MENU





Sua mensagem


Caso a página não esteja sendo exibida corretamente
instale o plugin  do  flash  no seu computador entrando
no link acima.

Melhor visualizado em resolução 800x600 ou 1024x768


A história do vovô cajá-manga temporão 

    Aproveitando o domingo de sol, os meninos do Clube da Rua foram visitar o sítio do avô do Rique, mesmo sabendo que ele estava viajando. Queriam fazer uma pescaria no lago e, à noite, ouvir umas histórias do Vô Ludugero. Quem sabe dessa vez ele contaria a da lenda de "Itabá e Poaninha", que dizia ter ouvido de seus pais, que também diziam ter ouvido dos antigos índios de uma aldeia Puri-Coroado das margens do Rio Itabapoana. Como ninguém sabia a idade do Vô Ludugero, se era mais de cem ou menos de cem anos, as histórias dele eram tão antigas que se perdiam pelos tempos afora, numa época em que os homens viviam em paz com a natureza e numa terra em que ela ainda era a mãe de todas as coisas.

   Um pombo-correio nascido lá no sítio já estava a caminho e quando os meninos chegaram, Nhá Chica, irmã da Donana e casada com o Tio Algodão, já os esperava com um grande almoço de roça: ensopado de frango caipira com mandioca, arroz, feijão e angu mole. Era o favorito de todos. Quer dizer, de quase todos, pois para o Rodofim ela preparava sempre um bife com batatas fritas no lugar do frango. Depois eles pescaram a tarde inteira, traíras, bagres, lambaris e tilápias, soltando quase todos os peixes de volta ao lago e guardando apenas aqueles que levariam para casa no dia seguinte. Vovô Pedroca não gostava de desperdícios. "Deixe que eles fiquem dentro do lago, se ainda não vão para a panela". É o que sempre dizia.

   À noite, perto de uma fogueira preparada por Tio Algodão no terreiro da casa, Vô Ludugero, depois de acender o cachimbo, olhou para a lua cheia que estava nascendo e fez alguns comentários demorando o início da história. Era uma forma de ele puxar da lembrança, detalhes das histórias que contava. E como que preparando todos para o assunto, falou do canto da seriema que avisa a chegada da chuva, das libélulas voando sobre o lago, o que significa boa água, e assim por diante. Só reclamou uma única vez, ao falar da natureza, dizendo que até os joões-de-barro não construíam mais casas nos meses da primavera, preferindo reformar as antigas. Um exagero dele, é claro, para dizer o quanto a natureza estava se modificando para enfrentar os maus tratos dos homens. Só depois começou a contar uma história.

   A do Itabá e Poaninha vai ficar para outro dia, falou ele depois de uma baforada no cachimbo, o que causou algumas reclamações dos que queriam ouvir a tal história. Hoje eu quero contar a história do cajá-manga de um cajazeiro muito antigo lá da beira do rio. Por um capricho da natureza, alguns frutos demoram a crescer e só ficam maduros depois que todos já foram colhidos. Eles são conhecidos como "temporãos" e só são diferentes dos outros porque demoram mais a ficar no ponto de serem apanhados. Assim foi o caso daquele velho cajá, que nasceu numa primavera, ficou maduro no verão e assistiu seus irmãos serem colhidos no outono. Ficou meio espantado mas acabou gostando da idéia de ficar por último, apesar de se sentir um pouco solitário.

   O velho cajazeiro onde ele nasceu passou todo o final do inverno desfolhado. Quem não o conhecesse diria que estava morrendo. Suas folhas verdes amarelaram de frio e depois caíram com os ventos de julho e agosto. Com a chegada da outra primavera, pequenos brotos anunciavam que ele ia se cobrir todo de verde outra vez. Se não ventasse muito com as chuvas de outubro, no verão estaria novamente carregadinho de frutos. Era um desses raros cajazeiros, que igual aos cajueiros, ingazeiros, goiabeiras e mangueiras, ainda resistem em alguns quintais dos arredores. São poucos, mas resistem ao avanço do progresso que invade terrenos baldios e antigos pomares.

   E perdido no meio dos galhos desfolhados, restou aquele cajá temporão, resistindo ao tempo mesmo depois de maduro. Na certa a meninada da rua se esquecera dele, achando que a temporada de frutos tinha chegado ao fim. Ou então foram atraídos por outras fruteiras de quintais mais distantes. Mas o fato é que ele ficou ali sozinho, perdido no meio dos galhos sem que ninguém percebesse. Por estar tão desfolhado e sem frutos, nem os pássaros pousavam mais no velho cajazeiro. Talvez não gostassem de árvores desfolhadas. Só lhe restou a companhia do rio, que passava a pouco mais de um metro de suas raízes. Mas suas águas, com as enchentes que já estavam chegando, passavam tão rápidas que mal dava tempo para uma prosa.

   Mas não tinha sido assim no início do inverno, quando as águas de seu leito baixaram e ficaram mais lentas a caminho do mar. Aí tiveram tempo bastante para conversar. Dele, o rio ficou sabendo os mistérios da vida e da morte de um humilde cajá-manga, desde o nascimento na primavera até se transformar numa fruta adulta e pronta para ser colhida. Falou de sua condição estranha de virar fruto temporão e de tudo mais que sabia.

   - Nós, os frutos, não temos a importância de um grande rio - disse ele numa noite de muita solidão - que vem lá das montanhas, percorre uma longa distância e brinca nas cachoeiras antes de se lançar no mar. Mesmo depois de tamanha aventura, vira oceano, evapora, vira chuva, vira orvalho e começa tudo de novo. Eu invejo sua eternidade.

   E diante de tanta tristeza, o rio falou das vantagens de ser um cajá e não ficar eternamente nascendo e morrendo sem nunca ter fim.

   - Ser apenas um fruto tem lá suas vantagens, amigo cajá. - Afirmou o rio fazendo com que ele se sentisse melhor. - É claro que se ficasse para semente seria como um rio, que ao evaporar vira chuva e cai de novo em suas nascentes, começando tudo outra vez.

   Mas o velho cajá não se deu por convencido:

   - Nascer de novo? Como? Perdido aqui como estou, ninguém vai me plantar em outro lugar quando eu cair. Ninguém mais se preocupa com um velho cajá como eu. Vou apodrecer no chão e nunca mais ver a passagem das estações nem as flores de mais uma primavera.

   Então o rio lhe prometeu que cuidaria para que isso acontecesse assim que chegasse sua hora.

   A brotação da primavera cobriu de novo o cajazeiro de folhas e começaram a nascer os primeiros frutos. Estranhando aquele cajá grandalhão, amarelado e cheio de rugas, os cajazinhos verdes que nasciam logo começaram a chamar o velho cajá de "vovô cajá-manga". Apesar de estranhar no início, aos poucos ele começou a gostar do apelido carinhoso e amar a todos como se fossem realmente seus netos. O importante é que ele passou a ter companhia e com quem conversar. Se as águas do rio já não lhe davam atenção, a primavera, como num milagre da natureza, dava a ele a oportunidade de viver de novo mais uma estação. Essa era uma das vantagens de se viver muito e envelhecer, pensava com alegria.

   E o vovô cajá-manga temporão passou toda aquela primavera contando histórias para os cajazinhos que nasceram. Histórias alegres, como as dos passarinhos que fizeram ninhos em seu galho, das revoadas das garças que sobrevoavam o rio todas as tardes, das lontras e das capivaras que vinham comer os peixes que pescavam junto às raízes de seu tronco. Sem falar dos colibris que os beijavam quando ainda eram apenas flores nos galhos do cajazeiro e nos arco-íris que pintavam o céu nos dias de chuva com sol. Só ficavam assustados com as histórias das noites de trovoadas e das tempestades que já tinha enfrentado, quando vários frutos caíam ainda sem estar maduros. Mas logo ele os acalmava dizendo que isso fazia parte da natureza.

   - Nascer, viver e morrer é o grande espetáculo da vida. - Dizia ele com sua experiência.

   E numa noite, quando já se aproximava o verão, o cajá-manga temporão anunciou que chegara a sua hora de partir e que havia mais algumas coisas que eles precisavam saber. Foi um momento de muita tristeza entre os cajazinhos que já estavam quase maduros.

   - Como acontece todos os anos - começou ele a falar - um de vocês terá de ficar para receber os novos frutos que nascerão e contar para eles as histórias que contei durante toda a primavera. Aquelas alegres e felizes e as mais tristes também. Em todas elas se escondem ensinamentos que só os anos de experiência nos trazem. Esta é uma forma de preservar a nossa própria espécie e de manter as nossas tradições e nossos costumes, desde que o mundo é mundo e por muito mais tempo ainda.

   - Mas não se preocupem - continuou ele falando - se vivi demais para ver muitas tristezas, também não tenho do que me queixar. Só o espetáculo de assistir o sol nascendo em cada manhã e o canto dos pássaros saudando as primeiras luzes do dia, valeram todos os sacrifícios. Sintam também essas pequenas alegrias e outras que a natureza vai brindar vocês pela vida afora. Só então verão que valeu a pena viver, que valeu a pena existir nesse mundo de Deus. Mas não se esqueçam jamais - finalizou o velho vovô cajá-manga - de que somos todos peças importantes da natureza. De minha parte, espero apenas cair com o vento da madrugada e cumprir meu destino. E que aquele dentre vocês ficar para temporão, receba com alegria a sorte de ver duas primaveras.

   E na madrugada seguinte, o velho cajá-manga caiu como havia previsto. Mas ao contrário do que esperava, rolou para dentro do rio, o velho amigo de sua pequena existência e de quem um dia tivera inveja. Com alegria ele o acolheu em suas águas, para cumprir a promessa de lhe dar a eternidade. Depois de ir ao fundo, voltou à superfície e, sem vida, desceu boiando, parando aqui e ali nos pequenos remansos e nas pedras das cachoeiras. Sempre em direção ao sol que já aparecia nos confins do vale, ficando cada vez mais longe do local onde havia nascido. Era como se viajasse em direção a um outro mundo, um mundo desconhecido e distante. Mas levava dentro dele, mesmo que já sem vida, a memória de sua espécie para renascer em outra existência.

   Por fim o rio, numa onda mais forte, o jogou nas margens onde encontrou terra firme. Dali se despediu dele depois da longa caminhada. Tinha cumprido a promessa que lhe fizera e seguiu seu caminho ao encontro do mar. O sol do verão secou o resto da polpa que os peixes não comeram e fez dele um caroço ressecado e fértil. No outono começou a brotar, com pequeninos galhos procurando espaço para crescer. Com o passar dos anos ele se transformou num cajazeiro adulto e renovou seu ciclo de vida. Era a eternidade prometida pelo velho amigo. Na primavera seguinte, brotaram os primeiros frutos e ele renasceu em um deles, começando tudo de novo. E ao acordar, foi surpreendido por uma voz que lhe falava:

   - Bem-vindo à vida, amigo cajá-manga! - Era uma gota d'água de seu amigo rio que tinha se evaporado e caído no orvalho da manhã.

Pedro Teixiera
pedroteixeira.online@bol.com.br
Coleção "Sítio da Lontra Assanhada"
Histórias do Vô Ludugero
( 8 a 12 anos de idade )

 

 


 

 

 

 

 

 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados