Deixando de lado a ingenuidade da História
Oficial, é claro que o "heróico brado" proferido
às margens do Ipiranga não foi uma atitude impensada
do Príncipe Regente. Era natural que se esperasse alguma
reação por parte de Portugal e, conseqüentemente,
teria o Brasil que se preparar para tanto. Ademais, Portugal não
ia se conformar facilmente com a perda de tão rico território.
Prevendo, assim, uma reação armada
da Coroa Portuguesa e não podendo contar tão somente
com o então incipiente exército nacional, a História
nos conta que o Império do Brasil partiu para contratar
militares estrangeiros. É aí que entra a história
do major Von Shaeffer, responsável que foi pela chegada
dos primeiros alemães ao Brasil.
Com efeito, em documento datado de 21 de agosto
de 1822, portanto, antes da proclamação da independência,
o ministro dos Negócios Exteriores, José Bonifácio
de Andrade, cumprindo ordens de D.Pedro, repassava ao alemão
Von Shaeffer, uma estranha missão, cujo texto das instruções
respectivas, por amor à sua fidelidade, prefiro transcrever.
Foram estas as instruções passadas ao "Patriarca
da Independência":
"4º
- Depois de ter sondado as vistas da Corte de Viena e dos outros
Príncipes da Alemanha, e de ter
procurado interessá-los a favor do Brasil, passará
a outro ponto essencial de sua missão,
que vem a ser: ajustará uma colônia rural-militar
que tenha mais ou menos a mesma organização
dos Cossacos do Don e do Ural."
Adiante, no mesmo documento, esclarece Bonifácio
que os "atiradores" deveriam ser transportados ao Brasil
"debaixo do disfarce de colonos" e que deveriam servir
como militares pelo espaço de seis anos. E assim, partiu,
não se sabe o dia - a missão era secreta - o major
Von Shaeffer para a Europa, em cumprimento do que lhe fora atribuído.
Contudo, não se sabe por que cargas d'águas, o major
recrutou, em vez de Cossacos russos, seus patrícios alemães.
Creio que, já esgotado da viagem, deve ter achado a Rússia
meio distante.
A verdade é que, na manhã do dia
24 de julho de 1823, zarpava do Porto de Amsterdan, com destino
ao Rio de Janeiro, a galera holandesa "Argos". A bordo,
não os temíveis Cossacos, mas sim 310 alemães,
homens, mulheres e crianças, dando início à
grande emigração germânica para o Brasil.
Alguns eram militares, outros lavradores. Os homens adultos, porém,
todos "em condições de armas", conforme
exigiu o imperador.
A maioria desses alemães era originária
do Grão-Ducado do Hesse. Entre eles estava Heirich Junger,
sua mulher e três filhos. Sendo esta, portanto, a origem
da hoje numerosa família Junger no Brasil. João
Henriques Junger, avô do coronel Alfredo Junger Vidaurre,
era um desses filhos do imigrante Heirich. É curioso notar
que o nome próprio "Henrique" é a versão
em língua portuguesa de Heirich. Já o nome Henriques,
no plural, trata-se da forma genitiva, ou seja, Henriques (com
"s" no final) significa "filho de Henrique".
Voltando à Europa, penosa teria sido
a travessia do Atlântico, segundo descreveu um dos emigrantes,
o chefe da expedição, Conrado Meyer. Logo nos primeiros
dias de viagem, duramente castigado por tempestades contínuas,
o "Argos" perdeu seu mastro principal e, por 22 dias,
ficou praticamente à deriva no Mar do Norte, tendo assim
que retornar ao Porto de Amsterdan.
Recolocado o mastro, armazenada novas provisões
e, naturalmente, substituído o capitão, parte novamente
o "Argos", a 10 de setembro, em busca de novas aventuras
e "desventuras". Nessa oportunidade, contudo, 26 colonos/soldados
desistiram da sofrida empreitada. Nova partida e novos ventos
contrários fizeram a galera, ainda no Canal da Mancha,
lançar âncoras, agora numa tal Ilha de Cowes. E mais
15 dias parados.
Novamente no mar, medonhos furacões,
segundo as palavras de Meyer, jogaram o navio na Baía de
Biscaia e, depois, nas costas de Madagora, na África. Nova
parada, agora na Ilha de Tenerife. E dessa ilha ao Rio de Janeiro,
14 pessoas tiveram o Atlântico como sepultura: duas crianças
e doze adultos. Dois outros já haviam morrido afogados
no Rio Sena, ainda em território alemão.
E finalmente, no dia 14 de janeiro de 1824,
quase cinco meses após sua partida de Amsterdan, desembarcaram
na "Armação da Praia Grande", no Rio de
Janeiro, 270 alemães. Ali, vários deles, provavelmente
os solteiros, foram alistados no Exército, mais especificamente
no chamado "Batalhão de Estrangeiros". Os demais,
no dia 27 de abril, deixam o Rio de Janeiro e seguem com destino
à Nova Friburgo. Foram se juntar aos suíços,
que em 1819, ainda sob o reinado de D.João VI, haviam fundado
uma colônia naquela localidade. A colônia estava em
decadência e a chegada dos alemães deu a ela novo
ânimo.
Em Nova Friburgo os Junger fizeram amizade com
uma família de suíços: os Poubel. Tal amizade,
que perdura até hoje entre os seus respectivos descendentes,
culminou com inúmeros casamentos entre seus membros. A
ponto de se ter a impressão de que constituem hoje quase
que uma única família.
Pouco tempo, porém, ficaram os Junger
na Colônia de Nova Friburgo. Na verdade, eles não
se contentaram com a quantidade e a qualidade das terras oferecidas
pelo império. Pequenos lavradores eles eram na Europa.
Aqui, diante de tantas terras, queriam era ser latifundiários.
Ou não foi para isso que enfrentaram toda sorte de riscos
para chegar ao Novo Mundo! Ou, como afirmou naquela oportunidade
um colono suíço: "nesta terra ninguém
se contenta em viver, todos querem enriquecer".
Assim, em março de 1828, obtiveram do
imperador licença para abandonar a colônia, indo,
juntamente com os Poubel, para a região de Santa Maria
Madalena, também no Estado do Rio de Janeiro. O objetivo
era buscar terras mais quentes para o cultivo do café.
E, finalmente, daquela região, alguns integrantes dessas
duas famílias, na segunda metade do Século XIX,
vieram para São José do Calçado.
José
Alfredo Junger Vieira
Do
livro "São José de Calçado não
cabe em apenas uma crônica"
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