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Neste
exato momento, muita gente está precisando receber sangue
para poder continuar vivendo. Como o sangue só pode ser
produzido pelo organismo humano, exerça sua cidadania fazendo
uma doação de sangue. É simples, não
dói, não vicia, não engorda, não afina
e nem engrossa o sangue, é seguro e pode salvar muitas
vidas.
Os
Gregos, em priscas eras, já utilizavam o sangue como fortificante
de seus bravos guerreiros. Conta a História que o Papa
Inocêncio VII, no ano de 1492, já se encontrava muito
doente quando levaram até ele 3 jovens sadios de corpo
e alma, para fazer uma transfusão de sangue. O Papa morreu
com muita febre, após a transfusão de sangue do
segundo jovem. Da tranfusão do primeiro jovem, o Papa apresentou
pequena melhora, mas o jovem morreu por falta de sangue ( doou
sangue demais ). O terceiro jovem, rapaz de sorte, escapou da
morte porque o Papa havia morrido antes. Mas estes fatos aconteceram
a muitos anos passados, quando não se conhecia cientificamente
o nosso sangue. Hoje, os procedimentos são totalmente seguros
e os tipos de sangue devidamente estudados e catalogados.
Me
recordo de, ainda estudante de Engenharia no Rio de Janeiro, ter
presenciado um ato de cidadania do meu irmão Saragaia.
Era um sábado e teríamos aula durante toda a manhã.
No intervalo da terceira para a quarta aula, nos encontramos no
saguão da Faculdade. Uma equipe de estagiários de
um hospital da capital, não me recordo o nome agora, estava
fazendo campanha de doação de sangue junto às
Instituições de Ensino Superior. Traziam vários
folhetos explicativos de como era feita a coleta de sangue, os
tipos de sangue e como aquela doação poderia salvar
vidas.
Achei
o Saragaia devéras interessado naquele ato de doar sangue,
mas não atentei pelo fato de que a atenção
do Saragaia estava voltada para outro lugar. Entre duas colunas
existentes no saguão, foi colocada uma mesa forrada com
um lençol branco. Sobre a mesa estavam dispostos vários
jarros com sucos de laranja e caju. Numa das cabeceiras da mesa,
em destaque, uma pilha de sanduiches de presunto com queijo, muito
bem embalados
Depois
de se mostrar "interessado" na doação
de sangue, lendo todos os folhetos explicativos que se encontravam
no local, Saragaia pergunta a uma das estagiárias de medicina
o porquê da mesa de sucos e sanduiches. Foi explicado que,
para ajudar o organismo na reposição do sangue doado,
cada doador recebia um sanduiche e um copo de suco. Saragaia não
teve dúvidas, aquela campanha teria todo o seu apoio.
Fazendo
algumas abstrações econômicas, Saragaia concluiu
que o sangue que o organismo dele produzia tinha um custo baixíssimo
por litro, se comparado ao preço do sanduiche de presunto
e queijo e mais um copo de suco. Acrescentando a essa conta, que
já lhe era bastante favorável, a economia que a
eliminação de um almoço no self-serviçe
lhe proporcinaria, o negócio, economicamente falando, era
muito bom.
Em
média, de cada doador são retirados de 380 à
450 ml de sangue, que ficam muito bem acondicionados em uma bolsa
plástica e guardada em geladeira, após análise
sorológica e classificação. Como em nosso
corpo circula, em média, 6,5 litros de sangue, a quantidade
doada é facilmente resposta pela produção
da medúla óssea, nossa principal fábrica
de sangue.
Ia
começar a quarta aula. Chamei o Saragaia e ele disse que
não iria assistir aula de OSPB ( Organização
Social e Política do Brasil ), preferindo ficar alí
e doar um pouco do seu sangue. Ao término da aula, cheguei
no saguão e encontrei o Saragaia acabando do tomar o suco
de caju. Já havia doado sangue e, também, se servido
do sanduiche.
Naquele
tempo todo que o Saragaia havia ficado observando os estudantes
de medicina colher sangue, viu que não era possível
fazer nova doação, caso fosse vontade do doador.
Mas ele havia percebido, também, que as equipes se revesavam.
O negócio era esperar a realização de mais
uma troca das equipes de estagiários para, então,
doar mais sangue e..., bem, o resto é conseqüência.
Nem
perdi meu tempo chamando-o para irmos almoçar e, depois,
caminharmos até o apartamento, coisa que ele gostava, pois
achava um absurdo gastar dinheiro com ônibus. Diga-se de
passagem que, andar da rua Ibituruna até a rua Silva Teles,
na Tijuca, era uma caminhada com C maiúsculo.
Cheguei
no apartamento, tomei um banho, almocei e tirei um cochilo. Já
quase no final da tarde, estava me preparando para ir a Niterói,
quando chega o Saragaia. Estava branco, suando frio, a boca seca,
coração disparado e quase sem fôlego. Perguntei
o que tinha acontecido e ele só fez um sinal para esperar
e sentou no sofa. Antes de sentar, porém, deixou sobre
a mesa uma sacola de supermercado.
Passado
alguns minutos de descanço, Saragaia começou a contar
o que havia acontecido. Depois que doou sangue pela segunda vez,
ele esperou outra troca de equipe e doou uma terceira vez. Não
satisfeito com aqueles 3 saquinhos de sangue doado, que pela coloração
e viscosidade, podia perceber que era de muito boa qualidade,
resolveu tentar uma quarta vez. Mais uma troca de equipe e lá
estava o Saragaia prostado na cadeira, enchendo mais um saquinho
de sangue. Entretanto, por um esquecimento da estagiária
que coordenava as tarefas, após encher a bolsa de sangue,
ao invés de tirar o tubo, trocou-se simplesmente a bolsa
cheia por outra vazia. E aí mais uns 450 ml de sangue sairam
sem o consentimento do Saragaia.
Resumindo
o problema. Saragaia levantou da cadeira e, num primeiro momento,
a vista escureceu e uma certa tonteira quase o levou de volta
a cadeira. A estagiária vendo a fraqueza do doador, serve
um copo extra de suco de laranja. Com uma melhora passageira do
seu estado geral, resolveu tomar rumo de casa. Foi a pé,
como de costume.
No
meio do caminho o bicho pegou. Com as vistas fraquejando igual
lâmpada de 220Volts ligadas em rede elétrica de 127Volts,
o coração batendo rápido e descompassado
igual bumbo na mão de bêbado em época de carnaval
e, para completar, suando frio sob um sol de 40 graus, Saragaia
viu a vó pela greta. Chegou em casa graças à
boa noção que tinha do caminho que percorria, todos
os dias e a pé, da Faculdade até a rua Silva Teles.
Alguns
minutos após ter chegado no apartamento e me dito, em poucas
palavras, o que havia acontecido, Saragaia deitou sobre a cama.
Dormiu o resto do sábado e só foi acordar ao meio-dia
de domingo. Antes, porém, de cair em sono profundo, Saragaia
pediu que guardasse na geladeira o conteúdo da sacola de
supermercado. Abri a sacola e retirei 4 sanduiches de presunto
com queijo e os coloquei na geladeira.
No
total, Saragaia serviu-se de 6 copos de suco, sendo um extra,
devido à tonteira após a última doação;
comeu um sanduiche e trouxe mais quatro sanduiches na sacola.
Em compensação, devia estar uns 2,5 Kg mais magro,
devido a retirada de aproximadamente 2.250 ml de sangue ( 2,25
litros ).
Saragaia
até que se recuperou bem no final de semana. No domingo,
à noite, até me fez uma proposta. Ofereceu a metade
do último sanduiche de presunto com queijo, pois já
se sentia empanturrado de tanto sanduiche, em troca de um copo
do meu refrigerante. Aceitei.
Bom,
mas e agora, onde entra o Fome Zero nesta história? Somos
um país, segundo as estatísticas oficias do governo,
constituído de milhões de pessoas vivendo abaixo
da linha da pobreza, com renda per capita de menos de R$2,00/dia.
Esse contingente de miseráveis só engordam as estatísticas
da fome, da desnutrição e das mortes de crianças
com menos de 1 ano de vida. Pensando somente em resolver essa
mazela brasileira e fazer com que o Programa Fome Zero deslanche
de vez, quem sabe se o Governo, num surto criativo de marketing,
criasse a Vampirobrás, uma estatal sanguinária,
não conseguiria, de uma vez por todas, eliminar os miseráveis
e acabar com a fome de milhões?
A
propaganda, que é a alma do negócio, ajudaria na
rápida aceitação da população
a se enganjar na campanha patrocinada pela estatal Vampirobrás.
Veja alguns exemplos:
-
Doe seu sangue e receba uma cesta básica de alimentos,
incrementada com sanduiche de presunto e queijo e uma caixa de
suco de laranja. ( Essa seria uma das propagandas ).
-
VAMPIROBRÁS, ela tira seu sangue, mas mata, também,
sua fome. ( Outra propaganda ).
-
Não existe sangue ruim, sangue fraco ou sangue "ralim".
A Vampirobras vai até você, não importa o
seu miserê. ( Um jingle da campanha ).
-
Fome Zero, Sangue, ídem. ( Slogan da campanha ).
Em
pouco tempo a VampiroBras estaria exportando sangue e seus derivados
para vários paises. Quiçá, se transformaria
numa multinacional e remeteria seus lucros para o Brasil, onde
seriam aplicados em políticas sociais para os poucos miseráveis
que ainda existissem, ante a morte de milhões de doadores
que, ávidos por alimentação, extrapolaram
na imitação da doação feita pelo Saragaia.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br
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