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Ouvi
dizer, há muito tempo, que Zé Benedito nasceu num
carro de bois. Temos uma compreensão muito sutil das coisas
que ouvimos na infância. Podemos transformá-las numa
bobagem ou numa lenda. Pra mim, ficou a lenda. E, por não
desmenti-la em mim mesmo, aí nasce mais uma.
Imaginava,
então, meu pai, parido entre esteiras, recebendo a visita
dos Reis Magos, iluminados os seus primeiros dias pela luz da
Estrela do Oriente, as juntas de boi pacificamente colocadas adiante,
ruminando as horas.
As
lendas nascem do povo, da massa leiga, da boiada humana (estas
duas expressões, tomei-as emprestadas a uma crônica
do Carlos Drummond de Andrade). Foi com essa compreensão,
profundamente cravada em minhas lembranças, que retornei
recentemente a São José do Calçado. Tanto
tempo depois, reencontro meu pai carreiro outra vez, homenageado
por haver trilhado com seu garruchão, suas juntas de boi
e sua destreza um trecho da história dessa terra.
Certo é que Zé Benedito ganhou
a vida com o carro de bois. Modo rude, modo difícil, modo
inesperado de se ganhar a vida. Quando me lembro de meu pai cavando
a vida com o carro de bois, tenho uma ainda inexata compreensão
do atrito da madeira do carro em movimento, madeira que geme e
se contorce na condução da história da gente
simples e anônima como ele. Fácil não terá
sido a vida de meu pai, isto é certo. Como não terá
sido a vida de muita gente, nem por isso menos digna.
São José do Calçado tornou-se,
para mim, um depósito de lembranças. Creio que é
nisso que mais resida sua significação. Já
não vejo pessoas nas ruas, sentadas num banco da praça,
tateando o breu das noites frias. Posto em sossego noite adentro,
vejo passearem sobre o calçamento de suas ladeiras as abantesmas
de uma memória que teima contra o tempo em que vivo, o
meu próprio tempo.
Reencontrei meu pai em sua roupa de carreiro.
Ao vê-lo assim, difícil tramar a fronteira entre
meus próprios sonhos de passado e a realidade brutal do
presente. Um bom chapéu, a calça de brim cáqui,
a camisa largada sobre o corpo compunham a mesma indumentária
de tantos anos passados. Diferente em meu pai, só as botas.
Naquele tempo em que Zé Benedito foi carreiro, descalço
é que andava, rachando os pés em nossa história
nem sempre justa.
Ao lado de meu pai, comecei a ver os velhos
parceiros: padrinho Luisinho, Zé Roberto, Zé Pretinho
(este, agora morto, fui encontrá-lo na infância,
a primeira vez, sentado debaixo do eixo, escondido do calor, uns
olhos brilhantes saltavam da pele negra, um menino como eu). E
me vi a mim também, transformado em candeeiro (a pronúncia
corrente é candieiro, com notável palatalização
do fonema d) e a meu irmão, que gritava com os bois como
meu pai gritava e a este provocava tanto riso.
Foi assim que meu pai desfilou, carreiro do
ano numa festa bonita que eu não conhecia em São
José do Calçado (bendita é a cidade que reconhece
seus profetas), carreiro outra vez. Em cima do carro de bois,
cinco netos: Rogerinho, Mariana, Ana Cláudia, Amanda e
Ana Paula. Atrás do carro de bois, dona Anna parceira da
vida inteira, com uma inacreditável vitalidade, acompanhava
meu pai, e nós, os filhos e agregados ali íamos
também.
Observando
meu pai, no entanto, vi quem desfilava verdadeiramente. Era o
tempo, esse rubicundo senhor de ímpetos indomáveis,
dominado sob o garruchão com que o velho carreiro guiava
o carro de bois pelas ruas de São José do Calçado.
O tempo era o terceiro boi de guia, cabisbaixo e obediente como
deve ser o boi. Meu pai congregava a seu lado seus velhos fantasmas,
seus mestres, uma multidão de sombras acompanhava meu pai
pelas ladeiras de São José do Calçado. Eia,
adiante, boi, que é hora de viver.
A
história de uma cidade tem várias caras. Nem sempre
a verdadeira, escondida atrás de heróis insignificantes
e lendas incipientes. Pensando em nossa própria história,
nem sempre consigo evitar a dor. Os Nunes são notáveis
pela teimosia, uma gente que parece carregar séculos de
angústia e uma obstinação febril.
Realizadores silenciosos, concluo pelo meu pai,
que vive em estado de contemplação. É como
se construíssem poemas rudes em uma língua silenciosa.
Zé Benedito é um desses homens, capaz de gestos
prosaicos como construir açudes para passar horas observando
os peixes sem o menor desejo de pescá-los.
Pareceu-me
desproposital este último parágrafo após
a releitura. Mas me explico já. Pouco antes do cortejo,
na concentração, um dos bois de coice de tio Carrinho,
irmão mais novo de Zé Benedito, resolveu rebelar-se.
Criou uma bela confusão no meio da rua, causou ajuntamento
do povo e fez uma festa à parte.
O
dono do boi insistia, os carreiros trouxeram sua experiência
e o boi insistia numa revolta que deixou alguns circunstantes
menos experientes temerosos do desfecho da festa. Eu, posto em
sossego, observava a luta de meu tio contra a teimosia do animal.
Para os circunstantes parecia uma obstinação, para
mim não era senão mais uma das tantas cenas que
vi na infância. A coisa ia mais ou menos por aí quando
ouvi uma senhora, aflita por todos os poros, aconselhar, num solilóquio:
-
O dono desse boi devia desistir, isso vai acabar mal.
- Eu conheço esse homem, minha senhora,
e essa raça e posso dizer-lhe: esse boi desfila nem que
seja morto dentro do carro de bois - não pude conter-me
em dizer-lhe.
Mais
tarde, o apresentador da festa, um sujeito simpático e
falastrão, justificava os problemas enfrentados pelos carreiros
que desfilaram:
-
Vocês (dirigia-se à platéia meio aflita, meio
encantada) estão pensando que os bois desfilariam cordeiros?
Eh, minha gente, lá no eito, no meio do mato, vida de carreiro
não tem facilidades, não.
O
povo, sim, é que constrói a história. Volto
à digressão para suspeitar que os grandes homens
a usurpem. E assim é que corre o tempo. Mais tarde, conversando
com Zé Benedito, disse-me ele:
-
Não houvesse problemas, teríamos uma bela festa.
Em compensação, teríamos deixado de mostrar
tudo quanto eu e meus companheiros de ofício enfrentamos
a vida inteira.
Eu,
olhando a cordilheira do Bandeira, que vira para a Alegoria, aquiesci,
e ruminei meu silêncio diante dos verdadeiros heróis
de uma terra que talvez nem seja digna deles. Heróis belamente
representados pelo meu pai, Zé Benedito, pelos velhos mestres
carreiros e por todos aqueles que desfilaram pelas pedras das
ladeiras de São José do Calçado o passado
de uma construção silenciosa e quase sem brilho.
Pedro
J. Nunes
pjnunes8@hotmail.com

Do livro: "São José de Calçado não
cabe em apenas uma crônica"
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