o público está
impaciente". Finalmente a cortina se abriu e os dois começaram
sem saber o que fazer, tentaram uma piada sem graça, não
convenceram, fizeram graça, mas graça sem graça,
tudo sem nexo, um horror. Amadores inexperientes, vigaristas,
ou malucos? Voltaram as vaias, assobios, apupos, gritaria, etc.,
não jogaram nada no palco porque não tinham nada
para jogar, ou talvez por respeito à direção
do cinema, nosso público não ultrapassava certos
limites.
Necessária nova interferência,
novas providências, mandou cerrar a cortina e o Zé
Quintão, lacônico, anunciou no alto falante "Prezado
público, por motivo de força maior, informamos que
nosso show terá de ser interrompido, pedimos escusas e
esperamos contar com a compreensão dos senhores, muito
obrigado".
Para não criar mais confusão,
seu Walter preferiu não devolver o dinheiro aos pagantes,
sabia que seriam compreensivos. Determinou aos homens que fossem
até à bilheteria para apanhar o que fosse apurado,
era pouco, público reduzido, o cinema não queria
nada, e sumissem, desaparecessem, que não voltassem mais
a Calçado. Senão, da próxima vez, quem os
receberia seria o delegado ou o cabo Nilo.
Recife,
dezembro de 2003.
João Hertesi

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