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O
toureiro
Existe
um hábito muito corriqueiro em nossa sociedade, o de colocar
apelidos nas pessoas. Os apelidos surgem para achincalhar as nossas
características, tais como hábitos, aparência
física, comportamento social, um fato acontecido, etc.
Em Calçado essa prática sempre foi muito comum:
Faísca, Jiló, Caçapa e Tiríssa foram
alguns dos mais conhecidos de que me lembrei.
No
meu caso, também já fui vítima de um apelido
por um fato ocorrido nos anos 60.
Naquela época os bois eram levados ao
matadouro municipal puxados por laços que ficavam presos:
uma ponta nos chifres do animal, e a outra na cela do cavalo do
boiadeiro que o conduzia. Com o tratamento, quase sempre cruel,
que os boiadeiros dispensavam aos animais, eles ficavam estressados
e sempre escapavam do laço saindo em disparada pela cidade.
As pessoas, nas ruas, corriam desesperadas à frente do
animal procurando um abrigo seguro. A cena era tragicômica.
Minha
família havia mudado recentemente da Fazenda Velha para
Calçado, e, sempre que aparecia uma oportunidade, eu retornava
à Fazenda para matar a saudade dos amigos que deixei por
lá. Num certo dia de verão, acompanhado do primo
João Bosco, saí logo após o almoço,
sob aquele sol escaldante, com destino à Fazenda Velha.
A caminhada era longa, por volta de uma légua, e a nossa
esperança era conseguir uma carona.
Ao
terminar a travessia da ponte da Vala, ouvimos uma mistura de
sons, tropel de cavalos, berro de boi e uma gritaria. Na confusão
daquela algazarra era possível distinguir uma voz que dizia
aos gritos:
- Cuidado com a vaca, saiam da frente que ele
é brava!
João
Bosco e eu ficamos perdidos com aquela mistura de sons, e não
sabíamos de que direção vinham. De repente
surge, na curva da casa do Sr Jovelino Tatagiba , uma vaca em
disparada vindo em nossa direção. A vaca era daquelas
com chifres imensos do tipo indiana, seus olhos estavam arregalados
e bufava, soltando uma gosma branca pelo nariz.
Zé Lopinho, o boiadeiro, corria com o
seu cavalo atrás do animal totalmente descontrolado, gritando
desesperado:
- Sai da frente moleque, que essa vaca é
brava.
O
que fazer...? Voltar e atravessar a ponte correndo não
daria tempo, pois com a velocidade em que a vaca se aproximava
nos alcançaria antes mesmo de chegarmos ao meio da ponte.
Escapar pelas margens do rio era arriscado pois havia uma cerca
de arame ao pé do barranco que não dava para saltar.
Ficamos parados alguns segundos antes de tomar a decisão.
O
João Bosco, como era maior, mais esperto e corria mais,
não teve dúvidas, saiu em disparada voltando em
direção à ponte . Não tive o mesmo
reflexo, fiquei parado por mais alguns segundos. De repente, senti
um solavanco nas costas, e uma dor sufocante por todo o meu corpo.
Meus pés fugiram do chão e decolei num vôo
por sobre a cerca de arame. A vaca havia me acertado uma cabeçada.
Por sorte os seus chifres passaram debaixo dos meus braços
sem atingir partes de meu corpo.
Ao
cair de bruços no meio do brejo, do outro lado da cerca,
pensei que minha agonia já havia terminado, quando senti
novamente uma pressão imensa nas costas. Era a vaca de
novo, que, ao me atirar pelo barranco, soltou junto, caindo com
o seu corpo sobre o meu. Pensei, - agora não tem jeito,
a vaca vai se levantar e acabar comigo.
Não
sei se pela gritaria do Zé Lopinho ou pelo susto, a vaca
levantou-se de cima do meu corpo e saiu em disparada pela margem
do rio.
Permaneci
deitado e imóvel por alguns segundos, achando que havia
quebrado uma meia dúzia de ossos e que alguma parte do
meu corpo estava perfurada pelos chifres da vaca. Felizmente nada
de grave aconteceu, apenas alguns arranhões e um o corpo
dolorido pelas ações do peso da vaca e da queda
sofrida.
O
Zé Lopinho, após se recuperar do susto, gritou ,
rindo e fazendo a maior algazarra:
-
É moleque você tem sorte, você parece um toureiro.
O
apelido não pegou, como se diz na gíria, mas para
o Zé Lopinho ele continua até hoje. Quando me encontra
não esquece e grita:
- Toureiro, ô Toureiro...
Oscar
Rezende
roscar@uol.com.br

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