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O perdão de Natal

  Pompano Beach, 13 de dezembro de 2003

Eiiii......psiu, toc,toc toc......Caçapinha? Ta por ai? Com muitas saudades de mim, ne mesmo?
Tava pensando que eu tinha esquecido dos seus perdões, hem? Esqueci não meu amigo, só tava dando um tempinho pro Fefeu terminar a maratona de maluquice dele com Alem-Calçado.
Você acompanhou tudo direitinho? Legal né? O Fefeu tem uma memória danada de boa, cruz credo!
E você , vai me perdoar por ter ficado tanto tempo sem te perdoar? Vai né? Afinal de contas e tempo de perdoar, Natal........e por isso estou te mandando o Perdão Natalino.
Coisa boa, rapaz! Coisa boa!
Já imaginou se eu não fizesse isso? Como você se sentiria? Acho que seria, de minha parte, a maior das ingratidões, coisa que você sabe bem o que significa.
Ate por que ate hoje você ainda não me agradeceu por estar te perdoando de todas as malvadezas que fizeste comigo.
Ohhhhhhhhhhhhhh, como sofri nas suas mãos. Mãos de carrasco. Mãos que só sabiam o significado da palavra porrada, bater, dar uns petelecos, uns quitutes na testa!
Mãos adestradas para o mal. Como aquelas mãos que te beliscavam na bunda todas as vezes que brincávamos de carniça.
Tudo isso causado pela sua malvadeza sem limites com seus amigos, principalmente comigo.
Esse seu pobre amigo exilado, trabalhando duro para um patrão judeu, sem aumento salarial a mais de 2 anos.........e tendo que ficar ouvindo gozações do GJuquita.
Mas pelo menos ele lembra de mim, coisa que você não faz.
Você e tão ingrato, mas tão ingrato, que a foto que mandei para todos os meus amigos só a que mandei para você voltou.
Pensando bem, foi melhor assim. Fico aqui imaginando você olhando para minha foto e se debulhando em lágrimas, embriagado e falando: esse aqui e o meu rei, esse aqui e o meu rei......
Se bobear você seria capaz de coloca-la de fundo de tela no seu computer. Ou talvez mandasse fazer uma bem grande para colocar no espelho do seu quarto para quando todos os dias, na hora de você vestir esses ternos horrorosos e amarrotados que você tem falasse: Esse e o espelho da minha vida, o amigo que me tornou conhecido nacional, internacional, espacial e universalmente.
E você continuaria: eu que tinha uma vida obscura, ofuscada, nublada, agora sou o senhor das atenções, todos me conhecem. Graças a esse meu amigo que aqui esta, o Piriquitinho....
Ate por isso eu vou te perdoar. Como continuarei te perdoando, mesmo depois que fizermos nossa passagem. E outra coisa: vê se para com essa idéia maluca de vir puxar meu PÉ se você for primeiro. Coisa chata.......alem do mais sinto muitas cócegas.
Mas vamos falar de Natal.
Tempo de pensar, de refletir, de perdoar.......
Por isso, meu ex-desdentado amigo, estou aqui! Para te dar o Perdão Natalino.......
Não um perdãozinho qualquer, como fazem com o indulto de Natal. Mas um perdão completo, para você se sentir aliviado ate o dia 01 de Janeiro, por sinal dia do seu aniversario.
Mas isso e outra conversa, outro perdão.....esqueci não, esqueci não!
Lembra direitinho das manhas do dia de Natal?
A Radio Difusora, com um dos seus auto-falantes virado exatamente para dentro da Casa Libanesa, para o pai ter certeza que o Jair Mello estava fazendo as propagandas da venda.
Coisa de doido........o som entrava pela venda e ia direto pro nosso quarto.
Lembra das musicas? Noite Feliz.......noite feliz...........e já eram 7 da manha!
Molecada na rua mostrando os presentes, gritaria danada, só farra!
Que saudade né mesmo?
E lá vinha você, todo desmilinguido, com aquele calção azul enorme, que o Crissaff que pegava no Americano e fazia você usar.
Lambreta havaiana, por sinal comprada na venda do pai, e fiado.......cada pé de uma cor.
Pé esquerdo, vermelha. Pé direito, azul.
Detalhes sem importância: o pé esquerdo no direito e vice-versa.......e você calcava 24 (???),e as lambretas eram 36 e 40.
Uma gracinha, coisa de fazer inveja a qualquer mãe.
E lá vinha o Cacapinha, todo saltitante e serelepe, que coisa!
E vestido de índio, só para ser do contra, para sacanear a gente. Uma tanga por cima do calção que tinha no máximo umas 8 penas sabesse lá de que, um cocar que mais parecia um peru de Natal recém falecido e um arco feito de galho de amora e umas flechas tortas feitas de goiabeira.
Pronto, você já chegava fazendo maldades........
Falando assim: Eu sou o índio Asa Quebrada.
O Juquita, coitadinho, vestido de Zorro, te olhava de cima a baixo e me futucava, dizendo:
- Tenente Piriquito, na época eu tinha aquela roupa do 7 de Cavalaria, lembra? ; posso dar umas pancadinhas no Caçapa?
E eu, esse seu eterno protetor de todas as horas, te salvava. E dizia pro Zorro Juquita:
- Nem pensar, bater no meu amigo Caçapa? Nunca..............onde já se viu isso! Mas se você quiser dar uma sarrafeada de porrada no índio pode, e deve.
No índio Asa Quebrada pode, no meu amigo Caçapa não!
Ohhhhhhhhhh, quanta ruindade você fazia, o Zorro Juquita te baixando o cassete e você pedindo mais. Tudo pra sacanear a gente, índio apanha mas não chora. Esse índio aqui e macho.......e toma-lhe porrada!
Quando o Zorro Juquita não aguentava mais vinha o Roy Rogers Renato Abusado, mais porrada....
Depois o Cavaleiro Negro Carlos Lobo, mais porrada....
Depois o Bat Masterson Homerinho, mais porrada....
Depois e que vinha o bom, a turma do Bonanza.4 te dando porrada! Tudo ao mesmo tempo. Imbirezinho, Cabiuna, Cachola e Fernando da tia Penha.
Mas o índio lá, impassivel, já não era nem mais pele vermelha, já era pele roxa mesmo.
E o tenente Piriquito só ajudando. Ensinando como fazia para sucatear um índio, fazer o que os americanos fizeram: aniquilamento geral!
Lembra daquela porrada que te dei na cabeça com meu revolver? Você nunca me deu outro novo. Ele quebrou todinho, lembra disso?
Também, com essa cabeça dura, queria o que? E você lembra que o Juquita tinha pedido para enfiar o revolver na sua goela ?Só para o índio sentir o quanto dói um escalpo?
Ainda bem que foi goela abaixo, imagina se fosse......ia todo mundo olhar para você com aquele olhar estranho que você sabe muito bem qual e.
Mas você não se intimidava com suas ruindades conosco. Cada vez mais você se tornava um verdadeiro herói indígena. E a porrada comendo solta.
Sucateado, meio bambo mas pedindo mais. Muito mais! Como esse índio, sabe-se lá de qual tribo, era tão forte assim?
Mas eu te perdôo, te perdôo de mais essa malvadeza.
Você nem me perguntou por que eu estava com as calcas molhadas. Nem te interessava saber por que eu tinha feito tanto xixi rindo da sua cara indígena.
Mas eu te perdôo, vou continuar te perdoando. Uma a mais, uma a menos, nunca fez diferença para nós, seus amigos.
E o pobre coitado do tenente Piriquito, que sou eu, sempre te salvando. Te ajudando. E você nunca me agradeceu por isso.
Lembra quando as brincadeiras começavam a ficar mais violentas, coisa que eu nunca permiti, eu te puxava pela orelha e te dava um sopapo no pescoço e te mandava para casa? Lembra disso? Mas não, você nunca me agradeceu por isso.
Você nunca me agradeceu por te tirar das mãos daqueles algozes fora da lei que se intitulavam mocinhos.
Você nunca agradeceu ao primeiro e único tenente do 7 Regimento que gostava de índio, amava o índio, era amigo do índio, salvou o índio.
Mas eu te perdôo.
Vou continuar te perdoando, tenha certeza disso.
Meu coração esta e sempre estará aberto para que; eu com tanto sacrificio, com tanta amargura que você me causou; ainda possa continuar te perdoando.
Sempre, sempre......índio xexelento, miserável, pele roxa, mistura de hipopótamo escovando os dentes com jacaré desdentado. Essa foi boa, muito boa.....
A bem da verdade você parecia um índio Apache misturado com os Botocudos, pelo tamanho da sua boca.
Mas e por isso tudo Carlinhos, por tudo que você me proporcionou em todos esses anos de amizade, e me proporciona ate hoje, que eu tenho que falar mesmo: Te adoro meu amigo.
Que Deus te ilumine sempre, cada dia mais.
Natal de felicidade, saúde e prosperidade.
Beijo saudoso, carinhoso para você, Regina, Karina e Caim; muito, muito especial mesmo......
Tenente Piriquito,7 Regimento de Cavalaria...........hiiiiiiiiiiiiii, né nada disso não!
Djalma Lahud, agora sim!
PS: Escrever isso tudo aqui me custou umas 6 caixas de Michelob, quando tiver um tempinho tome umas skol pra mim, viu? Sem choro, sem enjoeira e sem me ligar embriagado. Por favor!

Djalma Junger Lauhud


 

 


 

 

 

 

 

 

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