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A
história do vovô cajá-manga temporão
Aproveitando o domingo de sol, os meninos do Clube da Rua foram
visitar o sítio do avô do Rique, mesmo sabendo que
ele estava viajando. Queriam fazer uma pescaria no lago e, à
noite, ouvir umas histórias do Vô Ludugero. Quem
sabe dessa vez ele contaria a da lenda de "Itabá e
Poaninha", que dizia ter ouvido de seus pais, que também
diziam ter ouvido dos antigos índios de uma aldeia Puri-Coroado
das margens do Rio Itabapoana. Como ninguém sabia a idade
do Vô Ludugero, se era mais de cem ou menos de cem anos,
as histórias dele eram tão antigas que se perdiam
pelos tempos afora, numa época em que os homens viviam
em paz com a natureza e numa terra em que ela ainda era a mãe
de todas as coisas.
Um pombo-correio nascido lá no sítio
já estava a caminho e quando os meninos chegaram, Nhá
Chica, irmã da Donana e casada com o Tio Algodão,
já os esperava com um grande almoço de roça:
ensopado de frango caipira com mandioca, arroz, feijão
e angu mole. Era o favorito de todos. Quer dizer, de quase todos,
pois para o Rodofim ela preparava sempre um bife com batatas fritas
no lugar do frango. Depois eles pescaram a tarde inteira, traíras,
bagres, lambaris e tilápias, soltando quase todos os peixes
de volta ao lago e guardando apenas aqueles que levariam para
casa no dia seguinte. Vovô Pedroca não gostava de
desperdícios. "Deixe que eles fiquem dentro do lago,
se ainda não vão para a panela". É o
que sempre dizia.
À
noite, perto de uma fogueira preparada por Tio Algodão
no terreiro da casa, Vô Ludugero, depois de acender o cachimbo,
olhou para a lua cheia que estava nascendo e fez alguns comentários
demorando o início da história. Era uma forma de
ele puxar da lembrança, detalhes das histórias que
contava. E como que preparando todos para o assunto, falou do
canto da seriema que avisa a chegada da chuva, das libélulas
voando sobre o lago, o que significa boa água, e assim
por diante. Só reclamou uma única vez, ao falar
da natureza, dizendo que até os joões-de-barro não
construíam mais casas nos meses da primavera, preferindo
reformar as antigas. Um exagero dele, é claro, para dizer
o quanto a natureza estava se modificando para enfrentar os maus
tratos dos homens. Só depois começou a contar uma
história.
A do Itabá e Poaninha vai ficar para
outro dia, falou ele depois de uma baforada no cachimbo, o que
causou algumas reclamações dos que queriam ouvir
a tal história. Hoje eu quero contar a história
do cajá-manga de um cajazeiro muito antigo lá da
beira do rio. Por um capricho da natureza, alguns frutos demoram
a crescer e só ficam maduros depois que todos já
foram colhidos. Eles são conhecidos como "temporãos"
e só são diferentes dos outros porque demoram mais
a ficar no ponto de serem apanhados. Assim foi o caso daquele
velho cajá, que nasceu numa primavera, ficou maduro no
verão e assistiu seus irmãos serem colhidos no outono.
Ficou meio espantado mas acabou gostando da idéia de ficar
por último, apesar de se sentir um pouco solitário.
O velho cajazeiro onde ele nasceu passou todo
o final do inverno desfolhado. Quem não o conhecesse diria
que estava morrendo. Suas folhas verdes amarelaram de frio e depois
caíram com os ventos de julho e agosto. Com a chegada da
outra primavera, pequenos brotos anunciavam que ele ia se cobrir
todo de verde outra vez. Se não ventasse muito com as chuvas
de outubro, no verão estaria novamente carregadinho de
frutos. Era um desses raros cajazeiros, que igual aos cajueiros,
ingazeiros, goiabeiras e mangueiras, ainda resistem em alguns
quintais dos arredores. São poucos, mas resistem ao avanço
do progresso que invade terrenos baldios e antigos pomares.
E perdido no meio dos galhos desfolhados, restou
aquele cajá temporão, resistindo ao tempo mesmo
depois de maduro. Na certa a meninada da rua se esquecera dele,
achando que a temporada de frutos tinha chegado ao fim. Ou então
foram atraídos por outras fruteiras de quintais mais distantes.
Mas o fato é que ele ficou ali sozinho, perdido no meio
dos galhos sem que ninguém percebesse. Por estar tão
desfolhado e sem frutos, nem os pássaros pousavam mais
no velho cajazeiro. Talvez não gostassem de árvores
desfolhadas. Só lhe restou a companhia do rio, que passava
a pouco mais de um metro de suas raízes. Mas suas águas,
com as enchentes que já estavam chegando, passavam tão
rápidas que mal dava tempo para uma prosa.
Mas não tinha sido assim no início
do inverno, quando as águas de seu leito baixaram e ficaram
mais lentas a caminho do mar. Aí tiveram tempo bastante
para conversar. Dele, o rio ficou sabendo os mistérios
da vida e da morte de um humilde cajá-manga, desde o nascimento
na primavera até se transformar numa fruta adulta e pronta
para ser colhida. Falou de sua condição estranha
de virar fruto temporão e de tudo mais que sabia.
-
Nós, os frutos, não temos a importância de
um grande rio - disse ele numa noite de muita solidão -
que vem lá das montanhas, percorre uma longa distância
e brinca nas cachoeiras antes de se lançar no mar. Mesmo
depois de tamanha aventura, vira oceano, evapora, vira chuva,
vira orvalho e começa tudo de novo. Eu invejo sua eternidade.
E diante de tanta tristeza, o rio falou das
vantagens de ser um cajá e não ficar eternamente
nascendo e morrendo sem nunca ter fim.
-
Ser apenas um fruto tem lá suas vantagens, amigo cajá.
- Afirmou o rio fazendo com que ele se sentisse melhor. - É
claro que se ficasse para semente seria como um rio, que ao evaporar
vira chuva e cai de novo em suas nascentes, começando tudo
outra vez.
Mas
o velho cajá não se deu por convencido:
-
Nascer de novo? Como? Perdido aqui como estou, ninguém
vai me plantar em outro lugar quando eu cair. Ninguém mais
se preocupa com um velho cajá como eu. Vou apodrecer no
chão e nunca mais ver a passagem das estações
nem as flores de mais uma primavera.
Então
o rio lhe prometeu que cuidaria para que isso acontecesse assim
que chegasse sua hora.
A brotação da primavera cobriu
de novo o cajazeiro de folhas e começaram a nascer os primeiros
frutos. Estranhando aquele cajá grandalhão, amarelado
e cheio de rugas, os cajazinhos verdes que nasciam logo começaram
a chamar o velho cajá de "vovô cajá-manga".
Apesar de estranhar no início, aos poucos ele começou
a gostar do apelido carinhoso e amar a todos como se fossem realmente
seus netos. O importante é que ele passou a ter companhia
e com quem conversar. Se as águas do rio já não
lhe davam atenção, a primavera, como num milagre
da natureza, dava a ele a oportunidade de viver de novo mais uma
estação. Essa era uma das vantagens de se viver
muito e envelhecer, pensava com alegria.
E o vovô cajá-manga temporão
passou toda aquela primavera contando histórias para os
cajazinhos que nasceram. Histórias alegres, como as dos
passarinhos que fizeram ninhos em seu galho, das revoadas das
garças que sobrevoavam o rio todas as tardes, das lontras
e das capivaras que vinham comer os peixes que pescavam junto
às raízes de seu tronco. Sem falar dos colibris
que os beijavam quando ainda eram apenas flores nos galhos do
cajazeiro e nos arco-íris que pintavam o céu nos
dias de chuva com sol. Só ficavam assustados com as histórias
das noites de trovoadas e das tempestades que já tinha
enfrentado, quando vários frutos caíam ainda sem
estar maduros. Mas logo ele os acalmava dizendo que isso fazia
parte da natureza.
- Nascer, viver e morrer é o grande espetáculo
da vida. - Dizia ele com sua experiência.
E numa noite, quando já se aproximava
o verão, o cajá-manga temporão anunciou que
chegara a sua hora de partir e que havia mais algumas coisas que
eles precisavam saber. Foi um momento de muita tristeza entre
os cajazinhos que já estavam quase maduros.
-
Como acontece todos os anos - começou ele a falar - um
de vocês terá de ficar para receber os novos frutos
que nascerão e contar para eles as histórias que
contei durante toda a primavera. Aquelas alegres e felizes e as
mais tristes também. Em todas elas se escondem ensinamentos
que só os anos de experiência nos trazem. Esta é
uma forma de preservar a nossa própria espécie e
de manter as nossas tradições e nossos costumes,
desde que o mundo é mundo e por muito mais tempo ainda.
- Mas não se preocupem - continuou ele
falando - se vivi demais para ver muitas tristezas, também
não tenho do que me queixar. Só o espetáculo
de assistir o sol nascendo em cada manhã e o canto dos
pássaros saudando as primeiras luzes do dia, valeram todos
os sacrifícios. Sintam também essas pequenas alegrias
e outras que a natureza vai brindar vocês pela vida afora.
Só então verão que valeu a pena viver, que
valeu a pena existir nesse mundo de Deus. Mas não se esqueçam
jamais - finalizou o velho vovô cajá-manga - de que
somos todos peças importantes da natureza. De minha parte,
espero apenas cair com o vento da madrugada e cumprir meu destino.
E que aquele dentre vocês ficar para temporão, receba
com alegria a sorte de ver duas primaveras.
E na madrugada seguinte, o velho cajá-manga
caiu como havia previsto. Mas ao contrário do que esperava,
rolou para dentro do rio, o velho amigo de sua pequena existência
e de quem um dia tivera inveja. Com alegria ele o acolheu em suas
águas, para cumprir a promessa de lhe dar a eternidade.
Depois de ir ao fundo, voltou à superfície e, sem
vida, desceu boiando, parando aqui e ali nos pequenos remansos
e nas pedras das cachoeiras. Sempre em direção ao
sol que já aparecia nos confins do vale, ficando cada vez
mais longe do local onde havia nascido. Era como se viajasse em
direção a um outro mundo, um mundo desconhecido
e distante. Mas levava dentro dele, mesmo que já sem vida,
a memória de sua espécie para renascer em outra
existência.
Por fim o rio, numa onda mais forte, o jogou
nas margens onde encontrou terra firme. Dali se despediu dele
depois da longa caminhada. Tinha cumprido a promessa que lhe fizera
e seguiu seu caminho ao encontro do mar. O sol do verão
secou o resto da polpa que os peixes não comeram e fez
dele um caroço ressecado e fértil. No outono começou
a brotar, com pequeninos galhos procurando espaço para
crescer. Com o passar dos anos ele se transformou num cajazeiro
adulto e renovou seu ciclo de vida. Era a eternidade prometida
pelo velho amigo. Na primavera seguinte, brotaram os primeiros
frutos e ele renasceu em um deles, começando tudo de novo.
E ao acordar, foi surpreendido por uma voz que lhe falava:
-
Bem-vindo à vida, amigo cajá-manga! - Era uma gota
d'água de seu amigo rio que tinha se evaporado e caído
no orvalho da manhã.
Pedro
Teixiera
pedroteixeira.online@bol.com.br
Coleção "Sítio da Lontra Assanhada"
Histórias do Vô Ludugero
( 8 a 12 anos de idade )

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