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De volta à ponte do ribeirão 

   
   No final da minha rua, lá pelos idos da infância onde a saudade fuça as lembranças da gente, havia um descampado onde todos os anos se armavam circos e parques de diversão. Era a alegria da garotada e dos adultos também, que pouco tinham de opção a não ser o velho rádio de um ou outro vizinho mais próximo. Como o "filho do meio", entre os doze de meus pais, eu era imprensado pelas criancices dos mais novos e pela seriedade dos mais velhos. Era dois anos mais velho para baixo e dois anos mais novo para cima. Talvez por isso tenha desenvolvido uma capacidade de ficar alheio à realidade, inventar coisas e viver no mundo da lua, enquanto sonhava em ser escritor. Aliás, escrever pequenas bobagens e ler todos os livros da biblioteca da escola eram as únicas coisas que eu levava a sério. Sonhar com bailarinas de circo também ...

   Se bem me lembro, esses sonhos começaram e terminaram na semana em que o "Circo Teatro Garcia", chegou à cidade. Ele era um dos mais famosos dos que se atreviam a armar suas lonas numa cidade do interior capixaba, se dando ainda ao luxo de montar um pequeno parque de diversão anexo. Bem ao estilo americano, suas lonas eram entremeadas com mais dois ou três matizes de cores, além do bege tradicional. Um padrão bem cafona e exagerado, mas que aos olhos de uma criança enchia a alma de alegria e sonhos que o acompanhariam pela vida afora. E aquele cantinho de minha rua se vestia de gala ao começarem as sessões noturnas, quando centenas de lâmpadas, dependuradas a partir do alto do mastro central, eram acesas de uma só vez. Era um festival de luzes e encantamento, difíceis de se apagar da memória.

   Quando começava a rodar a "maxambomba", que algumas pessoas chamavam de "circo de cavalinhos", a criançada ia ao delírio com os pôneis de madeira colorida, que pareciam querer voar. A roda-gigante iluminada, flutuando no ar com mil cores, lembrava as espaçonaves das histórias em quadrinhos. Mas o vai e vem dos balanços em forma de canoas fazia muita gente vomitar. Enquanto isso, uma troupe de palhaços e malabaristas recepcionava a multidão na entrada do circo, aumentando ainda mais a magia que impregnava o ar. Essas pessoas, vindas de todas as partes, aos poucos iam chegando e ocupando os espaços entre as barraquinhas de tiro-ao-alvo, roletas "pinguelim", jogos de caipira, "sisplandi", cachorro-quente e algodão-doce. Outras formavam grandes filas em frente às bilheterias, para comprar as entradas.

   E no dia de sua chegada, as paredes de Calçado apareceram cobertas de cartazes, anunciando a estréia e mostrando, numa grande foto colorida, a estrela maior do circo: uma linda moça em trajes de trapezista., que naqueles tempos ainda não estávamos acostumados. Era bem jovem e anunciada também como atriz das peças de teatro da companhia. Foi uma paixão fulminante de me deixar babando debaixo dos cartazes. Mas logo, como um balde de água fria despejado na cabeça, descobri que ela, além de ser a estrela, era casada com o filho do dono do circo, e que já estavam morando numa casa da minha rua, ao lado da sede da banda de música do seu Elpídio. O golpe foi tão grande que nem sai para acompanhar o palhaço na perna-de-pau, que percorria as ruas da cidade com aquele monte de meninos fazendo refrão para sua música: "O palhaço, o que é? É ladrão de mulher."

   Curioso como sempre, naquela semana em que haveria a estréia no sábado à noite, comecei a rondar a casa deles para ver como eram os artistas na intimidade, fora das lonas do circo. Uma curiosidade boba, mas que aguçava minhas fantasias de um dia também ser artista. E na quinta-feira, da varanda da sede da banda, bem próximo à janela da casa, tive o maior susto. Mesmo sem vê-los pude ouvir o som de tapas e gritos vindos de dentro da casa. O casal brigava, gritando como eu nunca tinha ouvido em minha vida. Nem minha mãe, quando meu velho pai chegava tarde da noite sem uma boa explicação para dar. Só me restou fugir para o fundo do quintal, com medo de que eles me pegassem em flagrante assistindo à briga.

   Ainda escondido, mas na espreita, vi que o falatório, agora sem os tapas, durou um bom período daquela tarde. E logo me tomei de amores pela bela moça, e fiz, em segredo, mil juras de amor e promessas de tirá-la daquela vida e daquele marido ingrato que a maltratava tanto. Minha agonia maior era não poder vê-la como a rainha dos trapézios ou estrelando as peças de sábado à noite, quando as sessões eram proibidas para crianças da minha idade. Só me restou mesmo continuar namorando-a através dos cartazes que anunciavam sua estréia como a estrela maior do circo. Ela era linda com aquelas roupas de trapezista e várias vezes, em meus delírios de apaixonado, poderia jurar que ela olhava só para mim e, até, piscava um dos olhos com malícia. Teria de dar um jeito de vê-la e qualquer risco valeria a pena.

   Durante todo aquele dia e no dia seguinte, véspera da estréia, rondei a casa deles, principalmente quando o "malvado" saía para ver o andamento da montagem da lona e cuidar de outros afazeres. O sem vergonha até que tinha uma cara simpática, mas quem diria que ele era capaz daquelas atrocidades? Passava por mim no alpendre da varanda e até me cumprimentava, com a cara mais lambida do mundo. Numa dessas oportunidades, arriscando de ser descoberto, flagrei a pobre moça ensaiando um número de dança na sala. Vestida de bailarina ela ficava ainda mais bonita. E sua dança era leve como a de um passarinho, fazendo volteios no ar feito um beija-flor. O estranho é que ela sorria, como se nada tivesse acontecido no dia anterior, durante a sessão de tapas e palavrões.

   Eu fiquei ainda mais deslumbrado pela trapezista, que agora eu sabia ser dançarina também. E no meu deslumbramento nem vi que ela percebeu que eu estava espiando escondido. Mas ao invés de fechar a janela, ela me deu foi um grande sorriso, que me fez ainda mais apaixonado. Sai correndo e fui parar numa pracinha bem longe da rua, onde sentei num banco e me pus a pensar nela. Mas depois eu voltei, não mais para o lugar anterior no alpendre da varanda da banda, mas dando longos passeios, feito um bobo, na frente de sua casa. Pelo menos por duas vezes ela me cumprimentou de sua janela, talvez me reconhecendo como o menino que assistiu ao seu ensaio de dança. Mas, na minha cabeça era por paixão também. Eu era correspondido ...

   Podia até parecer criancice minha, mas naqueles tempos havia muitos casos de mocinhas, bem mais velhas do que eu, que também sonhavam em fugir com o circo, atrás de trapezistas ou até mesmo de palhaços, que, não sei por que, tinham fama de ladrões de mulheres. Outras sonhavam, inspiradas em folhetins para adolescentes da época, em fugir com alguns dos ciganos de olhos verdes que acampavam, de tempos em tempos, nos arredores da cidade. Eram pessoas estranhas que dormiam em tendas e fabricavam tachos para vender. Tinham também fama de ladrões de cavalo, mas não me lembro de nenhum que tenha sido preso por causa disso. Ou eram muito espertos, ou era tudo mentira para afastá-los da cidade

   Essa minha fantasia por bailarinas era bem antiga, desde quando vi uma na casa da dona Mercês Garcia, numa "caixinha de música" que ela havia trazido de uma viagem à França. A caixinha tinha um mecanismo que lhe dava corda e a fazia dançar ao som de uma música francesa muito conhecida na época, cantada pela Edith Piaf. Dona Mercês, que era a diretora do Colégio de Calçado, tinha uma verdadeira paixão pela França e, enquanto encerava os tacos do assoalho de sua casa, eu parava para me deliciar com a pequena bailarina dançando na caixinha aberta em cima de um dos móveis da sala de visitas. E agora eu conhecia uma de carne e osso - mais carne do que osso - que por uns breves minutos, que me pareceram uma eternidade, dançara para mim. Era a verdadeira visão do paraíso ...

   No dia da estréia do circo, meus problemas começaram logo na matinê do sábado à tarde. Meu pai, que fizera as ligações elétricas do circo, ganhara entradas para toda a família naquele final de semana, tanto para as matinês quanto para as sessões noturnas. Mas, a bailarina não se apresentava nas matinês e eu queria vê-la ardentemente se equilibrando nos trapézios. E o pior é que eu fui barrado pelo porteiro, que também era o dono do circo, quando meu pai me levou, juntamente com outros três irmão menores. Eu tinha o cabelo muito enrolado e a pela muito morena, queimada pelo sol em minhas constantes aventuras ao ar livre. E no meio da discussão eu ouvi o dono do circo dizer que eu não era filho dele. Meu pai argumentou sorrindo e eu acabei entrando assim mesmo, mas aquela história de não ser filho dele me abateu muito.

   Eu agora, além da paixão secreta pela trapezista sofredora, também amargava em silêncio a dúvida de ser filho adotivo. Era muita carga para o meu caminhãozinho de pouco mais de 10 anos de idade. Depois da sessão da matinê, que não achei a menor graça, passei o resto da tarde curtindo a maior fossa em dose dupla: pela impossibilidade de ver minha amada em cena e aquela repentina "orfandade". Ao pensar em fugir de casa e "ganhar" o mundo, uma outra idéia me ocorreu: tinha de vê-la, nem que fosse pela última vez. Alguns colegas maiores, depois de iniciada a sessão, conseguiam entrar no circo por debaixo da lona. Mas ficava mais fácil do meio da sessão para frente. Não veria os números de trapézio, mas veria a peça teatral tão esperada por todos. E com um risco menor, o que era mais importante.

   Fiquei no maior nervosismo, vendo o tempo passar sentado na calçada da casa do seu Arlindo Cabuqueiro, onde todos tinham ido assistir à sessão, e que ficava bem no meio do circo, no lado contrário à bilheteria e à entrada. Lugar ideal para burlar a segurança. Alguns meninos mais apressados tinham tentado entrar, mas foram surpreendidos pelos vigias que faziam a ronda do lado de fora. Anunciada a hora da peça, depois do vozeirão do dono do circo saudando o "respeitável público"', aproveitei que não tinha ninguém por perto, atravessei a cerca de arame farpado e vazei por debaixo do pano. Depois fiquei por alguns minutos debaixo das arquibancadas que estavam lotadas. Procurei um local que tivesse um lugar para sentar e deslizei como uma cobra por cima da tábua. As cortinas já estavam sendo abertas.

   Deslumbramento maior eu nunca tinha sentido, quando ela apareceu em cena cuidando dos afazeres de uma sala, conforme mandava o "script" da peça. Estava ainda mais bonita que quando a surpreendi em sua casa, vestida de bailarina e fazendo aquelas coreografias só para mim. E quase tentei reagir quando entrou em cena o ator que representava seu marido na peça. "Era o mesmo, era o seu próprio marido na vida real", pensei indignado. Depois eu não entendi mais nada quando ele a esbofeteou no rosto e trocaram as mesmas palavras rudes que eu tinha ouvido sair pela janela da casa deles, lá na minha rua. Alguma coisa estava errada, principalmente quando no final da peça os dois se abraçaram e se beijaram ardentemente em cena aberta. Só então entendi que naquele dia os desgraçados estavam apenas ensaiando a peça. Maldição ...

   Apesar de ter pouco mais de 10 anos de idade, eu me senti o maior idiota do mundo, o próprio Dom Quixote cortejando sua amada e atrás de um sonho impossível, enquanto duelava com os moinhos de vento. Queria salvar minha amada do dragão da maldade e quase passo o maior vexame. Nem esperei o final da sessão, tampouco me importei com a cara de espanto do porteiro quando passei por ele. E minha cara de idiota não deve ter passado despercebida por todos que, às pressas, fui trombando na saída, louco para me ver longe dali o mais rápido possível. Estava me sentindo como um dos personagens de uma outra peça que vi mais tarde, "Inocêncio quer girafa", em suas falas finais: "E o nosso herói que não era bom da cabeça, matou a princesa e se casou o dragão".

   Depois daquela minha primeira desilusão amorosa, assumi meu lado criança e voltei para os brinquedos com os outros meninos da rua, que tinham a minha idade e não se metiam em aventuras maiores que suas pernas infantis. Estava na moda o jogo de peteca, feito com palhas de espiga de milho, que a gente arranjava nas fazendas mais próximas. A brincadeira já estava quase fora de época, mas logo viria a moda dos jogos de pião, das balebas e das pipas. E assim, de brinquedo em brinquedo, fui deixando também para trás minha infância, junto com as fantasias e as ilusões com trapezistas e bailarinas de circo, ingratas e com sorrisos traiçoeiros.

Pedro Teixiera
pedroteixeira.online@bol.com.br

 

 


 

 

 

 

 

 

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