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O QUARTEL CENTRAL DA GUARDA MONTADA DO CANADÁ

Como todos sabem, o meu, o seu, o nosso Marshall Sheriff Piriquito realizou uma viagem de negócios, juntamente com o patrão judeu, até a cidade de Toronto, capital da província de Ontário, no Canadá. Já na viagem de ida, após uma conexão em Ohio, no estado de Connecticut, Piriquito comenta com o patrão que, quando ainda garoto e morando em São José do Calçado, sempre apreciou a elegância da Polícia Montada do Canadá. O uniforme sempre bem alinhado e aquele chapéu da abas retas, sem falar nos cavalos que, pela aparência, poderiam ser confundidos com aqueles que disputavam as provas de percurso completo do concurso hípico dos jogos olímpicos.

O patrão judeu, sempre muito sisudo, lia a parte de economia do jornal Wall Street Journal e, de quando em vez, soltava um yes, no, oh e outras palavras monossilábicas, que não se sabe se eram para o que Piriquito estava falando ou se referiam às variações dos preços das ações cotadas na Bolsa de Valores de Nova York.

Ao término da Feira, para a qual foram expor os produtos comercializados pela empresa Rite Way, o patrão judeu do Piriquito resolveu fazer uma pequena surpresa. Fez um convite para visitar um dos Quarteis da Guarda Montada do Canadá. O convite pegou o Piriquito desprevinido, já que, pela programação da viagem, a volta para os EUA estava programada para o outro dia, no primeiro horário da manhã.

"- Chefe eu gostaria muito de conhecer a Guarda Montada, mas pela hora, passam das 17:00hs, não vai dar tempo de fazermos a visita."

"- Eu sei, Mister Lahud. Estou fazendo o convite para irmos amanhã, na parte da manhã."

"- Mas, chefe, nossa viagem está marcada para o primeiro horário de amanhã ."

"- Please, Mister Lahud. Vamos deixar de tanto nhem, nhem, nhem. Chegando no hotel farei uma ligação para a companhia de aviação. Transferiremos nossa viagem para depois do almoço. A propósito, ao chegarmos no hotel, lembre que temos de ligar para o comandante do quartel e solicitar autorização para fazermos uma visita."

A euforia tomou conta do Piriquito. Quando ele poderia imaginar que o patrão judeu perderia um dia de trabalho para levá-lo a visitar um quartel. Além do mais, era a realização de um sonho de criança.

Chegando no hotel, que fica na Bay Street, foram disparados telefonemas para a companhia de aviação, para o comandante do quartel e, claro, para informar a família que a viagem se estenderia por mais meio dia. Quem disse que naquela noite o Piriquito conseguiu tirar uma pestana que seja. A excitação era grande e, apesar do frio intenso, parecia até que o sistema de calefação do hotel estava desregulado. Piriquito suava em bicas. Para relaxar, desceu ao lobby do hotel, pediu um copo de leite quente e comprou dois rolos de filme. Ficou por ali alguns minutos e voltou para o quarto. Deitou, mas não conseguia engrenar no sono. Acordava a todo instante com a nítida impressão que ouvira o relincho de um cavalo. A noite passou e o Piriquito quase não dormiu.

Logo de manhã, Piriquito e o patrão judeu sobem para o restaurante panorâmico, para o café da manhã. O dia estava muito claro e com pouquíssimas nuvens, prenúncio de um verão agradável ( no Canadá a temperatura máxima no verão chega a 20ºC ). A temperatura interna no restaurante, com a ajuda da calefação, girava em torno dos 18º C ( quente para os padrões canadenses ). Lá fora os termômetros registravam 2º C. A sensação térmica era de -10º C, devido ao vento proveniente do lago Ontário

Terminado o café, rapidamente apreciam a linda paissagem do lago Ontário e tomam o elevador para o térreo do hotel. Próximo ao hotel, mais precisamente do outro lado da Bay Street, existe uma estação do metrô, a Union. Em Toronto, o metrô tem basicamente duas linhas principais. Uma que corta a cidade no sentido Norte-Sul e a outra no sentido Leste-Oeste. O patrão judeu explica ao Piriquito que, de metrô é o jeito mais fácil e rápido de chegar ao Quartel da Guarda Montada, já que a linha que passa na estação Union é a mesma que leva até a estação Bloor/Yonge ( sentido Norte-Sul ). Nesta mesma estação, um nível abaixo, passa a linha Leste-Oeste. Nessa nova direção, a próxima estação é a de Sherbourne ( zona Leste da cidade de Toronto ), onde se encontra o quartel que iriam visitar.

Uma das coisas interessantes no Canadá são as estações do metrô. Muitas lojas, botiques, cinemas, boates e restaurantes ficam no subsolo, junto à estações, formando um grande shopping center subterraneo, com funcionamento 24 horas. O maior desses shoppings é o Eaton Center, com mais de 300 lojas. As estações subterrâneas foi a saída encontrada pelos canadenses para escapar do rigoroso inverno, onde a temperaura na superfície chega tranqüilamente aos -25ºC.

Piriquito e o patrão judeu chegaram na estação Union do metrô por volta das 8:15hs e seguiram para o Quartel Central da Guarda Montada Canadense. Piriquito não parou de falar um só instante, denunciando uma certa anciedade. O patrão judeu, impassível e concentrado na página de economia do Wall Street Journal, de vez em quando franzia as espessas sombracelhas em sinal de espanto com a cotação de algumas ações.

Finalmente, após exatos 19 minutos, a composição do metrô para na estação Bloor/Yonge. Após utilizar 3 imensas escadas rolantes, desceram ao nível da linha Leste-Oeste e tomaram a composição do metrô em direção a estação Sherbourne. Chegando na estação, sobem até a superfície. Logo à frente da entrada da estação, na Bloor Street East, no outro lado da avenida, pode-se avistar os grandes portões de madeira, confeccionados com troncos roliços de 4m de comprimento, do Quartel Central da Guarda Montada.

Depois das formalidades de praxe, o sentinela do portão do quartel autoriza a entrada do Piriquito e do seu patrão judeu, mostrando o caminho até a sala do Comandante Geral. Atravessa-se um grande páteo, muito limpo mas que exalava um odor forte de cocô de cavalo. Piriquito se perguntava de onde vinha aquele cheiro, pois o chão era muito limpo. Ao passar pelas baias dos cavalos, o odor era muito mais forte. Mas, por incrível que possa parecer, o chão estava limpo. A curiosidade para saber a orígem daquele odor era grande, mas o receio de perguntar era maior.

Chegaram à sala do Comandante do Quartel. O patrão judeu do Piriquito explicou ao comandante a finalidade da visita. Por coincidência, naquela manhã seria feita a troca de guarda e o comandante os convidou para assistí-la. Após a cerimônia, o comandante solicita a presença do tenente da guarda e pede para que percorra o Quartel e mostre aos visitantes todas as dependências.

Percorrida todas as dependências do quartel e feitas todas aquelas perguntas inevitáveis que fazem os turistas, além de tirar um monte de fotos, Piriquito estava feliz da vida. Não conheceu as edificações de um Forte Apache, mas aquele quartel que acabara de conhecer, todo em madeira, dava para ter uma noção do que poderia ser um Forte Apache.

Mas, e aquele odor de cocô de cavalo, de onde vinha ? Piriquito não resistiu de tanta curiosidade e acabou perguntando ao tenente da guarda. A resposta dada pelo tenente foi tão inusitada, que o Piriquito pensou que fosse brincadeira de canadense. Segundo o tenente, no Canadá o frio é muito intenso e os cavalos ficam a maior parte do tempo expostos à temperatura ambiente. Como defesa natural, a musculatura dos cavalos se contrai, comprimindo os órgãos, aumentando a pressão arterial e, por conseguinte, aumentando a temperatura interna. A compressão dos órgãos leva a um aumento da produção de gases no intestino dos cavalos. Daí, serem os cavalos canadenses taxados de os animais mais peidorreiros do mundo.

Piriquito já estava se dando por satisfeito com a resposta do tenente, apesar de achar que aquilo era algum tipo de humor canadense, quando o mesmo tenente completa a informação dizendo que os gases não tinham cheiro. Piriquito não se conteve e, deixando a educação de lado, pergunta ao tenente por que, então, que no quartel estava uma "fedentina danada. Uma murrinha nauseante que ardia o nariz". Até o patrão judeu do Piriquito usava os cachos ortodoxos dos cabelo para obstruir as narinas.

É tudo uma questão de física e, claro, acostumar com o cheiro, explica o tenente. Existe um fenômeno chamado SUBLIMAÇÃO, que é a passagem do estado gasoso para o sólido. Os gases expelidos pelos nossos cavalos saem a uma temperatura média de 38ºC. Como a temperatura externa é muito fria ( +/- 2ºC ), os gases em contato com a temperatura bem mais baixa passam do estado gasoso para uma forma de massa gelatinosa incolor e ficam depositados no chão.

Mas e aquela catinga toda, o senhor ainda não explicou. Pergunta, impaciente, o Piriquito. Bem, quando a massa gelatinosa cai no chão, o odor que exala é fraco e passageiro. O problema é quando começam os outros cavalos e, eventualmente os carros e as pessoas, a passar por cima dessa massa gelatinosa incolor. Há uma reação quimica que faz com que, quanto mais é mexida a massa, mais odor exala.

Piriquito saiu do Quartel Central da Guarda Montada com uma sensação de quem comeu e não gostou. Será que o tenente estava de sacanagem ? Afinal de contas, ele, Piriquito, conhecia Itaperuna e era uma cara viajado, não podia cair numa cascata dessa. Entraram na estação do metrô, de volta para o hotel. Despistadamente, Piriquito passa o dedo por debaixo do sapato e sente uma massa gelatinosa crudar no dedo. Leva o dedo ao nariz e, enfim, confirma: É VERDADE, A MERDA É INCOLOR.

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

 

 


 

 

 

 

 

 

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