dezembro de 2006
Breve
esclarecimento à publicação dos inéditos
do romance Menino
O
site Broinha passa a publicar com exclusividade os capítulos
inéditos do meu livro Menino, cuja primeira edição
foi publicada em 2000 pela Secretaria de Cultura do Espírito
Santo após ganhar o Prêmio Virgínia Tamanini
de Romance. O livro teve uma segunda edição em 2005
pela editora Formar.
Alguns
desses trechos inéditos foram publicados pelo jornal A
Ordem há algum tempo, mas a iniciativa empacou no meio
do caminho, restando ainda razoável matéria. Oportunamente,
são publicados aqui.
Sempre
alentei o desejo de publicar esses capítulos e trechos
inéditos por diversas razões, uma delas por se tratar
de cara matéria memorialística, outra delas por
estabelecer padrões que caracterizam melhor as opções
que escolhi na estrutura do livro e que, sendo mantidas no texto
final, poderiam ensejar obsolescência ou prolixidade. Não
se trata, portanto, de matéria de “sobra” nesse
sentido depreciativo que a palavra eventualmente possa vir a ter.
Deve ser escandido que, sendo “sobra”, isso ocorre
apenas porque não coube na estrutura do romance, possuindo
para mim a mesma importância daquilo que permaneceu no texto
definitivo.
Talvez
a preocupação mais evidente na escrita de meu romance
Menino, tenha sido a de dar ao narrador a voz típica da
idade que possuía. Isso se evidencia na exposição
de seus sentimentos: “Afastavam-me de minhas explorações
sem oferecer a menor satisfação, impunham colos
e braços, impediam-me os movimentos. A fauna doméstica
dava-me lábios incontáveis, cheirava-me, fazia-me
cócegas, vozes amáveis vestiam roupas que teimava
em tirar. Meus protestos eram inaproveitáveis. Tiranos
e curiosos, divisados na névoa indistinta, os adultos me
intimidavam.”; na estranheza das percepções
que não passavam de um esboço a ser desenvolvido
quando a maturidade chegasse, se que é chegaria algum dia:
“Ora retraído, ora encantado, o tempo em mim corria
suas más dádivas sem que desse conta, as sensações
iam sendo substituídas rápido demais para que pudesse
domá-las. Às vezes tudo ganhava uma natureza imóvel,
silente. O vento forte vinha, varria tudo. Todas as coisas que
fizeram o confuso primeiro instante da existência tinham
seu teor de tirania. Meus caminhos se ofereciam além da
sombra, acenando-me com riscos e gozos. A infância, afinal,
parecia acenar-me, dócil, cariciosa, dissimulada, feita
de tantas esquinas que vivê-la, ou decidir vivê-la,
não era decisão a ser tomada sem susto, sem sentir
no rosto a ventania fria que vinha de fora. Necessário,
todavia, arriscá-la, a despeito de todos os seus sortilégios
e curvas, suas dores e brisas, e presenças: as desejáveis,
as indesejáveis. Era a própria vida e sua índole,
à espera de quem domasse seus elementos e a transformasse
em aliada, ou fosse tragado pela fúria de seus redemoinhos.”;
ou, para finalizar por aqui, na caracterização imparcial
dos adultos: “Desocupados de mim, os bípedes da fauna
doméstica se preocupavam com minhas duas irmãs mais
novas, ainda muito dependentes de cuidados, e com meu irmão,
que havia nascido muito recentemente para que Dona Anna, Zezé
ou Zé Benedito tivessem ocasião de me pôr
todos os seus olhos.”
Esse
cuidado na escrita, aliado a tantas outras providências,
deveria ser suficiente para estabelecer que Menino não
é um livro de memórias, mesmo parecendo ser, mas
um romance com estrutura temática bem definida, em que
uso experiências e fatos de minha própria infância
em São José do Calçado até a idade
de onze, doze anos, localizando nesse período um e outro
fato posterior de minha vida para maior enriquecimento da trama
linear estabelecida na arquitetura primordial.
Houve,
é certo, pontos de fuga da realidade de minha infância.
Alguns posicionamentos que surgem tanto do texto definitivo quanto
dos inéditos é pura caracterização
dos caminhos estilísticos e temáticos que escolhi
e na pintura hiperbólica da paisagem. Há, no primeiro
capítulo, um trecho que desmente descaradamente a relação
que o menino feliz que eu fui teve com as famílias materna
e paterna. Vamos citá-lo:
“Tiranos
e curiosos, divisados na névoa indistinta, os adultos me
intimidavam.
Entravam
feito uma praga no meu território. Com o tempo, fui compreendendo
que eles tinham relações muito íntimas ora
com Dona Anna, minha mãe, ora com Zé Benedito, meu
pai. Isso delimitava as famílias de meus pais. Uma gente
ruidosa era a família materna, que reclamava de meus olhos:
—
Ele tem uns olhos vesgos, tristes.
Os
Nunes, gente de Zé Benedito, eram pessoas severas, calados
olhos e pouco vento. Quase não os via.”
Ora,
isso é puramente romanesco, nada tem a ver com a realidade
da relação feliz, doce e inesquecível que
tive com todos os meus avós, tios e primos. A bem da verdade,
sofri muito com a ausência, na estrutura do livro, de várias
dessas pessoas fundamentais.
Confesso,
e é inevitável à sombra do que acabei de
expor, haver durante o período consumido pela escrita algumas
crises de receio de estar cometendo alguma injustiça com
todas as pessoas que, ausentes do livro, são pessoas presentes
na minha vida até hoje com toda a importância que
tiveram e têm. Esse receio se fundamenta justamente na possibilidade
de existir uma expectativa equivocada, talvez mais imaginada por
mim que real, de que Menino fosse puramente um livro de memórias
de um adulto inconformado com seu tempo a retornar à infância
com saudade. Meu livro não tem essa intenção.
Pelo contrário, é um livro em que a infância
é exposta com a secura de um coice, não há
canteiros onde medre pieguice ou sentimentalismos.
Pois
bem. E para que essa justificativa não se alongue e espante
o eventual leitor, creio que os pontos aqui colocados esclarecem
dúvidas que possam eventualmente ter existido quanto ao
romance e clareiem o caminho de quem se aventurar tanto pelas
páginas do livro quanto pelo éter dos inéditos.
Mas não se espante o leitor com as notas que surgirão
ao longo dos textos. São apenas acréscimos a que
dá oportunidade o texto publicado.
Se você
deseja falar com o autor para expressar alguma opinião
ou simplesmente estabelecer um contato, clique aqui."
O
link é: http://www.tertulia.art.br/pedro_j_nunes/contato.htm
Pedro
J. Nunes
Vitória, dezembro de 2006.