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O
libanês Kalil Gibran, que herdou a onda esotérica
do indiano J. Krishnamurt nos anos 60 (e que nos deu a geração
Paulo Coelho), em um de seus mais belos trabalhos afirmava, falando
para um pai que lhe pedia conselhos, que "seus filhos não
seus filhos, mas filhos do mundo." Ele queria dizer com isso
que as denominações pai/filho, irmão/irmã,
avô/neto e etc., não passam de meros instrumentos
da irmandade universal, uma forma organizada do relacionamento
terreno.
O próprio Jesus Cristo deixou isso bem
claro em várias passagens do Novo Testamento, principalmente
quando afirmava que éramos todos irmãos perante
"Seu Pai". Para Ele, aos olhos de Deus, essa "organização"
terrena não tinha o menor sentido no contexto da Criação
Divina. Num trecho do evangelho ele confirma essa premissa, quando
alguém lhe diz que sua mãe o aguardava do lado de
fora da casa onde pregava. E nós, criaturas pequenas, dividimos
ainda mais o mundo, em classes sociais, cores genéticas,
etnias e credos religiosos.
O último recenseamento mostrou que a
média de filhos por casal, no Brasil, já está
próxima de dois ou três. Mas a tendência é
que os programas de planejamento familiar diminua, a médio
prazo essa estatística. Na China já é proibido
ter mais de um filho e nos países do primeiro mundo, essa
média caminha para um único filho por casal, o que
está previsto para acontecer ainda no Século XXI.
Alguém já parou para pensar o que acarretará
essa transformação no relacionamento familiar? Como
será a estrutura de uma família lá pelo final
do atual século, que já domina o Genoma Humano e
caminha a passos largos para a clonagem de seres humanos, depois
de dominar a clonagem de vegetais e de animais?
Se, no futuro, todos tiverem apenas um filho
(fora os casos de infertilidade), findas as atuais gerações,
ninguém mais terá parentes laterais, como tios e
primos e, consequentemente, sobrinhos. Curiosamente, a figura
da tradicional "tia" do ensino primário será
coisa de um passado bem remoto e fora de moda, assim como nenhuma
moça vai ter que se preocupar em ficar para "titia",
caso não arranje casamento. Num mundo de "filhos únicos"
como regra geral, todos terão apenas bisavós, avós
e pais. Será o fim, também, dos tais parentes consangüíneos
de segundo e terceiro graus.
Isto significa que, afora a cadeia familiar
que vai sobrar, o homem ficará só, no que diz respeito
aos laços de parentesco. Numa festinha em família,
por exemplo, uma criança jamais conseguirá reunir
mais do que 6 ou 8 parentes. Num fenômeno de longevidade,
que também está previsto para o Século 21,
ela, talvez, consiga reunir até uma dúzia de parentes.
E como a sociedade reagirá a esta situação,
a esta solidão a que ela não estava acostumada desde
o início da criação do mundo. Adão
e Eva não tinham sogros nem sogras, mas certamente que
tiveram filhos para fazer-lhes companhia.
... E só restarão os amigos e os vizinhos,
a quem chamaremos de irmãos, como sempre pregou os ensinamentos
de Cristo, que na certa, do alto de sua Santidade como Espírito
Maior, já tinha previsto para o futuro da humanidade. Talvez
seja o início de uma grande fraternidade, uma nova irmandade
não compulsória, mas escolhida por cada um, onde
os laços consangüíneos não terão
a menor importância na imensa solidão do universo.
Quem sabe assim, cheguemos à grande verdade de que, realmente,
todos somos irmãos perante Deus. O que nunca foi novidade
para os homens de boa vontade.
Pedro Teixiera
pedroteixeira.online@bol.com.br

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