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UM CICLISTA DAS ARÁBIAS

Acho que todos nós calçadenses conhecemos ou já ouvimos falar de pessoas que chegavam em Calçado, vindas de não se sabe onde, se alojavam em uma pensão ou em casa de alguma família e ali permaneciam por alguns dias, semanas ou, até mesmo, anos.

A chegada de estranhos na cidade causava um certo alvoroço. Todos queriam saber quem era e o que fazia o forasteiro. Se a indumentária que vestia fosse diferente, se o idioma que falava não fosse o português, se fosse alto ou baixo. Enfim, tudo era motivo para especulações. Mas, como em toda cidade pequena, os curiosos e, principalmente a molecada, se incumbiam de desvendar todos os segredos.

Eu lembro de um desses forasteiros. Lembro-me do que fez, mas não lembro do seu nome. Estávamos todos brincando de bola no campo que ficava atrás do Grupo Escolar. De repente, alguém que estava atrás da linha de um dos gols percebeu a chegada, na pensão do "seu" Tiná, de uma pessoa encarapitada numa bicicleta.

O forasteiro trazia consigo duas grandes mochilas amarradas na bicicleta. Parou na frente da Pensão e bateu palmas, chamando alguém para atendê-lo. Rapidamente chegou a dona Tita, esposa do "seu" Tiná. Conversa rápida e a vaga num dos quartos da pensão foi preenchida. Na mesma rapidez da conversa, terminou a pelada no campo e a molecada foi toda para frente da Pensão.

O forasteiro estava começando a desamarrar suas mochilas e, ao mesmo tempo, verificava o estado geral da bicicleta. A poeira cobria do aro à ponta do guidon, pois a estrada Calçado - Bom Jesus ainda não estava asfaltada. A mochila e o saco de apetrechos que carregava tinham, a primeira vista, a cor de burro fugido. Entretanto, ao serem retiradas da bicicleta e jogadas no chão, a poeira desgarrou e pode-se verificar que a mochila tinha a cor verde oliva já meio encardido.

Nessas horas não falta gente para começar a fazer perguntas. O forasteiro ou ciclista só fazia sorrir, não respondia nada, instigando a curiosidade de todos. Quando alguém fazia menção de tocar na bicicleta, o ciclista olhava com cara feia e pedia para que não tocasse no seu instrumento de trabalho.

Caiu a noite e, já com o ciclista recolhido no quarto da Pensão do "seu" Tiná, a molecada continuava a rodear a Pensão, na esperança de saber de dona Tita quem era o novo hóspede. O que dona Tita fez foi fechar a janela que dava para a calçada e apagou as luzes. O jeito era voltar para casa e, no outro dia, acordar cedo e tirar aquela história a limpo.

Na manhã do dia seguinte à chegada do ciclista, a calçada em frente à Pensão estava cheia. Parece que a notícia correu à noite de casa em casa, tinha moleque representando todas as ruas de Calçado. O ciclista levantou cedo e tomou o café da manhã. Deixou a bicicleta guardada no quarto e trouxe o saco de apetrechos para fora da Pensão. Começou a desamarrar a boca do saco e a tirar uma corda. Tira corda, tira corda e tira mais corda. Era corda que não acabava mais. Finalmente toda a corda foi tirada do saco.
Para surpresa geral, o ciclista pede para alguns dos meninos que ali estavam, que o ajudasse a esticar a corda e deixá-la exposta ao sol, pois ainda estava um pouco úmida depois da última apresentação feita debaixo de muita chuva. Ninguém já se agüentava de tanta curiosidade e o ciclista, percebendo isso, resolveu acabar com o suspense. Explicou que, para apresentar seu trabalho, era preciso uma área plana e do tamanho aproximado da metade de um campo de futebol. Além disso, era preciso que a autoridade do local, no caso, o Prefeito Municipal, topasse fazer uma espécie de aposta com ele. A curiosidade da molecada só foi aumentando à medida que o ciclista ia falando.

Para resumir, a proposta do ciclista era a seguinte. Ele se propunha a andar de bicicleta durante 24 horas seguidas, sem descansar e sem colocar os pés no chão. Não podia parar nem para fazer as necessidades fisiológicas básicas ( xixi, cocô, comer, dormir, etc ). Para beber só fazia uma exigência - soda limonada. Se, após as 24 horas seguidas, ele ainda estivesse andando de bicicleta, seria o vencedor da aposta e a Prefeitura lhe pagaria o combinado. Caso contrário, só lhe restaria recolher as tralhas e partir para uma outra cidade.

Antes do meio-dia daquele mesmo dia, a notícia já tinha se espalhado por Calçado e pelos distritos. O Prefeito diante daquele alvoroço todo, não teve como recusar a "aposta". O desafio teria início às 18:00 hs do dia seguinte. Naquela tarde o ciclista iniciou o ritual de preparação. Muito exercício físico, entremeados com limpeza e lubrificação minuciosa da bicicleta, uma alimentação balanceada e muitos comprimidos de vitaminas

O local escolhido para apresentação foi a rua que separa a praça Pedro Nolasco ( praça da Prefeitura ) e o Coreto. O local foi cercado com as cordas trazidas pelo ciclista. Foi indicado o Zé Gomes ( funcionário da Prefeitura ) para fiscalizar o desafio e não deixar que qualquer pessoa entrasse na área demarcada. Era, também, do Zé Gomes e de um outro funcionário da Prefeitura (eu acho que era o Teté), a tarefa de atender os pedidos feitos pelo ciclista para alimentação ( soda limonada, balas, biscoitos, comprimidos de vitaminas, etc ), sem que, contudo, houvesse necessidade de parar ou descer da bicicleta.

O desafio começou pontualmente às 18:00hs. Muita gente na praça para ver "aquele doido" ficar dando voltas e mais voltas dentro da área demarcada. Aos poucos o pessoal foi saindo de volta para suas casas. Uns frustrados porque o ciclista não dava pinta de que desistiria tão cedo da aposta; e outros porque a graça havia acabado e o tempo estava começando a esfriar. Mas o local nunca ficava vazio, havia sempre gente para ver aquela esquisitice.

Já quase amanhecendo o dia, o ciclista começou a sentir-se mal e não mais aceitava nenhum alimento sólido. Tinha câimbras, tonteiras e ânsia de vômitos. Só o que aceitava era líquido, no caso, soda limonada. Foi um sufoco danado para o ciclista e para o Zé Gomes e o seu ajudante. Sem falar que, na madrugada daquele dia, o sono bateu forte no ciclista e a toda hora era preciso jogar uma caneca d'água no rosto do atleta.

Perto do meio-dia, todos que estavam vendo o desafio apostavam que o ciclista não resistiria por muito mais tempo. Ele já não andava em linha reta desde o inicio da manhã e, por várias vezes, tomava rumo em direção ao cercado de corda. Muita gente gritava, o Zé Gomes pedia para ele virar o guidon para um lado e ele virava para outro, e o danado quase nem mais abria os olhos. Foi um sufoco. A partir daquele momento o Zé Gomes não saiu mais do lado do ciclista.

Por volta das 3 horas da tarde, o movimento na praça começou a aumentar. Todos queriam ver se aquele "doido" conseguiria completar as 24 horas. Zé Gomes já dava sinais de que a coisa pro lado dele também não estava boa, pois já apresentava visíveis sinais de cansaço. Teté teve que se desdobrar para atender ao ciclista e ao Zé Gomes. Já tinha gente apostando que o Zé Gomes entregaria os pontos primeiro.

Próximo das 18 horas o público já tinha lotado a praça e, por mais incrível que pudesse parecer, o ciclista ainda estava "vivo". Tinha, é certo, um sorriso nos lábios que mais parecia um sorriso de enfartado. Os olhos só enxergavam por uma pequena fresta, acho até que já nem piscavam mais, com receio de não abrir. O público então, reconhecendo o esforço do ciclista e, por que não, do Zé Gomes, começou a bater palmas e a fazer o maior barulho, o que deu ânimo aos protagonistas.

Finalmente as 24 horas foram cumpridas e o desafio vencido pelo ciclista. No serviço de som da Difusora Calçadense, do Sr Jair Melo, ouvia-se a Ave Maria, de Gonot. As autoridades subiram no coreto, fizeram discursos elogiando o ciclista, entregaram uma medalha de Honra ao Mérito e o Prefeito Municipal pagou o merecido prêmio. De volta à Pensão do "seu" Tiná, o ciclista foi recebido como herói. Dormiu o resto da noite e só foi acordar na tarde do outro dia. Fez um lanche rápido, arrumou as mochilas e foi embora.

Depois desse dia nunca mais tive notícias do ciclista. Calçado era assim, aparecia e desaparecia figuras que não sabíamos de onde vinham e nem para onde iriam, mas que acabavam ficando na nossa lembrança!



GILBERTO VIEIRA DE REZENDE( Juquita )
calcadense@bol.com.br


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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