ENCONTRO COM O DIABO


Conforme eu aprendi, Deus, Jesus Cristo não, o outro, o velho barbudo que navega pelo mundo montado numa nuvem, o pai, o todo poderoso, o espírito perfeitíssimo que criou o céu e a terra e tudo o mais, que trabalhou sete dias e sete noites e depois descansou, aquele que vive lá no céu cercado de anjos e arcanjos, foi ele também quem criou o diabo. Aliás, parece que não foi bem assim, a intenção era outra, supõe-se que houve um acidente de trabalho, ou uma falha de projeto, e as coisas fugiram de controle. O diabo foi criado como um anjo, dos mais bonitos, e vivia na corte celestial, entre os outros anjos, gozando de todas as delícias e regalias. Seu nome era Lúcifer, que quer dizer anjo da luz. Era tão bonito que se encheu de vaidade e de orgulho e se revoltou contra o seu criador, contra Deus, e daí foi expulso do céu e condenado a morar no inferno. E desde então, nós, os pobres terrestres, que vivíamos aqui na terra tão tranqüilos, aqui na terra não, no paraíso, e que não tínhamos nada a ver com o peixe, nunca mais tivemos sossego. Pois a missão que ele se atribuiu desde então foi nos tentar, nos fazer cair em pecado, e com isso nos levar para o inferno para lhe fazer companhia.

Eu sempre fui muito revoltado com Adão e Eva, principalmente com esta, pois foi ela a principal responsável pela nossa expulsão do paraíso. Eles viviam tão bem, pelados, inocentes, no meio de tudo que era bicho, todos mansos, ninguém comia ninguém, nem brigavam entre si, no meio das árvores, muita sombra e muitas frutas, água fresca, na santa paz, não tinham que trabalhar, e o mais importante é que não ficavam doentes, não morriam, eram eternos. Mas, na verdade, pensando bem, eu que conheço gente gulosa, e sei da dificuldade de se resistir a uma boa guloseima, penso que talvez Eva tenha sido apenas fraca, gulosa, queria comer uma maçã, cujo gosto não conhecia, e ela era inocente e não tinha muita noção do que estava fazendo, não sabia dos terríveis castigos que poderiam advir em desobedecer ao Criador e provar do fruto proibido. O grande responsável foi mesmo o diabo, pois ele sabia de tudo, malvado, terrível, apareceu como uma cobra inocente e, com uma boa conversa, levou Eva ao pecado, foi, portanto, o responsável último pela nossa desgraça.

E a nossa luta contra o diabo é antiga, vem desde os tempos imemoriais, ou talvez desde todo o sempre, e ele aparece com muitos nomes: diabo, demônio, capeta, satanás, lúcifer, belzebu, trem-ruim, tinhoso, anticristo, príncipe das trevas, e outros nomes que não me lembram agora. Também não temos certeza de que existe apenas um diabo, talvez eles sejam muitos, cada um com seu nome particular. Quando Deus expulsou Lúcifer do céu, não temos certeza de que ele estava sozinho, é bem possível que houvesse outros companheiros com ele, anjos revoltosos, pois normalmente, como sabemos, esses movimentos de revolta só adquirem peso, alguma importância, e são coibidos, depois que aparece um grupo maior. E temos que considerar ainda que, à medida que o tempo passa, e que o diabo vai conseguindo sucesso em nosso meio, e levando mais gente para o inferno, cada um que vai, quem sabe não se transforma em um novo diabo, engrossando a população dos diabos. É uma questão que permanece em aberto, a gente nunca sabe direito, essas coisas não são bem esclarecidas. Assim, podemos imaginar uma hierarquia entre os diabos. Se a missão é importante e depende de coragem e ousadia, vai o chefe, o próprio Lúcifer, cujo apelido é diabo; se depende de inteligência e arte, vai o demônio que é o mais sabido e o mais manhoso entre eles; se é uma missão menos importante, de segunda categoria, pode ser atribuída a um diabinho qualquer, mais humilde, e nesse caso estão disponíveis o trem-ruim e o tinhoso. Para tarefas no interior, na roça, entre os matutos, sempre quem age é o capeta. Belzebu, satanás e o príncipe das trevas são outros nomes do próprio Lúcifer, nomes bíblicos, pouco usados no dia a dia das missões corriqueiras, e um tanto fora de moda.

Uma característica do diabo, pelo menos exibida em muitos retratos, é que ele tem chifres e rabo, e carrega um tridente. Pelo que eu sempre entendi, com esse tridente ele empurra de volta ao fogo as pessoas, ou as almas, que estão queimando no inferno e em desespero tentam escapar. Mas com essa fisionomia, munido de chifres, rabo e tridente, só aparecia antigamente, principalmente na época da Idade Média. Nos últimos tempos, vivo como é, parece que percebeu que esses utensílios chamam muito a atenção e condenam sua presença, o que não é conveniente para quem gosta de agir sorrateiramente, na traição, por trás dos bastidores.

Uma coisa de que não tenho dúvida é que o diabo é preto e gosta de escuridão. Apesar de ser muito esperto, e estar sempre tentando nos enganar, aparecendo nas formas e cores as mais variadas, na verdade, muitas e muitas vezes, ele se condena e aparece como realmente é, negro, preto, um gato preto, uma galinha preta, um cachorro preto, ou um outro bicho preto qualquer. Para mim, ele apareceu como uma mulher preta, uma negrinha, aliás não era bem uma negrinha, era uma mulher miúda, de meia idade, preta, cabelos de pixaim com trancinhas que pareciam chifres. Isto ocorreu no caminho do Jacá, próximo de uma das cruzes.

Como sabemos há três cruzes nesse caminho, a primeira é a do Pedro Máximo, um homem assassinado de tocaia no início do século passado, que fica à esquerda de quem vem para Calçado, logo depois da então propriedade do falecido Santinho Ferreira. A outra é a Cruz dos Dois Irmãos, onde consta que um matou o outro e o outro matou o um, morrendo os dois; e a terceira é esta onde eu vi o diabo. As cruzes na beira da estrada nos lembram sempre coisas tristes, locais de desgraças, onde morreu alguém, de acidente ou mais provavelmente de assassinato. Por isso a gente tem sempre muito respeito por esses locais, muda-se de postura quando se passa em frente, tira o chapéu, se benze, fica internamente compungido e sente que ali o tinhoso agiu um dia com sucesso, e é bem possível que ainda ande rondando a área.

Pois eu ia para o Jacá a pé, num dia claro, quando olhei e vi aquela preta bem próxima à cruz, me olhando, os olhos esbugalhados, uma coisa de fazer medo. Desviei os meus olhos daqueles olhos que queimavam e fui em frente, apressei a passada, fingi que não era comigo. Mais na frente veio a coragem, virei a cabeça e dei uma olhadela rápida para trás, os olhos continuavam esbugalhados pregados em mim, me acompanhando. Olhei para a frente de novo e apressei o passo mais uma vez, porém não tive coragem de correr, sei lá, o melhor nesses momentos é fingir tranqüilidade. Lá na frente, quando a estrada fazia uma curva, que eu vi que ia sair da vista dela, olhei de novo. Novamente dei com aqueles olhos terríveis em cima de mim. Completei a curva e saí correndo numa disparada. Desde então nunca tive dúvida que aquele era o demônio, em um de seus disfarces. Felizmente jamais o vi de novo, mas a partir de então, por muitos anos, sempre que passava pelo local, mesmo sem querer, disfarçadamente procurava-o com a vista.

Uma das missões mais árduas, e sem sucesso, que o diabo já tentou realizar até hoje foi em Jericó, na Judéia, quando teve a petulância de se aproximar do próprio filho de Deus, Jesus Cristo. Nesta ocasião, de acordo com os registros, creio que veio o próprio Lúcifer, com o pomposo nome de Satanás. Mas ele devia saber das dificuldades e estava apenas jogando, tentando se aproveitar de uma situação bastante particular, pois Jesus, não obstante seus poderes e sua força, estava muito fraco, passara quarenta dias jejuando e orando no deserto.

O diabo nos aparece a toda hora sem que a gente nem desconfie, mas com freqüência podemos muitas vezes senti-lo dentro de nós mesmos, em luta com nosso anjo da guarda. Veja o caso dos pecados capitais. A gula, "não coma tanto assim, seja moderado, controle-se, deixe também um pouco para os outros, isso engorda e pode fazer mal" diz o anjo, o diabo retruca "deixe de ser besta, aproveite, a vida é curta, e se depois não tiver mais, que se danem os outros". E nós ficamos naquela indecisão, pendendo ora para um lado, ora para o outro. Com a preguiça é a mesma coisa, enquanto o anjo nos anima a trabalhar e a ser útil à coletividade, o diabo vem com aquela conversa de que a vida é curta, temos que aproveitá-la, etc. E igualmente com outros pecados.
E quando o danado resolve possuir alguém, entrar no corpo de um infeliz e fazer suas estripulias?

Ainda bem que para esses casos existem os exorcistas, pessoas treinadas, com curso de especialização, para reconhecer e combater os demônios. É uma situação horrorosa, veja-se por exemplo o filme, cujo nome é "O Exorcista", em que ele entra no corpo de uma menina e dá um trabalhão para sair, tendo sido necessário muita reza, muita benzeção, água benta, santos óleos, oblações, etc., e finalmente mortes. De qualquer forma, por sorte, os exorcistas em geral resolvem os problemas satisfatoriamente. O mais famoso deles, de que se tem notícias, parece que foi o próprio Jesus Cristo, que andou expulsando os demônios dos corpos de várias pessoas em seu tempo, como por exemplo naquele caso dos porcos que ao deixarem o infeliz correram doidos para as águas do Mar da Galiléia e se afogaram.

Normalmente os exorcistas são padres e eu pessoalmente conheci um deles que já tinha combatido muitos demônios. Foi pároco em Calçado na década de quarenta, pessoa amiga mas um pouco temperamental, de quem gostávamos muito. Segundo contava, nas aulas de Catecismo ou mesmo nos intervalos das de Latim, talvez por ser um exorcista, era muito perseguido pelo diabo, que já lhe aparecera de diversas formas. Numa vez foi como uma praga de pulgas, que lhe invadiram a casa e demoraram a sumir, só o fazendo a poder de muita oração, água benta, benzeduras, etc.. Outra vez foi como um cachorrão preto que entrou na sua casa e tentou lhe enfrentar, arreganhando os dentes. Com a experiência que tinha logo reconheceu o diabo, que foi expulso com um crucifixo e o sinal da cruz. Ele reconheceu o demônio também num mulato alto e forte que o interceptou quando se deslocava à noite para casa após a ladainha, também meteu-lhe o crucifixo e o bicho correu.

Entretanto, nunca deixou de afirmar que a luta contra satanás é bastante complicada, ganhamos uma batalha aqui, outra ali, mas a guerra sempre continua e nunca conseguimos a vitória final, pois ele é muito poderoso e dispõe de enormes recursos. E tem mais, existem alguns tipos resistentes que não são exorcizáveis, sendo difícil lidar com eles.

Ficamos sabendo depois, por outros meios é claro, já que não nos falou a respeito, é que havia um certo tipo especial de diabo que sempre lhe causou grandes transtornos e lhe complicou a vida, tendo sido parece que motivo de sua remoção de mais de uma paróquia, inclusive da nossa, uns tais denominados diabos de saias.


Vila Velha, março de 2004.
João Hertesi

 

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